Marianne Peretti: grandeza, leveza e transparências

A curva, como na obra de Niemeyer, importa. Mas é o ponto fora dela o que nos intriga. Quando iniciou, ao lado do urbanista Lúcio Costa, o projeto de construção de Brasília, o arquiteto pensou em rendar as igrejas e prédios monumentais da nova capital do Brasil com um elemento praticamente proscrito desde o auge do gótico religioso. Para isso, contou com a filha de uma francesa e de um pernambucano já enternecida pela luz tropical do Recife e de Olinda para inscrever, definitivamente, a arte dos vitrais na arquitetura moderna ocidental.

De sotaque eternamente francês e paladar eriçado pelos cajus de seu jardim, a franco-olindense Marianne Peretti seria, com sua equação de grandeza, leveza e transparências, etiquetada por especialistas como Veronique David, do Centro Andre Chastel, referência mundial em vitrais, como a mais importante vitralista da contemporaneidade.

Marianne, em que momento você se olhou no espelho e disse para si mesma, eu sou artista?

“Eu não me lembro bem, realmente não lembro. Talvez uma coisa que me tenha ajudado é que veio um pintor fazer um retrato da minha mãe, eu era muito pequena, devia ter uns oito anos, olhando ele desenhar minha mãe para um quadro pintado a óleo, e me interessei. Não fiz belas artes, fiz artes decorativas.

A franco-olindense Marianne Peretti no portão de seu casarão de Olinda

Minha mãe pensava que eu ia todo dia ao liceu, mas, na verdade, eu ia desenhar num lugar chamado La Grande-Chaumière. Ficava o dia inteiro lá. Depois de um momento, naturalmente, ela percebeu e achou que eu fosse repetir o ano...(risos). Uns amigos diziam, 'deixa ela desenhar, fazer como ela quer'. Eles me salvaram”.

Salva, mas não por completo. A filha da modelo francesa Antoinette Louise Clotilde Ruffier e do historiador pernambucano João de Medeiros Peretti, Marie Anne Antoinette Hélène Peretti acabaria expulsa do Lycée Molière e do Lycée Victor Duruy. O motivo do castigo se tornaria destino: a menina fugia, sempre, para pintar. Aos 15 anos, já estava matriculada na École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs. Depois, na Académie de La Grande Chaumière, no bairro de Montparnasse, famoso pelos artistas ali instalados, foi aluna de Édouard Goerg e de François Desnoyer. Adolescente, Marianne começou a fazer charges de gente conhecida, astros de cinema e personalidades mundanas, para jornais. “Aí, eu comecei a ganhar um pouco de dinheiro”, recorda.

Numa das várias viagens de navio entre o Rio de Janeiro e a Europa, Marianne conheceu um inglês. Com ele casou e se mudou para São Paulo. Trazia na bagagem, contudo, seu batismo de prestígio artístico de 1952, o ano inesquecivelmente anterior. Em sua primeira exposição individual, ainda em Paris, Marianne recebera elogios de um amigo especial dos donos da galeria que abrigava sua mostra, incrustrada na Place Vendôme. “Você não é uma burguesa”, lhe disse, protegido pelos bigodes helicoidais, Salvador Dalí, inundando a estreante com um misto de êxtase e felicidade.

Suas pinturas e desenhos irradiavam-se pela capital paulistana. Em 1956, Marianne Peretti era uma das artistas da 5ª Bienal de São Paulo. Ganhou um prêmio pela capa do livro "As Palavras", do conterrâneo Jean-Paul Sartre. Começou, então, a provar o Brasil além dos cajus. Suas exposições, individuais ou coletivas, quando não atravessavam o Atlântico para Paris, aterrissavam no Rio de Janeiro, em Salvador, no Recife e na Olinda onde ela acabaria por fincar morada num amplo casarão, que ocupava um quarteirão quase inteiro no Sítio Histórico.

Marianne, morar em Olinda lhe é especialmente inspirador?

“Mesmo com muito dinheiro e todo o conforto que o dinheiro pode comprar, eu jamais moraria, por exemplo, num país do Norte da Europa. Não suporto o frio. Como também não moraria nem mesmo aqui do lado, no Recife. É outro lugar, é barulhento. Olinda é calma, quase não tem carro, é uma beleza. Adoro Olinda”.

Depois de se separar em São Paulo, a francesa regou as raízes. Veio morar no Pernambuco paterno. Vivia na Rua da Glória, no centro velho do Recife que amava. Começou a ter problemas com a vizinhança. Uma pequena indústria cobria diariamente sua casa de cinzas. Quando viu, há mais de 30 anos, o casarão de Olinda em ruínas, apaixonou-se, adquiriu-o e reformou-o. Na residência que mantém até hoje, aos 89 anos, Marianne faz funcionar também o ateliê-fábrica de onde saem seus vitrais e as grandes esculturas em resina de formas e ritmos sempre curvilíneos.

“Olinda é calmo, quase não tem carro, é uma beleza. Adoro Olinda. É um lugar bom para criar”

Marianne Peretti

Se não possui, como Brasília, uma presença física tão ostensiva da obra de Marianne Peretti, Olinda foi o ponto de partida para a mais importante expressão da obra da artista. Na antiga cidade pernambucana, Marianne fez o primeiro dos vitrais espalhados pelo mundo. Bastou a arquiteta Janete Costa lhe pedir para fazer uns para a casa de uns espanhóis residentes no Sítio Histórico para os vidros coloridos e desenhados virarem fetiche em velocidade virótica. “Janete era muito minha amiga. E depois que as pessoas viam o vitral na casa desses espanhóis, começaram a querer e a pedir”.

Daí a assinar os desenhos em vidro na Catedral de Brasília ocorreriam alguns hiatos. A maior parte dos livros de arte conta que Oscar Niemeyer, também amigo e parceiro profissional de Janete Costa, conheceu um vitral de Marianne Peretti na casa da arquiteta pernambucana. A própria artista diz que não foi bem assim.

Marianne continuava pintando, mas, para aumentar os rendimentos, começou a trabalhar como vitrinista de uma famosa rede brasileira de joalherias e teve seu primeiro contato com a monumentalidade fazendo estandes para exposições. “Foi aí que comecei a ter contato com coisas grandes. Amei". Quando, contudo, viu numa revista a foto de um prédio projetado por Niemeyer em Milão, Marianne sentiu o sabor de uma obsessão. "Achei o desenho dele maravilhoso. Gostei tanto que pensei: ‘Tenho que ver esse prédio imediatamente’. Peguei um avião no dia seguinte e fui para Milão. Minha mãe achou que eu estava louca”.

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Na volta da Europa, Marianne se valeu de uma escala a caminho de casa para mudar a vida. “Aviões grandes não pousavam no Recife. Tinha que pegar um menor no Rio. Eu simplesmente bati na porta dele (Niemeyer) e disse que gostaria de trabalhar com ele. Depois de três meses, voltei ao Rio e o encontrei de novo. Ele deve ter gostado muito de mim, porque já me deu um monte de trabalho, todos de Brasília”. O primeiro vitral foi o do Palácio do Jaburu. “Era tudo rápido, tudo de repente. Brasília estava sendo inventada e tínhamos de nos adaptar a esse ritmo”.

Oscar Niemeyer comovia-se com a disciplina obsessiva da artista. “Me emocionava vê-la durante meses debruçada a desenhar os vitrais. Eram centenas de folhas de papel vegetal que, coladas, representavam um gomo da catedral”, disse ele, sobre os vitrais candangos comparados, pela crítica europeia, às obras da Renascença. Além dos vitrais da Catedral, da Câmara dos Deputados, do Panteão da Pátria, do Superior Tribunal de Justiça e do Memorial JK, Marianne também fez o mural do Museu do Carnaval, no Rio de Janeiro, e esculturas e vitrais no Recife, Belém do Pará e Paris.

Um trabalho épico. Sem as facilidades da computação contemporânea, Marianne usava canetas hidrográficas para fazer os desenhos de módicos trinta por dez metros de largura da torre da Catedral de Brasília. Precisou desenhá-los no piso de um ginásio.

Marianne, sem você, Brasília seria a mesma cidade?

"Acho que não. Aliás, tenho certeza que não. Fiz muita coisa ali. A Catedral é a obra de que mais gosto. É também a que mais me cansou. Ali, era tudo muito grande. Muito trabalho, muito cansaço, muita responsabilidade. Passava pequenas temporadas na cidade. Brasília nos dá uma sensação de grandeza. Mas acho que faltava alguma coisa - e fui eu quem realizei isso”.

Sua obra confunde-se com o corpo físico de Brasília. Ressente-se, de alguma forma, de não ver sua obra mais frequente na paisagem física do Recife e da Olinda onde mora?

“Não, não sinto.... Não sinto nada (risos)...Se me chamarem, eu faço”.

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Jornal do Commercio | Copyright © 2017 | Publicado em março de 2017