Disposição para mudar a vida das outras pessoas

Em 2012, Manari, no Sertão pernambucano, era destaque nos noticiários nacionais. O município de pouco mais de 18 mil habitantes enfrentava sua pior seca em 40 anos e despontava entre os piores do País no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Anos antes, a miséria em sua face mais cruel tinha rendido ao local o amargo título de “Pior do Brasil”. No Recife, a 350 quilômetros de distância, a dona de casa Lau Gomes, 52 anos, e o marido, o administrador Antônio Ildefonso Silva, 56, decidiram que não poderiam ficar de braços cruzados diante daquela situação. O Natal se aproximava e eles resolveram abrir mão da tradicional ceia e utilizar o 13º salário para comprar mantimentos para as famílias necessitadas. O casal e os três filhos mobilizaram uma verdadeira corrente do bem entre familiares, amigos e conhecidos. Assim, no dia 15 de dezembro de 2012, a primeira caravana da ONG Ação Solidária no Sertão chegava ao município, com mais de 400 cestas básicas e 500 litros de água. Na época, nem Lau, nem Antônio, nem as 300 famílias hoje atendidas pelo projeto em Manari e na vizinha Inajá imaginavam tudo o que a força da solidariedade seria capaz de alcançar nos anos que viriam.

“A gente chegou ao Sertão com uma ação de Natal, mas depois que viu a realidade dessas pessoas não teve mais como parar. Era uma situação que nunca tínhamos visto, um povo completamente esquecido”, lembra Lau. Durante quatro anos, a família e os voluntários se dedicaram a arrecadar alimentos, água, roupas e utensílios para os moradores dos dois municípios. Mas, em 2016, perceberam que não era o bastante. “Uma moradora nos disse que recebia doação de feijão, mas não tinha água para cozinhar. O caminhão-pipa custava R$ 150 e durava apenas oito dias. A gente viu que estava enxugando gelo.” Teve início, então, uma campanha para a perfuração de um poço artesiano no Sítio Baixa I, em Inajá, uma das áreas mais carentes. A estrutura custou R$ 25 mil e foi custeada a partir de bazares solidários e vaquinhas. O poço tem 150 metros de profundidade e bombeia 27 mil litros de água por hora para uma caixa d’água.

Para sertanejos como dona Maria Luzia da Silva, 45, a água limpinha ao lado de casa representa esperança. “Antes, era muito sofrimento. A gente vivia com sede, não podia plantar nada e os animais morriam. O outro poço ficava longe. Às vezes, a gente caminhava até lá para pegar água e nem tinha. Cansei de voltar sem nada. Agora é bom demais”, comemora ela. Um segundo poço foi perfurado na região quatro meses depois e o terceiro já está nos planos para o próximo ano.

Com a chegada da água, foi a vez de outro projeto dar frutos no Sítio Baixa I. Ainda em 2016, teve início o Irrigar, que permitiu o cultivo de insumos como milho e feijão, colorindo em tons de verde a paisagem árida do Sertão. “Foi uma etapa muito importante, porque não estávamos mais dando o peixe, mas ensinando eles a pescar. É a coisa mais linda ver os agricultores colhendo o que plantam aqui”, conta Lau.

Os voluntários viajam duas vezes ao mês para o Sertão com donativos diversos, que vão de brinquedos a eletrodomésticos. A ONG também organiza campanhas fixas, como a Caravana da Saúde, que leva, a cada três meses, médicos de diversas especialidades aos municípios; a Pequenos Sertanejos, que arrecada brinquedos para serem doados no Dia das Crianças e a Mesa Farta, campanha de Natal com objetivo arrecadar cestas básicas. Além disso, cinco famílias tiveram casas construídas pela organização de 2012 para cá.

Mas o sonho maior virou realidade no último mês de setembro. “Quando chegamos aqui pela primeira vez, a falta de uma escola chamou a nossa atenção. Então, começamos a idealizar a construção de um espaço para as crianças poderem estudar com dignidade”, relata Antônio. Foram oito meses de obras até que a Escola Municipal Ação Solidária no Sertão, em Inajá, finalmente saísse do papel. No Sítio das Baixas, onde ela irá funcionar, existem apenas três salas de aula improvisadas, em cômodos alugados nas casas de moradores. O novo prédio tem 200 metros quadrados e custou R$ 92 mil, fruto de campanhas da ONG. A instituição irá atender 120 meninos e meninas de Manari e Inajá a partir do início de 2019. Entre os beneficiados estão os filhos da agricultora Lenice Maria da Silva, 30. “Hoje a condição das escolas onde eles estudam é muito ruim. A gente nunca teve por aqui um espaço como esse”, comemora.

Sem apoio financeiro, a ONG sustenta o trabalho através de doações e do Bazar Sertanejo, que ganhou novo endereço no mês de novembro. A lojinha fica na Rua São Sebastião, 688, em Piedade, Jaboatão dos Guararapes.

Informações: 99685-9692/ 3436.5245

Estradas do empoderamento

Quem dirige pela PE-149, no Agreste do Estado, não sabe sequer que está passando por Ibirajuba. Isso porque não existem placas indicando a entrada do município, de apenas 7,5 mil habitantes. Foi, literalmente, sem querer que a ajuda aportou por lá, em 2011. Na época, a psicóloga Rosana Andrade, 56 anos, e os voluntários do Grupo Humanizar procuravam o município vizinho de Jurema para realizar uma ação social, quando acabaram se deparando com o abandono da área rural de Ibirajuba. De lá pra cá, o local se tornou piloto de um dos principais projetos da ONG, com o objetivo de capacitar e empoderar mulheres, qualificando-as para o mercado de trabalho.

É no Sítio Cajá, uma das áreas mais remotas do município, que está localizada a sede do Espaço Desenvolver. Nos últimos dois anos cerca de 180 mulheres já passaram pelo projeto, realizando oficinas de artesanato, manicure, cabeleireiro, corte e costura e panificação. “Quando chegamos, os moradores viviam uma seca de sete anos. Muitos lares eram formados por mulheres e crianças porque os homens haviam se mudado para o Recife ou São Paulo em busca de trabalho. Para se sustentar, a maioria delas passava o dia com a enxada na mão e algumas chegavam, inclusive, a se prostituir”, lembra Rosana, presidente da organização. “Hoje elas fazem artesanato e vendem nas feiras e pela internet. Em parceria com o Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), conseguimos oferecer também os cursos de corte e costura e panificação. Antes, o pão só chegava aqui às quartas-feiras. Agora, elas preparam e vendem todos os dias.”

A artesã Quitéria Timóteo, 30, conseguiu realizar o sonho de comprar um tanquinho de lavar roupas a partir da venda dos produtos. “Aqui eu descobri o que realmente gostava de fazer. Minha vida e a dos meus dois filhos mudou 100%.”

É preciso fazer o caminho de 180 quilômetros de volta ao Recife para entender como o trabalho da ONG começou. “Há 14 anos, fizemos uma festa para uma amiga e sobrou muita comida. Resolvemos, então, doar para um abrigo. Lá, entramos em contato com uma realidade completamente diferente. Lembro que saímos chorando e decidimos que não era possível seguir a vida fazendo de conta que aquela situação não existia”, relata Rosana, presidente da ONG.

Assim, os primeiros trabalhos do Grupo Humanizar eram focados no projeto Natal Sem Lágrimas, ceia realizada em instituições para crianças e adolescentes. “Começamos a receber muitas doações. Então, veio a ideia de distribuí-las pelo interior. Assim, nasceu o SerTão Amigo. A cada dois meses, escolhemos um município para levar todo tipo de donativos”, explica Rosana.

Conhecendo a necessidade de cada local, o próximo passo foi investir nas capacitações. “Aqui no Cajá não doamos mais nada, porque estamos profissionalizando as pessoas. É um trabalho difícil, mas gratificante. Ouvi de uma das mulheres que antes de a gente chegar por aqui eles viviam esperando a morte. Agora, vivem aguardando a nossa chegada.”

Informações: 98805-6362

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