A saga chega aos mil

Há 98 anos, diante do Exeter City, da 3ª divisão da Inglaterra, a seleção brasileira disputava sua primeira partida de futebol. O palco foi o estádio das Laranjeiras, de propriedade do Fluminense. O Brasil ganhou por 2x0 e o dia 21 de julho de 1914 marcou o pontapé inicial da seleção mais vitoriosa da história. Saga que chega ao milésimo jogo na próxima quarta-feira, em amistoso contra a Colômbia. De hoje até quarta, o Jornal do Commercio recorda partidas e fatos marcantes durante esta trajetória. Textos de João de Andrade Neto e Marcos Leandro.

Julho de 1914. Cartazes foram espalhados pelo Rio de Janeiro, então capital federal, em postes e lojas para anunciar o “match”, ou melhor, o jogo entre Brasil x Exeter City, da 3ª divisão da Inglaterra, que vinha de uma excursão pela Argentina. O futebol já era praticado no País desde a década passada, mas precisava de um empurrãozinho. Foi assim, com uma publicidade bem pueril, que foi “vendido” o primeiro jogo da história da seleção brasileira.

Noventa e oito anos depois, contando com 11 patrocinadores, seleção se prepara para entrar em campo pela milésima vez – algumas estatísticas divergem desta contagem. Mas pelas contas da CBF, o jogo 1.000 será mesmo na próxima quarta, em amistoso contra a Colômbia, no estádio MetLife, em New Jersey, Estados Unidos.

Voltando ao passado, mesmo com a divulgação à base de cartazes e no boca-boca, a estratégia deu resultado. No dia 21 de julho de 1914, cerca de cinco mil pessoas (lotação total) compareceram ao estádio das Laranjeiras, do Fluminense, para acompanhar o jogo.

A Federação Brasileira de Sports Terrestres (FBST), a CBF da época, convocou os melhores jogadores de São Paulo e do Rio de Janeiro. O principal deles, Arthur Friedenreich, que seria o primeiro grande ídolo do escrete nacional durante as duas primeiras décadas do século passado. Mas os que entraram para a história como os primeiros a marcarem gols pela seleção brasileira foram Oswaldo Gomes e Osman, na vitória por 2x0 ante o Exeter City.

O resultado foi considerado uma surpresa. Apesar de ser da 3ª divisão inglesa, o Exeter City vinha de um centro que já tratava o futebol profissionalmente, ao contrário do Brasil, que ainda vivia a época do amadorismo. Prova disso foi que os ingleses haviam vencido um combinado de jogadores compatriotas que atuavam no Rio por 3x0 e a Seleção Carioca por 5x3.

E durante o jogo contra o Brasil, o time inglês fez de tudo para não perder, usando, inclusive, a violência. Friedenreich teve dois dentes quebrados. Rubens Salles sofreu uma pancada nas costelas. A vitória na estreia era um indício de que ali nascia um escrete que merecia respeito.

Ainda em 1914, o Brasil venceu a Argentina, que também tinha um futebol mais avançado, por 1x0 e faturou a Copa Rocca (hoje Superclássico das Américas). Foi o primeiro título da seleção brasileira. A popularidade aumentou muito mais com a conquista do Sul-Americano (atual Copa América) de 1919, disputado no Rio de Janeiro. A vitória na final, 1x0 contra o Uruguai, foi acompanhada por 28 mil pessoas nos estádio das Laranjeiras.

Nos anos que se seguiram, cinco títulos mundiais e até algumas derrotas marcantes, com a da final da Copa de 1950 para o Uruguai, no Maracanã e para a Itália, na Copa de 1982, ajudaram a consolidar a seleção como uma paixão nacional. A camisa amarela virou um símbolo do País pelo mundo afora, tão ou mais reconhecida que a própria bandeira nacional. E tudo começou lá atrás, naquele dia 21 de julho de 1914, contra o Exeter City, há 999 partidas.

Curiosidades

A marca dos 1.000 jogos já poderia ter sido alcançada há anos, caso a seleção não passasse quase uma década sem atuar. Foram nove anos sem entrar em campo. Em compensação, em 1956 e 1989 o time nacional bateu o recorde de 24 partidas.

O Brasil também teve três estrangeiros defendendo suas cores. O português Casemiro e o inglês Sidney Pullen, em 1916 e 1917, e o italiano Police, em 1918, de acordo com registros da CBF.

Vitórias memoráveis

Ao longo da sua história, a seleção brasileira se tornou a mais vitoriosa do mundo com 57 títulos conquistados em competições reconhecidas pela Fifa. Entre eles, cinco Copas do Mundo; três Copas das Confederações e nove Copas América. Façanhas muitas vezes marcadas por vitórias memoráveis, inesquecíveis.

Talvez a principal delas tenha acontecido no dia 21 de junho de 1970, na Cidade do México, que valeu o primeiro tricampeonato mundial do futebol. A goleada por 4x1 sobre a Itália coroou um time mágico (para muitos o melhor de todos os tempos), formado, entre outros, por craques como Pelé, Rivelino, Tostão, Carlos Alberto, Gérson e Jairzinho. Todos no auge das suas carreiras.

“Todos os 999 jogos da seleção foram importantes, mas existem aqueles mais emblemáticos. O mais importante jogo da seleção na minha opinião foi a final da Copa do Mundo de 1970 contra a Itália”, disse o atual técnico da seleção brasileira Mano Menezes.

Se a consagração do domínio brasileiro no futebol mundial veio em 1970, o primeiro capítulo foi escrito em 1958. Na final contra a Suécia, dona da casa, no dia 29 de junho, vitória de virada por 5x2 e Taça Jules Rimet na bagagem. “Quando sofremos o gol pensei: meu Deus, será que vamos perder de novo? (se referindo à derrota na final de 1950 para o Uruguai, no Maracanã). Mas aí veio a tranquilidade de Didi que pôs a bola debaixo do braço e disse para termos calma que seríamos campeões”, recordou Zagallo, em entrevista ao JC em 2008.

Voltando mais no tempo, a história das grandes vitórias da seleção chega a 1919, ano do primeiro grande título do Brasil: o Sul-Americano disputado no Rio. A final aconteceu no dia 29 de maio, contra o Uruguai, no estádio das Laranjeiras, abarrotado por 28 mil torcedores. A partida foi uma verdadeira batalha. O triunfo por 1x0 foi definido apenas na segunda prorrogação, com um gol de Friedenreich, o primeiro grande craque nacional.

Mas as grandes vitórias do Brasil não ficaram apenas no passado distante. As novas gerações também podem se orgulhar de ter grandes jogos para lembrar. O último deles talvez tenha sido o de 29 de junho de 2005, na final da Copa das Confederações, na Alemanha, contra a arquirrival Argentina, na primeira decisão entre os dois países fora da América do Sul. Goleada por 4x1, com gols de Adriano (2), Kaká e Ronaldinho Gaúcho. Fora o baile.

Derrotas inesquecíveis

A vitória alegra, lava a alma, satisfaz. Mas algumas derrotas são incuráveis, deixam marcas para a eternidade. E nem mesmo a mais vencedora de todas as seleções é imune a essa dor. Ao longo de quase 100 anos de história e 999 jogos disputados, algumas derrotas ainda machucam o coração do brasileiro.

A mais traumática de todas completou, no último dia 16 de junho, 62 anos. A derrota na final da Copa de 1950 no Maracanã para o Uruguai por 2x1 é eterna. E para entender o porquê é preciso contextualizar o momento.

Antes daquela decisão, as duas seleções haviam se enfrentado 11 vezes, desde 1946, com seis vitórias brasileiras (uma delas por 5x1), três empates e três vitórias uruguaias. Além disso, o Brasil havia chegado à decisão precisando de um empate após vir de goleadas por 7x1 e 6x1 sobre Suécia e Espanha. Para completar o favoritismo, saiu na frente com Friaça, aos dois minutos do segundo tempo. Coube a Schiaffino e Gigghia o improvável. A virada. O silêncio de 200 mil pessoas no Maracanã e outro milhares País afora.

Já tricampeã do mundo, a seleção conheceria outra derrota inesquecível 32 anos após o “Maracanazo”. E ela veio pelos pés de um nome que nunca mais será esquecido dos brasileiros: Paolo Rossi. O atacante, que havia passado em branco até então na Copa de 1982, entrou para sempre no hall de carrascos da seleção ao marcar os três gols da vitória da Itália por 3x2 sobre o mágico time de Zico, Sócrates, Falcão e Telê Santana, no dia 5 de julho, no Estádio Sarriá, em Barcelona. Curiosamente, assim como em 50, o Brasil precisava apenas do empate.

Tetracampeão em 1994, o Brasil voltaria a uma final de Mundial quatro anos depois, na França. E conheceu um novo pesadelo com direito a convulsão, na manhã da partida, do seu maior jogador, Ronaldo, e um novo carrasco: Zinedine Zidane. O craque foi autor de dois dos três gols da vitória da seleção anfitriã por 3x0 no dia 12 de julho de 1998, no Stade de France, em Saint Deni. Essa foi a derrota por maior margem de gols sofrida pelo Brasil em Copas.

A maior goleada sofrida pela seleção, no entanto, aconteceu em 1920, no Sul-Americano. O algoz novamente foi o Uruguai: 6x0.

Balanço:

Jogos: 999 Vitórias: 640 Empates: 206 Derrotas: 153 Gols pró: 2.297 Gols contra: 945 Maior artilheiro: Pelé, com 95 gols em 114 jogos Quem mais jogou: Cafu, com 149 jogos e 91 vitórias Goleiro que mais atuou: Taffarel, 108 jogos e 13 derrotas Quem mais treinou: Zagallo, com 131 partidas e 97 vitórias Maior goleada aplicada: Brasil 10x1 Bolívia – 1949 Maior goleada sofrida: Brasil 0x6 Uruguai – 1920 Anos em que mais atuou: 1956 e 1989 (24 vezes) Anos em que não atuou: 1915, 1924, 1926, 1927, 1929, 1933, 1941, 1943 e 1951



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