Reynaldo Fonseca: o renascentista moderno

Sobre o sofá de couro marrom em que passa a maior parte do dia, dezenas de canetas e lápis estão militarmente dispostos ao lado do isqueiro e da inseparável carteira de cigarros. Aos 91 anos, depois de ter um marcapasso instalado no coração há poucos meses, Reynaldo Fonseca não voltou a pintar. Não pode, ainda, gastar as horas em pé diante do cavalete onde seu mundo atemporal vai se ampliando. Quase que diariamente, faz fisioterapia - para o corpo e também para o pulmão: prefere exercitar a capacidade respiratória a ter que abandonar os tragos de nicotina iniciados ainda aos quinze. O que não quer dizer que tenha suspenso sua expressão pictórica. A qualquer momento, Reynaldo desenha. E muito.

Reynaldo: o artista desenha sobre qualquer papel que lhe caia nas mãos

“Ele desenha em todo e qualquer papel que lhe cai nas mãos”, diz a sobrinha Lúcia Helena, também pintora, vizinha, sua contumaz assistente e marchande. Na sala principal do apartamento, onde seus quadros são mais visíveis do que a tinta das paredes, ou no ateliê no primeiro andar da cobertura de Boa Viagem da qual, há anos, raramente sai, os desenhos são muitos: em papel e cadernos apropriados, em envelopes de correspondências, no dorso de panfletos publicitários do comércio próximo. “Este aqui ele fez atrás de uma circular do condomínio”, aponta a sobrinha, segurando nas mãos uma folha de ofício em que, de um lado, há informes sobre a mudança de pastilhas cerâmicas na fachada do edifício e, do outro, o esboço de um seminarista de olhar fixo, perverso e cândido ao mesmo tempo.

Comercializado por algumas das principais galerias nacionais, falsificado por golpistas de fino trato dos mercados carioca e paulistano de quadros, o mais renascentista dos pintores de Pernambuco (e também do Brasil) tem na execução de sua arte oblíqua um procedimento ao mesmo tempo banal e secular. Antes de partir com seus óleos para as telas de grandes dimensões, Reynaldo desenha as cenas e personagens em folhas de papel esquadrinhado. Emprega, disciplinadamente, a técnica legada por Albrecht Dürer, o mais notório representante do Renascimento nórdico, influente sobre artistas europeus por sua técnica de, matematicamente, esquadrinhar um desenho de pequenas dimensões em traços de latitude e longitude para garantir a proporção e equilíbrio na transposição para a tela grande.

“A luz não me incomoda, mas eu gosto mais do mistério, minhas figuras são mais estranhas”.

Reynaldo Fonseca

“Mais que um renascentista, Reynaldo é um pintor flamengo. Olhem sua pintura, não há nada do mundo próximo em suas telas. Tem o estilo de desenho do Renascimento, de esquadrinhar, estudar o desenho, numerar como mapa, fazer todo o plano pictórico, e só depois, dali, transportar aquilo para o quadro. Vejam se há algo do mundo à volta, não há nada. Ele é completamente estranho a qualquer característica da arte pernambucana, é um pintor flamengo, de uma luz e uma poética próprias. E que sorte, a nossa, termos um pintor assim”, diz Montez Magno, um artista cujas composições abstratas, geométricas, não poderiam ser mais diferentes do mistério figurativo de Reynaldo. “Não é porque ele seja tão diferente de mim que eu não possa reconhecer suas grandes qualidades, Reynaldo não é um pintor acadêmico”, diz Montez, autor de alguns ensaios críticos sobre a obra do amigo.

Amigo e contemporâneo de alguns dos principais nomes do modernismo pernambucano (“Foi meu melhor amigo na Escola de Belas Artes do Recife, íamos e voltávamos juntos. Um amigo da vida toda”, comenta a pintora Tereza Costa Rêgo), Reynaldo, conscientemente, quis se manter alheio ao mundo do figurativismo moderno pernambucano.

CEle pinta no ateliê disposto por um andar inteiro da cobertura onde mora. Cercado por janelas de vidro, uma piscina pequena e azulada no terraço, o lugar é lambido pela luminosidade entrecortada de prédios da praia de Boa Viagem. “Eu só pinto aqui, diante da luz. A luz não me incomoda. No escuro, eu não consigo pintar”.

Reynaldo, essa luz aí fora não influencia sua pintura?

“A luz não me incomoda, mas eu gosto mais do mistério, minhas figuras são mais estranhas”.

Amigo de gênios da arte moderna brasileira como Cândido Portinari, com quem estudou durante seis meses do ano de 1944, quando residia no Rio de Janeiro, as referências imagéticas de Reynaldo estão mais distantes. “Gosto dos pintores do Renascimento”, reconhece.

O artista se perde, por exemplo, observando e absorvendo as atmosferas de Tintoretto, o grande pintor de Veneza da perspectiva linear, profundidade das cenas, volume dos objetos e, sobretudo, de uma tensão sobre as cenas indicada por tons escuros e pesados.

Ainda quando morava no Rio de Janeiro, num apartamento sobre o frege mundano da galeria Alaska, então reduto underground de Copacabana, Reynaldo parou de frequentar os amigos e eventos sociais. Foi quando, aliás, um irmão o intimou. Se não vive o Rio de Janeiro, melhor se trancar no próprio Recife natal. “Uma vez, uma jornalista lhe perguntou se ele não sentia vontade de sair do apartamento para ver gente”, comenta Montez Magno. “Ao que ele respondeu que, quando queria ver gente, bastava se debruçar sobre a janela para ver as pessoas”. Do apartamento do artista, que preferiu não casar ou ter filhos, há cerca de vinte andares até o povo na rua.

Compartilhe essa história
facebook twitter google plus

Reynaldo, avesso ao externo, pinta para dentro. Manteve-se deliberadamente alheio às efervescentes correntes artísticas do País. Sua narrativa tem temas recorrentes, as cenas familiares (“Existe algo mais importante que o amor de uma mãe pelo filho?”, comenta) numa atmosfera mais que real, metafísica, como se a banalidade de um abraço materno tivesse o arquétipo do sagrado, porque inevitável. Suas figuras, estáticas no corpo, se movimentam pelo olhar. Transitam da mais sincera candura a uma perversidade desconcertante. Raros nas residências da elite pernambucana - mais afeita às suas mães abraçando filhos e às suas meninas elegantes e iluministas - alguns de seus quadros trazem crianças harmoniosamente deformadas, com olhares que podem sugerir qualquer coisa além da óbvia inocência. Infantis e desconcertantes. Como apontou o crítico de arte e literatura Roberto Pontual, a obra de Reynaldo, em gravuras ou, mais densamente, óleo sobre tela, “fica a meio caminho entre o metafísico e o fantástico”. A ironia lhe é ingrediente a deixar mais complexa a humanidade de seus personagens.

“Uma vez, na Escola de Belas Artes, pintei uma paisagem com uma ponte do Recife. Como não pude levá-la para casa, ela ficou por lá vários dias. Um dia, um professor viu aquilo e escreveu, atrás do quadro: ‘Expulsem este aluno’. Ele achou aquilo arte moderna. Parecia Picasso. E, para ele, nada poderia ser pior que Picasso”.

Reynaldo Fonseca

Pouco lembrado na biografia do antigo professor catedrático de desenho artístico na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco da década de 1950, Reynaldo foi um dos fundadores, ao lado de Abelardo da Hora, da Sociedade de Arte Moderna do Recife, um agrupamento de artistas dispostos a romper com o peso acadêmico da arte e imprimir uma produção cultural capaz de dar conta das dicotomias do mundo social. “A gente queria acabar com o academicismo”, resume.

Quando, contudo, o imponente Centro Cultural do Brasil realizou, entre 1993 e 1994, no Rio de Janeiro e em São Paulo, uma ampla retrospectiva de sua obra, eles estavam lá. Além das composições de atmosfera renascentista, alguns quadros, figuras em destaque na paisagem quente, de pinceladas largas e soltas como a de um moderno expressionista.

Você nunca se considerou um artista moderno, Reynaldo?

“Uma vez, na Escola de Belas Artes, pintei uma paisagem com uma ponte do Recife. Como não pude levá-la para casa, ela ficou por lá vários dias. Um dia, um professor viu aquilo e escreveu, atrás do quadro: ‘Expulsem este aluno’. Ele achou aquilo arte moderna. Parecia Picasso. E, para ele, nada poderia ser pior que Picasso”, diz, enquanto solta uma risada muda no meio de sua fala mansa como a de um monge. “Eu ia muito pouco à Sociedade de Arte Moderna”, diz ele, desinteressado pelo regionalismo já desde que que voltara do Rio de Janeiro.

Reynaldo Fonseca não acredita na existência de uma arte essencialmente pernambucana. “Não, não acho que haja. Ariano Suassuna queria fazer uma arte realmente pernambucana, me chamou para participar (do Movimento Armorial), mas eu não consegui. Não acho que haja personagens que configurem uma pintura pernambucana”, diz o pintor de 91 que, aos 12 anos, acabou admitido na Escola de Belas Artes do Recife - desde que não assistisse às aulas de modelos nus. “Uma modelo era até minha amiga, era muito simpática, mas vestida, né?”, ri.

Pela excepcionalidade inata de seus desenhos, a escola de artes “para adultos” o aceitou antes da idade padrão. “Desde pequeno sentia necessidade de me expressar, com lápis, qualquer tipo de papel, mesmo pautado. Comecei a desenhar com quatro ou cinco anos, minha mãe guardou meus desenhos...”, diz este Tintoretto renascentista pernambucano do contemporâneo, enquanto organiza uns papéis. No verso branco de um deles, aparece uma freira sugestivamente medieval com uma criança de olhos atentos no colo, no meio de um mapa quadriculado e numerado, uma composição rabiscada com a Bic azul. Do outro lado, o panfleto toscamente impresso traz imagens de tomates e jerimuns numa oferta de um hortifrúti do quarteirão.

Galeria

Jornal do Commercio | Copyright © 2017 | Publicado em março de 2017