Recife em Transformação

A classe média descobre as ruas no Recife dos anos 20


No período colonial e imperial, as ruas do Recife eram consideradas insalubres, sujas e perigosas. Era o lugar de trabalhadores, escravos e ex-escravos. Mas aí chegam os anos 20 para mudar esse cenário. Com o novo padrão urbano que começa a ser adotado na cidade no início do século 20, de avenidas largas e embelezamento de praças e prédios, a elite passa a ocupar as ruas em busca de atividades de diversão, afirma a historiadora Sylvia Couceiro.

A década de 1920, diz ela, é marcada por uma tensão nas vias públicas da capital pernambucana. “Quando a elite começa a frequentar as ruas, há uma disputa por domínio de território. Mas essa disputa de poder gera oportunidades de convivência entre os mais ricos e a camada popular, que continuava ocupando esses espaços, criando um novo padrão de comportamento”, declara Sylvia Couceiro, pesquisadora titular da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).


O footing na Rua Nova no bairro de Santo Antônio. Foto – Fundaj – Cehibra

Ponto de encontro da sociedade, a Rua Nova, no bairro de Santo Antônio, recebeu as lojas chiques e as confeitarias do Recife moderno, que se mesclavam com antigas pensões e prostíbulos. “Às 17 horas, as pessoas se vestiam e saíam para o footing na Rua Nova, para mostrar as roupas e cortes de cabelo da moda, além de procurar pretendentes”, descreve a historiadora. Nada impedia, porém, que na porta da confeitaria tivesse uma vendedora de tapioca convivendo com o progresso da cidade, acrescenta.



Localizada na esquina da Rua da Palma, a Confeitaria Cristal tinha as paredes internas forradas de espelhos. E era por eles que os clientes davam conta de toda a movimentação no salão: quem entrava, quem saía, quem olhava furtivamente para quem. “As confeitarias tinham um papel importante para a sociabilidade das elites”, comenta Sylvia Couceiro, que pesquisou os espaços de diversão e prazer do Recife dos anos 20 para a tese de doutorado em história defendida em 2003 na Universidade Federal de Pernambuco.


Antiga Confeitaria Crystal, na Rua Nova, bairro de Santo Antônio, era um dos locais de diversão no Recife. Foto – Fundaj – Cehibra

A Rua Nova, das Confeitarias Crystal e Biju, era também o endereço dos Cinemas Royal, Pathé e Vitória, uma das diversões em voga na cidade de olho no futuro. “Os primeiros cinemas do Recife surgiram em 1909, mas é na década de 1920 que se estabelecem com mais força, impulsionados pela indústria norte-americana de filmes, que vai ditar a moda, influenciar a maquiagem, o corte de cabelo e os hábitos de fumar e mascar chicletes”, observa Sylvia Couceiro.


Na Rua Nova funcionou o primeiro cinema da Cidade do Recife, o Cine Pathé. Foto – Fundaj – Cehibra

Ir ao cinema, naquela época, não significava apenas assistir a uma sessão de filme. Antes de cada exibição havia apresentações diversas de malabarismo, mágica, palhaço, ilusionista, músicas e dançarinas entre outros entretenimentos. “O escuro do cinema favorecia namoros, troca de bilhetinhos pelas poltronas e também pequenos furtos de bolsas, chapéus e sombrinhas que as pessoas, desacostumadas com o ambiente, colocavam na cadeira.”



Cinco anos antes, em 1922, os recifenses tinham recepcionado os portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral na primeira travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro. O hidroavião amerissou no Rio Capibaribe, nas imediações da Praça Dezessete, no bairro de Santo Antônio, Centro do Recife. A façanha dos aeronautas está registrada em monumento instalado na praça.

Praça Afonso Pena, atual Marco Zero, no Bairro do Recife com seus edifícios ecléticos em 1925. Foto – Fundaj – Cehibra


O Centro do Recife, diz Sylvia Couceiro, passou por transformações, mas continua sendo usado pela população. “A diferença é que houve uma mudança no perfil das pessoas que frequentam essa região, a dinâmica é outra. Não é mais a classe média que ocupa as ruas, como antes”, analisa a pesquisadora do Centro de Documentação e Estudos da História Brasileira (Cehibra-Fundaj).


Expediente

8 de abril de 2018

Diretoria

Laurindo Ferreira
Diretor de Redação do Jornal do Commercio
Maria Luiza Borges
Diretora de Conteúdos Digitais do SJCC
Beatriz Ivo
Diretora de Jornalismo da Rádio e TV Jornal

Edição

Diogo Menezes
Editor executivo
Betânia Santana
Assistente de edição

Conteúdo

Cleide Alves
Reportagem

JC Imagem

Arnaldo Carvalho
Editor executivo
Heudes Regis
Editor Assistente
Guga Matos
Fotógrafo

Vídeo

Danilo Souto Maior
Edição de vídeo
Eduardo Mafra
Animações

Design

Bruno Falcone Stamford
Editor de Artes
Karla Tenório
Editor Assistente de Artes
Moisés Falcão
Coordenador de Design Digital
Maryna Moraes
Designer

Fotos antigas

Acervo Museu da Cidade do Recife
Fotos de abertura
Acervo FUNDAJ-CEHIBRA
Foto de abertura