Rodoviários são os que mais sofrem de transtornos mentais

Afastamentos por tendinite e transtornos mentais mudaram a rotina de Gil

O motorista Gil José da Silva, de 50 anos, lembra com detalhes do dia 17 de junho de 2017, sua última manhã de trabalho antes do mais recente afastamento. Eram 7h15, na linha 760 – Dois Unidos/Derby, da empresa Caxangá, quando dois rapazes, armados, subiram no coletivo. Arma apontada para a cabeça, para a boca, ameaças, xingamentos dirigidos a ele e à cobradora. A situação foi o “fim da picada”, como ele mesmo define.
Diagnosticado com transtorno misto de depressão e ansiedade, além de transtorno de humor não especificado, Gil hoje evita lugares com aglomeração de pessoas, incluindo os ônibus. Assustado e com medo, às vezes fica em casa isolado. “Enclausurado”. Afastado das funções desde o trauma do último assalto, sétimo em sua carreira de 12 anos como rodoviário, ele diz que gostaria de voltar a trabalhar, mas em outras condições físicas e psicológicas.

O adoecimento do motorista começou pelo corpo. Afastado cinco vezes por tendinite, Gil conta que tem muitas dores. A tendinite, inclusive, atingiu várias partes, como os ombros, cotovelos, punhos, patela e tornozelos. “Tava generalizada. A extensão tá muito grande e vai aumentando. Você sente aquela dor cansada, queimando, ardendo. Fica sem força e incha a parte afetada. Fica sem se locomover, sem ter nenhum movimento do braço e na perna. Dores terríveis”, relembra.

Com os transtornos mentais, Gil vive o seu sexto afastamento pelo INSS. A rotina foi afetada pela inclusão de três remédios, que toma diariamente e o acompanhamento por um psicólogo, um psiquiatra e um fisioterapeuta. “A empresa não deu suporte nenhum. Não dá nada. Eu queria que eles tivessem mais consciência, fossem mais humanos e olhassem mais para a classe”, afirma.

Depressão e ansiedade são principais transtornos

Foto: Guga Matos

No Brasil, o setor econômico mais acometido por transtornos mentais é o de transporte coletivo urbano. E os adoecimentos mentais são a terceira maior causa de afastamento no País. Quem faz o alerta é a procuradora Gabriela Maciel, do Ministério Público do Trabalho de Pernambuco (MPT-PE), que destaca também que entre os mais comuns estão a depressão, a ansiedade e o transtorno depressivo recorrente. “Juntos, os três somam 60% dos casos de concessão de auxílio-doença previdenciário por transtorno mental. São dados do Ministério da Fazenda e da Previdência Social”, diz Gabriela.

Principais causas de afastamento

Afastamentos entre 2012 e 2017
Setor: Transporte rodoviário coletivo de passageiros, com itinerário fixo, municipal e em região metropolitana

Dados: Observatório Digital de Saúde e Segurança no Trabalho – Smartlab de Trabalho Decente MPT – OIT. 2017. Dados acessados em 17/04/2018. Disponível online no seguinte endereço http://observatoriosst.mpt.mp.br

A presidente da ANAMT, Márcia Bandini, explica, ainda, que é importante ver além dos dados oficiais. “É preciso olhar esse números da previdência com uma certa crítica, porque eles mostram só os dados de quem se afastou. Mas atrás disso tem gente que está com transtorno mental, está se tratando e continua trabalhando. A gente não enxerga”, comenta.

Márcia diz também que é necessário um acompanhamento dos profissionais que desenvolveram transtornos mentais e voltaram ao trabalho. “Muitos têm transtorno de estresse pós-traumático, que geralmente verificamos em motoristas e cobradores que foram vítimas de violência e assaltos. Quando acontece isto, o retorno ao trabalho precisa ser acompanhado com bastante cuidado, porque não raro os sintomas se prolongam por até um ano ou dois”.

O ponto que Kaliani Rocha, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), levanta é a questão preventiva da saúde psicológica nos postos de trabalho. “Quando as empresas formatam os programas de saúde, geralmente são coisas ligadas à sensibilização. Fazendo palestras motivacionais no trabalho”, elucida. Para ela, o que resolve na prevenção de adoecimento mental nas atividades laborais é uma boa gestão. “Não adianta se fazer uma sensibilização dos funcionários se não há uma estrutura necessária para um bom ambiente de trabalho”.

Ela acredita que, junto ao trânsito e muitas vezes um mau tratamento por parte dos passageiros, uma coisa que adoece mentalmente o trabalhador é a pressão da gestão por resultados. “Eles (rodoviários) têm um tempo que precisam para cumprir aquele ciclo. Se ele sai do terminal e volta para o local, ali tem prescrito o tempo máximo que ele pode fazer isto. Não depende dele, mas a empresa não reconhece isto”, exemplifica sobre algumas das pressões diárias que a categoria sofre.

Kaliani pontua que, com a crise econômica e a escassez de empregos no mercado, fica mais evidente um medo por parte dos trabalhadores perderem seus postos. Com menos oportunidades, também há mais obrigações para quem trabalha. “Então a empresa deve se questionar: devo estar sobrecarregando o trabalhador? O que posso fazer para deixar o trabalhador menos sobrecarregado. Então é pensar na gestão, pensar em ouvir quem trabalha”, completa a professora.

Os impactos nas famílias

“O médico disse que eu estou doente por ter suportado tudo aquilo. Eu fiquei em uma neura que eu não podia ir no banheiro. Eu, meus filhos… a gente ia no banheiro, se a gente fosse urinar, a gente tinha aquela preocupação de olhar para a privada para ver a urina”. O depoimento é de Mirtis Luiza, de 45 anos, casada com o ex-motorista de ônibus Valter Alves Barbosa, acometido com insuficiência renal.

A doença de Valter mudou a vida de toda a família desde os primeiros sinais. Mirtis relata que, à época da descoberta, trabalhava em uma fábrica de interruptores. Quando veio o diagnóstico, teve que largar o emprego. Para pagar as contas, enquanto Valter não recebia o benefício do INSS, teve a ajuda de suas duas filhas de 25 anos. Além delas, Valter e Mirtis ainda têm um filho de 17 anos.

“A gente parou no tempo. Teve que focar só naquilo. Os filhos, tudo. Porque vem o lado financeiro, vem o gasto. Mudou totalmente a alimentação dele. Hoje em dia é zero sal. Essa alimentação light, diet, requer recursos financeiros. Tudo é muito caro”, afirma. Além da questão financeira, houve também as adaptações à residência onde o casal e os filhos residem. “A casa era de telha e disseram que o ambiente tinha que ser muito limpo nos três primeiros meses. Botamos PVC. Não podia usar ventilador, instalamos um ar-condicionado e a água só podia ser de uma marca específica, porque o teor de potássio é menor”, acrescenta Mirtis.

Expediente

1 de maio de 2018

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