João Câmara: a realidade inventada

A musculatura de um camponês, forjada mais na urgência da enxada que no desejo de fortalecimento do corpo, com a disciplina obsessiva de uma personagem de Nelson Rodrigues podem, talvez e metaforicamente, justificar o fôlego criador de João Câmara. Um dos conjuntos narrativos mais densos de uma obra tecida no - e sobre o - século 20 brasileiro, a série "Duas Cidades" reúne 52 obras, entre telas e objetos, produzidos entre 1987 e 2001.

João Câmara se deteve sobre os bastidores da Era Vargas

Já expostas em espaços acessados apenas por aqueles que, sem favor, ocupam um lugar no cânone nacional, como a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, as peças usam a memória do pai do pintor como catalisadora de uma visão particularmente, muito particularmente, arquetípica do Recife e de Olinda, em que tintas literárias e históricas pintam as cidades como extensão da personalidade - seja ela política ou ludicamente localizada do autor.

Cronista ora infantilmente enternecido, ora adultamente sarcástico da sociedade brasileira e seus fatos promovidos a capítulos oficiais, o paraibano autopercebido como de “vivência pernambucana” acentua um sotaque criticamente regionalista em sua pintura desde a década de 1980 - além de Duas Cidades, ele exibe em 1986, por exemplo, a série "O Olho de Meu Pai sobre a Cidade". Consumido, como poucos de seus pares (mais acessados através de marchands e galerias locais) no mercado nacional, com exposições em bienais relevantes da Europa, o João Câmara que revelou a aura fantasmagórica das pontes do Recife e do farol de Olinda não se considera geograficamente circunscrito.

Câmara, se não tivesse sido radicado no Recife e em Olinda, você seria o mesmo artista?

“Acho que sim. É muito pouco provável que o artista saiba exatamente onde está histórica e geograficamente. Eu tenho grandes dúvidas sobre que geografia eu habito e, mais ainda, sobre em que tempo vivo de fato”.

Ainda em 2002, a crítica de arte e ensaísta Mirian de Carvalho diagnosticou a relação de Câmara com a realidade. Ainda que anexado e retroalimentado pelo mundo e seus tempos em redor, ele os atravessa e ultrapassa. Câmara é apenas aparentemente documental. Vai além do registro.

“A obra de João Câmara se caracteriza por extensos e complexos núcleos temáticos definidos por imagética de cunho transrealista com relação ao mundo percebido, como ocorre em Cenas da Vida Brasileira e em Dez Casos de Amor e Uma Pintura de Câmara. Nesse acervo, insere-se mais um núcleo: Recife e Olinda, cidades tematizadas por João Câmara em memória de seu pai, conduzem-nos aos motivos captados pelo afeto. Em Duas Cidades, o termo “topofilia”, ou seja, apreensão afetiva do espaço, torna-se plenamente adequado para expressar acolhimento amoroso do lugar. Acolhimento e doação de sentido aos lugares, vividos em obras figurativas, porém numa figuração que se assume transrealista, por atingir o simbólico, o alegórico e o encantatório. Assim, o figurativismo de João Câmara cria espaços ‘densificados’: espaços onde o mundo percebido ganha nova ordem concebida no plano imaginário”, escreveu Miriam.

No casarão do bairro das Graças no qual guarda, expõe e eventualmente comercializa suas obras de dimensões agigantadas como a realidade por ele capturada e ampliada, Câmara diz que a luz e a temperatura social não são, como um dia quis Gilberto Freyre, condicionantes absolutos. “Isso é uma construção narrativa. Como toda construção, eu queria dizer o seguinte: nas zonas muito iluminadas, os animais têm as costas escuras e a barriga clara, isso para criar a própria sombra...

"A execução de obras que podem ter cacoetes arcaicos podem ser mais significativamente modernas que a ficção científica”.

João Câmara
A grande característica da casa é proteger da inclemência do sol, e essa coisa acastanhada, de proteger da luz, é também um fenômeno, ninguém faz isso conscientemente, nem como um partido artístico.

Câmara, a luz regional influencia tua pintura?

Pode acontecer, mas eu penso, às vezes, em fazer coisas sombrias e, às vezes, quero fazer coisas luminosas. Há pessoas como José Cláudio que têm uma habilidade para a transformação da paisagem. Ele pinta um coqueiro que parece que tá se mexendo, parece com (a obra de) Teles Jr. Por outro lado, Brennand fez agora uma exposição em que as paisagens são todas dos Alpes...Com a idade, você se permite olhar para frente, olhar pra trás e olhar para os lados”.

Figurativista de personagens cujos corpos, mesmo deformados por tensões, não abandonam um certo erotismo de dimensões históricas, Câmara tem no seu projeto poético uma revisão gulosa da história do Brasil, puindo, com ironias, tramas de poder e ícones constituídos. Nenhum narrador visual brasileiro pintou tão cronicamente os bastidores da Era Vargas como o pintor radicado no Recife desde os dez anos de idade. Série composta de dez enormes painéis e cem litografias, "Cenas da Vida Brasileira" (1930-1954) percorre fatos desde o assassinato de João Pessoa, no Recife, ao dramático suicídio do presidente gaúcho no Palácio do Catete em 1954. Sua pintura vai além da história. Funde-se com o tempo subjetivo.

Quando fala, as pernas cruzadas como pontuação de sua magreza proverbial, Câmara virgula a voz calma, didática como a do crítico e professor de artes que foi em universidades, com uma risada sincopada, súbita, de uma ironia lúcida como a que tempera algumas imagens das "Cenas da Vida Brasileira".

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“Sim, eu tangencio a questão política porque o que me interessa é a reconstituição do fato e a reconstrução da imagética. A partir disso, fazer um exercício imaginativo a respeito da cadência dessas imagens. Mas não é uma obra engajada com um discurso político orientado. 'Cenas da Vida Brasileira' cita a Ditadura Vargas, de um período que eu não vivi. Porque quando Vargas se matou, eu tinha 10 anos de idade, no Rio de Janeiro. Então, de certa maneira, fazer uma reinvenção da minha infância política tem um lado emotivo, é um retrato da minha infância”.

Câmara, quando você inicia o projeto de uma grande série, parte de um impulso ou de um projeto claramente racional?

"No caso da 'Cenas da Vida Brasileira', eu tinha resolvido fazer, a pedido da Bienal de Veneza, uma série de telas de grandes formatos, que acabou não acontecendo, talvez por questões políticas. Comecei a fazer telas sobre o período Vargas, de 1937, do Estado Novo (...) Nem sempre há um projeto preparado, mas há coisas que são feitas com a intenção devida. Pinto porque tenho que fazer alguma coisa (risos), mas há um impulso, algumas coisas são feitas porque precisam ser feitas. A verdade é que, no artista, não há muita diferença entre o autor intelectual e o executor físico do crime (risos)”.

“As Cenas são um mergulho nostálgico num passado que ele não viveu. Daí o sarcasmo, a ironia e a corrosão que acompanham as imagens da série, especialmente as imagens gravadas”, evidenciou o crítico Tadeu Chiarelli. “Enfim, a démarche de Câmara nada tem a ver com a literária recuperação proustiana do passado. Trata-se aqui de um passado intuído e não vivido.

“É muito pouco provável que o artista saiba exatamente onde está histórica e geograficamente. Eu tenho grandes dúvidas sobre que geografia eu habito e, mais ainda, sobre em que tempo vivo de fato”.

João Câmara
Daí a liberdade com que manipula a iconografia do período. Nesse sentido, eu diria que nas Cenas... ele se aproxima de um artista conceitual como Christian Boltanski e de outros artistas franceses ligados à tendência arqueológica”.

Em 1950, Câmara participou da reabertura da Sociedade de Arte Moderna do Recife. As recordações do artista vêm com a certeza de que em momento algum sentiu a pressão de imprimir panfletos em seus quadros: “Mas não deu muito certo, preferiam dar ênfase à coisa da arte moderna de Abelardo (da Hora) com o movimento de arte popular. Sim, a gente podia imaginar que a Sociedade de Arte Moderna, nos anos 50, com Abelardo, Wellington Virgolino e Wilson de Souza, esse grupo todo tinha uma inclinação à esquerda, socialmente engajada, muito por influência de Abelardo”.

Aluno de Mario Nunes e Vicente do Rêgo Monteiro no berço da geração da qual faz parte, a Escola de Belas Artes do Recife, ele foi influenciado mais plástica que poeticamente. “Fui aluno muito irregularmente, porque eles viajavam muito e estavam para se aposentar. E, depois fui aluno de Fernando Barreto. Vicente gostava muito que levássemos o quadro até o ateliê dele. E ele opinava sobre as obras. De Vicente, eu tive um pouco de influência, porque meu trabalho é muito delimitado. Eu tive afinidade com a coisa construtiva, muito dentro do gestual. Eu tive influência no sentido de estruturar uma imagem geometricamente cristalina. Elas estão dentro de um espaço limitado nelas mesmas”.

Com Mário Nunes, a convivência tinha mais intimidade de pincéis. “Ele tinha uma dicção impressionista. Nós pintávamos paisagens e ele corrigia - a juventude é muito rebelde e muito dramática, postiçamente dramática -, eu usava muitos tons terrosos, e ele dizia: ‘Isso é uma coisa horrível, parece um puleiro de passarinho, vamos encher isso de azuis’ - e ele mesmo pintava. Até o extremo, algumas vezes. E os alunos deixavam porque, ao final, ganhavam um quadro de Mario Nunes”, recorda ele, desaguando no riso curto e sincopado.

Você reconhece, quando pinta, essas influências?

“Nenhum artista reconhece nada, nenhuma influência - risos - porque todos somos muito vaidosos - risos.

José Cláudio diz que todo artista do século 20, quando pinta, é guiado por Picasso...

“O que acontece é o seguinte: Picasso é um artista que visitou todas as técnicas, é impossível pensar alguma coisa que Picasso não tenha lambuzado, mas nenhum artista tem influência tão carbônica. Van Gogh, por exemplo... se você ler as cartas dele ao irmão, ele fala de vários artistas por quem tinha uma admiração extraordinária. Todos menores do que ele”, diz Câmara, absolutamente desinteressado pelas regras do mercado de arte - “Acho uma perda absoluta de tempo” - nem, aos 72 anos, em gavetas classificatórias. "Com a idade, a gente pode se permitir a ampliação do que seria moderno. A execução de obras que podem ter cacoetes arcaicos pode ser mais significativamente modernas que a ficção científica.”

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