José cláudio: a luz dos bichos e das gentes

Já adulto, marido e pai, José Cláudio, então um cronista contumaz sobre a arte do mundo, autor de textos frequentes nos jornais e revistas de Pernambuco, fez uma digressão. Um retorno importante à própria gênese. Queria entender porque, jovem, resolveu pintar. “Um belo dia, eu já casado, fiquei pensando...

A sala da casa de Zé Cláudio, no Sítio Histórico de Olinda, é o ateliê onde ele pinta - sempre em acordo com a expectativa de quem encomenda

para que mesmo que eu queria pintar? Era pra pintar as coisas bonitas que via quando morava, menino, em Ipojuca... passarinho, um pé de manga, a praia, o mar...Ipojuca era um lugar isolado, tinha trem, ninguém tinha carro...Essas coisas foram ficando dentro de mim...”

Do desejo-nostalgia não exatamente de mimetizar, mas de apreender o mundo - ou o que ele ainda tem de belo, José Cláudio acabaria por se tornar, na opinião do amigo Francisco Brennand, o melhor cronista visual da luz pernambucana. “Ninguém, em Pernambuco, trata tão bem as paisagens, a natureza, a gente... como José Cláudio”, diz o artista sobre o colega que, depois de temporadas estudando belas artes na Europa e com mestres da arte moderna paulistana, resolveu imprimir doses saudáveis de inocência em sua arte como o Van Gogh ou o Gauguin que, em seus momentos, resolveram se afastar do excesso de segurança europeia banhando-se com novas luzes tropicais. “Eu já tinha passado um ano na Itália, em São Paulo, na Bahia... aí, resolvi que estava cansado de tanta cultura erudita”, rememora.

José Cláudio, essa luminosidade influenciou e influencia sua pintura?

“Sim, mas sem pensar, sem conscientizar. Porque eu pintei muito no natural e, naturalmente, nos dias de sol, essa luz passava para os quadros", diz o artista que começou a pintar, daquela vez, sim, conscientemente, as gentes e as coisas da terra no Ateliê Coletivo, dirigido por Abelardo da Hora, na Rua da Soledade, centro do Recife. Com seu projeto de arte consciente do social, Abelardo queria que seus pares imprimissem identidade e realidade em pinceladas contundentes.

Ao lado de Abelardo da Hora, Gilvan Samico e Wellington Virgolino, José Cláudio fundava, em 1952, o Ateliê Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR). O centro de experimentos de gravura e desenho empenhado numa arte de contundência tão social quanto estética funcionaria até 1957. “Abelardo botava esse direcionamento, sem ser explícito. Cada um fazia o que quisesse, mas ele era do partido, era comunista, e o partido adotava uma lei criada por Zdanov”, diz ele, sobre o teórico e braço direito de Stálin que, em 1934, durante o 1º Congresso de Escritores Soviéticos, elaborou, em parceria com o escritor Máximo Gorki, as diretrizes estéticas do chamado Realismo Socialista. Ideologia estética do partidão, o corolário preconizava: as artes deveriam, acima de tudo, ter compromisso cívico e pedagógico com as massas proletárias.

“Por curioso que seja, já que hoje se fala tão mal dele, Stálin certa vez disse que, se escrevesse, se fosse artista, ele só escreveria sobre o que conhecesse profundamente. São frases antigas, mas fortes. Essas coisas ficam na minha cabeça”.

Não havia, antes, na trajetória de José Cláudio, o momento em que ele, como o Brennand da cerâmica ou o João Câmara dos bastidores psicossociais da Ditadura Vargas de "Cenas da Vida Brasileira", assumiu um projeto artístico.

A arte moderna era, no começo, uma preocupação? Em que momento, você se definiu como artista?

"Não teve isso. Eu queria saber pintar porque eu queria trazer pra dentro do quadro as coisas bonitas que eu via no mundo. Mas, se quiser saber, teve um salto muito grande em 75. Foi quando eu fiz uma viagem pelo Rio Madeira”.

Logo depois do ateliê com Abelardo, José Cláudio passaria um breve período em Salvador onde bebia brasilidades e erudição ao ser orientado por mestres como Mario Cravo Júnior e Carybé. Interessado em crescer tecnicamente, foi para São Paulo. Estudava gravura com Lívio Abramo, na escola do Museu de Arte de São Paulo (MASP), passou a trabalhar com Di Cavalcanti e, ao ganhar uma bolsa da Fundação Rotelini, gastou o ano de 1957 na Academia de Belas Artes de Roma.

De volta ao Brasil, o ipojucano se fixaria em Olinda, ainda apenas um embrião do celeiro de artistas atraídos pelos amplos espaços dos casarões nos anos 60 e 70.

Fazia dois anos que José Cláudio não falava com Paulo Vanzolini, seu amigo desde os anos paulistanos, quando o telefone tocou. Do outro lado, a voz do amigo: “Zé Cláudio, você ainda quer conhecer o Amazonas?”.

O pernambucano logo respondeu: sua urgência era o Brasil.

“Então, pegue uma passagem na Varig que a gente se encontra amanhã em Belém”, orientou o autor de Ronda, transformada em clássico na voz da baiana Maria Bethânia. “Passamos dois meses no rio, fomos até a Bolívia, nunca dormi uma noite inteira durante essa viagem”, lembra José Cláudio.

Vanzolini, pouca gente lembra, era zoólogo, herpetologista. Queria encontrar e estudar o máximo possível de répteis. "Quanto menor o lugar, melhor pra pegar os bichos, pra ver. Eu pintava o tempo todo, tudo o que via. Eu tinha uma certa prática de desenho do natural, que é uma prática muito boa, adquirida na minha temporada de Roma”.

Conforme o barco avançava pelo Amazonas, as cores e luzes da floresta iam atravessando as mãos para ganhar expressão nos pincéis de José Cláudio. Cores que ganhavam contornos em episódios dignos de biografia. Ao chegar ao vilarejo de São Carlos, em Rondônia, o pintor se deparou com um delegado curioso. “Acho que ele nunca tinha visto alguém pintando. Não sabia que era possível. Ficava me vendo pintar, num bar, de manhã até escurecer”.

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Encantado, o policial lhe encomendou um quadro. Ao perguntar ao delegado se era verdadeira sua fama de matar pelo menos um por ano, teve a confirmação da boca do homem: “Eu, infelizmente, nunca me livrei desse vício”. Atendendo, com a urgência do momento, ao pedido, José Cláudio executou um índio, “de saiote, idealizado como na escola”, flechando uma arara. “Ele ficou na maior felicidade, tirou o quadro do chassi mesmo com a tinta a óleo molhada, e voltou com um revólver Western, niquelado, para me dar de presente”, lembra.

Do episódio, nem tão prosaico, o pintor construiu uma espécie de dogma pessoal. “Abelardo dizia que a gente deveria pintar para o povo, mas eu nunca vi ninguém perguntar ao povo o que ele quer que a gente pinte”. Desde então, ele praticamente só pinta quando lhe definem a demanda. “Aí, eu disse pros marchands, agora vocês vão perguntar ao povo o que querem que eu pinte, a gente impõe o que tem na cabeça.... até hoje, eu escuto o comprador, é por isso que eu não tenho um quadro aqui (em casa), o cara diz ‘eu quero um cavalo, uma mulher’, e eu faço", diz ele, versátil em variáveis técnicas que flertam do abstracionismo ao expressionismo mais aberto ou a um realismo hiperbolizado pelo calor das cores e contornos.

Mas, José Cláudio, isso é uma verdade relativa, a gente olha pro quadro e vê sua marca inconfundível...

"Na verdade, quando o cara vem a mim, ele já sabe o que eu pinto. Foi aí que eu entendi porque os pintores antigos têm tantos quadros parecidos. Ticiano pintou cinco ou mais vezes a mesma coisa”.

Pintor, desenhista, gravador, escultor, crítico de arte e escritor, o pintor conjuga pinceladas livres e o colorido intenso num figurativismo de cenas, paisagens e gentes do Nordeste que, a partir dos anos 1980, segundo os críticos Paulo Herkenhoff e Clarissa Diniz (no ensaio Zona Tórrida, de 2012) fazem dele um dos três grandes nomes “que se encontram na ação expressiva de pintor no Brasil”. (Os outros seriam Flávio-Shiró e Iberê Camargo).

“Eu não passo um dia sem pensar que, quando vou pintar um quadro, sai um Picasso. Foi Picasso quem ensinou o século 20 a pintar”.

José Cláudio

“(...) Com força igual de pincelada, convergência no tônus da pincelada, mas com exacerbada torridez cromática, José Cláudio está em campo oposto ao de Iberê. O figural em José Cláudio transfigura a matéria do real pela pulsão de vida”, discorrem os críticos, para lembrar que “o pintor em plena potência já não mais carrega a culpa social do Ateliê Coletivo nem parâmetros de contrição ideológica”.

Não apenas a luz a tingir torridamente suas tintas, mas uma poética figurativa quase etnográfica incorre em sua pintura. Em tipos populares, cenas de feiras ou outros ajuntamentos sociais como os carnavais de Olinda, os personagens de José Cláudio, como a confirmar uma matriz geral do modernismo pernambucano, são tingidos pela orgia de luz e cores locais. Foi assim, por exemplo, quando se meteu, de pincel em riste, nos bordéis do Bairro do Recife para retratar putas de carnes generosas para uma de suas séries mais conhecidas.

“Eu queria a mulher do povo, do jeito que ela é, não precisava nem ser bonita...Eu quero é retratar a gente de que eu sou fruto. Para mim, tudo que tivesse vida local me interessava, eu nunca pensei em pintar outra coisa. Quando eu pensei em pintar nu, como eu já tinha feito essa escola em Roma, onde, aliás, pintava modelos nus, pensei, por que eu não posso pintar o nu local, se já pinto um carroceiro, uma palma de banana? E o jeito era pintar no bordel. Os homens iam lá pra trepar (sic); eu ia, e chamava elas para tirar a roupa e posar”, ri ele, sem negar, contudo, o DNA moderno de sua carne pictórica.

“Eu não passo um dia sem pensar que quando eu vou pintar um quadro sai um Picasso. Foi Picasso quem ensinou o século 20 a pintar. Se não é Picasso, não é o século 20”.

O mesmo artista elogiado por Brennand em sua captura peculiar da temperatura pictórica local e que reconhece como o mundo de luz e calor ao redor contamina seus pincéis, lembra, contudo, que a geografia, social ou física, não é destino.

Como declaração de liberdade, decretou, como crítico, em 13 de junho de 1961, que: “Não há Nordeste”:

“E quem vê o quadro por fora, e mede o quadro pela cor local, e compara o quadro com a história e geografia do lugar onde o quadro se produz, que idolatra uma pintura pelo simples fato de ela espelhar dados literariamente acessíveis (...) sem levar em conta que o quadro é um humor que sua das paredes da clausura, câmara indevassável, ‘cela de nós’ (...) é ali que não chega a luz do sol, é ali que a individualidade está nua. Porque o quadro, para o pintor, é o seu heroísmo, a sua santidade, e é sem pátria, região ou município”.

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Jornal do Commercio | Copyright © 2017 | Publicado em março de 2017