Montez Magno: o abstrato moderno

Na metade dos anos 1950, quando todo mundo, muito, mas muito mais que hoje, não só queria como precisava pintar como Portinari ou Picasso, o jovem Montez Magno pintava com molambos e cacos. Retalhava telas com giletes. Em 1957, sob incentivo e patrocínio de Aloísio Magalhães, já respeitadíssimo como o introdutor do design moderno no Brasil, o pernambucano de Timbaúba fez sua primeira exposição no Instituto dos Arquitetos do Brasil. No Recife, Montez foi contemporâneo antes de a arte se tornar compulsoriamente contemporânea por uma jurisprudência estética que ele, entre alguns poucos outros, ajudou a estabalecer.

Entre os modernos, Montez Magno era contemporâneo antes de a arte ser contemporânea

“Montez Magno é um espírito inquieto por natureza. Aos 82 anos, ele não para, segue com sua curiosidade em relação ao mundo, pegando material dos cantos mais inesperados. Isso faz dele um artista contemporâneo, para quem a pintura, por exemplo, pode ser feita tanto com tinta de asfalto quanto com tinta a óleo especial. Para ele, não existe o melhor suporte, mas a melhor ideia para a qual o suporte deve servir”, sintetiza a socióloga e crítica de arte Olívia Mindêlo, autora de uma biografia do artista a ser lançada pela Companhia Editora de Pernambuco. “Ele é um dos artistas mais inventivos de Pernambuco, talvez por isso pouco compreendido, até hoje, em que o ideal modernista atrelado a uma pintura figurativa e regionalista ainda ronda o imaginário de tanta gente, mesmo sendo já o Recife um celeiro de artistas contemporâneos”.

Deliberada e confortavelmente contemporâneo, Montez Magno, contudo, tem sangue do modernismo pernambucano transitando pelas artérias e veias. Dividida em três ciclos (1972-1973, 1977-1978 e 1984-1985), "Barracas do Nordeste", provavelmente a mais popular série de sua obra tão pouco popularesca, é um dos grandes capítulos do abstrato moderno brasileiro. Exposta no Museu de Arte Contemporânea do Rio de Janeiro, em Portugal (numa montagem assinada pela arquiteta pernambucana Janete Costa, na cidade do Porto) e com dois de seus painéis como parte do acervo permanente do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, sua série parte da espontânea e pouco cerebral arte popular nordestina. “Eu descobri que o Nordeste é muito rico em arte geométrica nas barracas de festa.”

Ao gosto de um Gilberto Freyre que ficaria feliz em vê-lo incorrer, como fez Lula Cardoso Ayres, por ambientes populares em busca de uma poética num padrão cromático unicamente regional, Montez, nas décadas de 1970 e 1980, andou com olhos de etnógrafo pelas festas profanas e religiosas do Carmo, de Igarassu, do Sertão. “Essas barracas de festa são geniais. Elas, em si, são muito melhores que meu trabalho. Fiz apenas uma homenagem.”

Montez Magno, o que faz a série Barracas do Nordeste ser entendida como arte moderna e não contemporânea?

“São elementos de arte abstrata, e o abstracionismo está ligado ainda à arte moderna. Então, é a forma como você realiza e que tipo de material com o qual trabalha que determina. Não que o artista contemporâneo não possa realizar pintura - ele pode, mas dentro de um outro contexto. Acontece que a arte contemporânea geralmente está ligada a performances, objetos e instalações”.

Montez é também pioneiro de uma paisagem com cara de ter existido desde sempre. Em 1957, deixava a casa do pai, onde hoje vive, em Casa Forte, para morar num sobrado da então distante e quase uma aldeia idílica Olinda. “Muita gente se aproximou para saber quem eu era, e o que um pintor estava fazendo na cidade.” Quando, depois de conhecê-los numa exposição no Cabanga Iate Clube, Montez convidou Anchises Azevedo e Adão Pinheiro para dividir os cômodos de um amplo sobrado na Rua de São Bento, inaugurou em Olinda um novo caráter para a cidade histórica instalando, nas ladeiras, o primeiro dos muitos ateliês coletivos que se transformariam num verbete geográfico da arte moderna brasileira. Um orgulho sóbrio e indisfarçável tempera sua fala: “Fui o primeiro artista de Olinda”.

Cerca de quatro anos antes, Montez nunca tinha empunhado um lápis sobre uma folha de papel. “Aconteceu algo muito pessoal comigo, e resolvi que iria pintar”. Na casa de veraneio dos pais, na outrora inabitada Candeias, ele informou: precisava de tintas e telas. “Meu pai me deu um negócio que nem era uma tela, era um pano. Eu pintei um veleiro, e nem devia ter feito isso, porque não se começa pela pintura, se começa pelo desenho. Uma amiga da família sugeriu que meu pai me colocasse para estudar na Escola de Belas Artes do Recife”.

Aluno de Mário Nunes, ele ficaria apenas três meses sendo tutelado por um professor. “Aquilo era acadêmico demais.” Numa das aulas, o caminho da rua se abriu. “Nós saíamos no ônibus da escola para pintar em campo. Um dia, estávamos em Casa Amarela e chegou um ponto em que eu disse, ‘Professor, eu não sei fazer isso’. Aí, ele veio com uma resposta muito curiosa. Se ele fosse um sábio, um zen-budista, seria perfeito. Mas ele não era. Disse que pintar é algo que se aprende pintando. Aí, eu disse adeus e nunca mais pintei na escola”.

A retirada virou disciplina. “Só vim a pintar três anos depois. Hoje, muitos artistas não seguem mais essa linha tradicional de que, quem quiser, tem que começar pelo desenho, o desenho é básico”. Em 1956, já morador de Olinda, Montez mostrou sua primeira série de quadros abstratos a um impressionado Alloísio Magalhães. “Ele ficou espantado, disse que não sabia que se fazia isso aqui no Recife”.

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Dali, o mundo. Entre 1959 e 1967, ele participaria das V, VIII e IX Bienais de São Paulo - com um prêmio de aquisição em 1967. Em 1966, era destaque do Salão de Abril, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Como bolsista do Instituto de Cultura Hispânica entre 63 e 64, tinha viajado pela Europa. Já não respeitava fronteiras de linguagens. Como disse, em entrevista ao português Diário de Notícias, em maio de 1968: “Particularmente, me situo entre os que se propõem a renovar constantemente no setor da pintura e da escultura (ou do objeto). Para mim, estas duas manifestações artísticas se fundem numa só, pois meus trabalhos mais recentes são estruturas tridimensionais, ligadas, portanto à escultura, complementadas por elementos de cor, sendo também pintura”.

“Essas barracas de festa são geniais. Elas, em si, são muito melhores que meu trabalho. Fiz apenas uma homenagem."

Montez Magno

“Foi pioneiro e o que ele fazia?”, indaga a crítica Olívia Mindêlo. “Juntava areia e água pra fazer quadro, quando não rasgava de gilete as telas. Não é à toa que, em 1959, ele foi convidado pra expor na Bienal de São Paulo, na mesma época, veja bem, em que a bienal se abria à linguagem abstrata. Ele era um artista do mundo, de ímpeto paulistano e nova-iorquino morando numa Olinda que mal era iluminada e cujos sobrados valiam preço de banana”.

O menino que descobriu a arte conceitual guiado pela curiosidade nunca saciada nas revistas que encontrava pelas bibliotecas de arte do Recife e do Rio de Janeiro - onde morou uma época, até ver a cidade sufocada demais pela ditadura militar - segue, com mais de 80 anos, transitando entre linguagens. “Tenho livros de arte e de poesia, nunca deixei de ser poeta para publicar. Faço também música aleatória”, diz ele. Um de seus trabalhos recentes é um quadro composto de molambos de limpar carros dispostos num vidro. “Ainda jovem, quando começou a pintar, ele chegou a pensar em fazer uma ‘pintura de ideias’, quando nem tínhamos ouvido falar de arte conceitual. Mas, mesmo na pintura abstrata, não existe só um percurso geométrico, tanto que ele se recusa a dizer que é concretista, construtivista. Existe, por exemplo, no seu início, uma experimentação mais desfragmentada da forma. Existem monotipias que mostram o quanto a organicidade veio antes dessa verve mais formalizada de pintura”, situa Olívia. Em junho, no Recife, Montez revisita um dos catalisadores de seu pensamento. A Arte Plural, no Recife Antigo, receberá uma série de pinturas e colagens produzidas entre 1986 e 1994, em homenagem ao modernista Piet Mondrian - um dos homens que ensinou a Montez Magno (e ao ao século 20) que arte não precisa representar um objeto do real.

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Jornal do Commercio | Copyright © 2017 | Publicado em março de 2017