Raul Córdula: Modernista nova geometria

Ainda morador de João Pessoa, o jovem Raul Córdula viajou no comecinho dos anos 1960 para estudar história da arte no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Com a efervescência do modernismo tardio, logo depois se estabeleceria no Sudeste. Quando, no entanto, veio visitar uma irmã estudante no Recife, conheceu o pintor Anchises Azevedo, morador de um antigo sobrado olindense, e seu destino mudou. “Olinda me atraiu desde os anos de 1960, quando eu ainda morava em João Pessoa e vinha nos fins de semana visitar amigos pintores, como Adão Pinheiro, Tiago Amorim ou Guita Charifker. Em 1976 eu, que estava morando em São Paulo, vim organizar o III São de Arte Global - O Artesanato e o Homem, e acabei ficando aqui até agora, diz o paraibano-pernambucano que tem a Olinda dos ateliês que ajudou a construir como cenário há 40 anos. "Havia muitos ateliês, e uma boemia importantíssima para aglutinar essas pessoas".

No meio do figurativismo pernambucano, Raul Córdula se fez abstrato

Aquela Olinda das casas tingidas de branco não era apenas a reluzente versão tropical de Lisboa. Depois que Montez Magno para ali se mudou, dividindo casa e ateliê com Anchieves e Adão, uma série de artistas descobriu o eldorado próximo. De pincéis, mala e cuia, passaram a ocupar os amplos casarões decadentes. Olinda virava uma cidade de artistas.

Ao se mudar e assumir a Secretaria de Cultura de Olinda, em 1964, o artista gaúcho Adão Pinheiro começava, sem desconfiar, a escrever um capítulo - ainda não devidamente historiografado - da arte moderna brasileira. Sob sua gestão, o antigo mercado de escravos da Ribeira virava entreposto de arte. Depois do Movimento da Ribeira, as ladeiras e vielas viram surgir agrupamentos como o Ateliê Coletivo, 3 Galeras e Franz Post. No ambiente, a Oficina Guaianases marcaria a gravura brasileira nos anos 1970 com temas de contestação à ditadura militar ou erotizando a desejada liberação sexual. "A gravura pernambucana é de uma qualidade atemporal e contemporânea em absoluto", pontua Marcelo Campos, professor de História da Arte da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

“Não posso deixar de dizer que a cor, para mim, é outro alfabeto que se liga às figuras geométricas para formar frases e poemas visuais.”

Raul Córdula

Campos foi curador da exposição Ateliês Pernambucanos - 1964-1982, em cartaz ano passado no Museu do Estado de Pernambuco. Na mostra, cerca de duzentas obras de técnicas e períodos diversos contam como a Olinda dos ateliês coletivos escreveu um capítulo de fronteiras imprecisas na história do modernismo brasileiro. "A grandiosidade e a beleza é que essa produção acontecia em torno de grupos e essa é uma narrativa ainda não devidamente presente nos livros de história da arte brasileira", diz Campos. "No resto do Brasil, há um tipo de distorção e cegueira de uma produção que acontecia em Pernambuco. No Brasil, houve e há um modernismo de longa duração. A primeira coisa que eu diria é que Pernambuco é um lugar onde os influxos modernistas permanecem. Há uma convivência de linguagens distintas, sem a coisa (presente em outras microgeografias artísticas do País) do 'agora já não se pode isso ou aquilo'", reforça Campos.

De uma produção intelectual tão intensa como sua criação artística, Raul Córdula, em ensaios e livros diversos, textos de apresentações de exposições e resenhas, tem se dedicado a historiografar criticamente a arte pernambucana - com algum destaque para a praticada em Olinda. "Olinda atraiu os artistas desde a década de 1950, quando (o artista paraibano e abstracionista) Montez Magno para cá se mudou e convidou Adão pinheiro e Anchises Azevedo para dividirem com ele seu ateliê", lembra Raul. No reino do figurativismo por exclência que foi e é o modernismo pernambucano, Córdula se fez um artista classsificado pela inteligentsia como geométrico-abstrato.

Córdula, convivendo com tantos figurativistas em Pernambuco, você nunca se viu tentado a se tornar também um figurativista?

"As figuras humanas, as paisagens e outros temas de pintura nunca deixaram de estar na minha arte. Importante dizer que triângulos, quadrados e círculos são figuras geométricas, portanto o termo figurativismo é bem mais amplo do que o conceito que se tem de figurativismo na pintura. É por isso que prefiro dizer que minha pintura é não-figurativa, uma maneira de não chamá-la de abstracionista", diz o artista.

"Mas nenhuma dessas classificações fazem sentido pra mim, acho-as acadêmicas, de um lado, e mercadológicas, de outro. Gosto de ironizar e dizer que pintura abstrata é uma pintura que não existe, só existe na cabeça do pintor. Quando ele pinta sua imaginação, então, ela se torna "concreta". É também uma forma de se brincar com as palavras", diz o artista, alvo, recentemente, de uma grande retrospectiva de sua obra no Museu Nacional da República, em Brasília.

Seu trabalho cerebral e conciso em formas e cores, com tensões e extensões das superfícies das telas que levariam a crítica a classificá-lo como uma nova geometria nem sempre está dissociado da representação do real. Numa de suas telas, por exemplo, uma série de triângulos dispostos como se em movimento numa trajetória curva pode, por exemplo, remeter ao movimento de um peixe saltando para fora da água.

Triângulos, quadrados e círculos podem sintetizar seu alfabeto gráfico?

"Posso ver um universo através dessas três figuras, ou signos. Mas minha arte não se limita a isso. A figura humana se manifesta nela em diversas fases e etapas de minha vida, tanto em pinturas como em objetos, gravuras, múltiplos, etc. Não posso deixar de dizer que a cor, para mim, é outro alfabeto que se liga às figuras geométricas para formar frases e poemas visuais". Se poderia, com seus objetos, livros de artista e outros elementos para além dos suportes mais convencionalmente usados, ser etiquetado como contemporâneo, Córdula faz questão de afirmar que tem o moderno como moradia.

"É uma questão de geração e geografia. Minha primeira exposição foi em 1960, e eu morava em João Pessoa. O termo arte contemporânea com o significado que temos agora - diferente de coetâneo, ou melhor, daquilo que existe ao mesmo tempo - é dos anos 80 (quando eu, coincidentemente, coordenava o Núcleo de Arte Contemporânea da UFPB. Considero-me um artista moderno, porque sou da geração dos modernos e trabalho com os suportes do modernismo. Mas concordo, e me envolvo até, com tudo o que a arte contemporânea oferece ao mundo, com a maneira de tratar a realidade e com a conquista da linguagem de agora".

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Por que o modernismo pernambucano não foi ainda reconhecido nacionalmente?

O modernismo pernambucano é muito conceituado perante a história e a crítica da arte brasileira. Haja vista a atuação de Vicente do Rego Monteiro na Semana de Arte Moderna de 22 e o prestígio de artistas como Cicero Dias e Lula Cardoso Ayres na primeira metade do século passado. Há três anos, houve, no Museu de Arte do Rio - MAR, com curadoria associada entre Clarissa Diniz e Paulo Herckenhoff, a exposição Pernambuco Experimental, onde os artistas citados estavam representados ao lado da geração dos artistas que fizeram a ponte entre o modernismo e a arte contemporânea, como Daniel Santiago, Paulo Bruscky, Silvio Hansen, Zé Cláudio, a design e cineasta Kártia Mesel, o Ave Sangria, entre outros que a memória, embora não devesse, me escapa. Eu também estava lá.

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Jornal do Commercio | Copyright © 2017 | Publicado em março de 2017