"A solidariedade é um efeito da aproximação e do afeto entre as pessoas"

Graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a psicóloga Regina Helena de Freitas Campos é PhD em Educação pela Stanford University e pesquisadora da área de psicologia social. Em entrevista ao Jornal do Commercio, ela falou sobre solidariedade, empatia e individualismo na sociedade contemporânea.

SOLIDARIEDADE

Em psicologia social, a gente trabalha com a ideia de que a solidariedade faz parte da natureza humana. As pessoas têm a tendência de se associarem umas às outras porque o ser humano não vive só, mas em grupos. Então, existe uma propensão espontânea de se pensar e resolver coletivamente os problemas e conflitos que aparecem. É justamente essa resolução dos problemas da vida em grupo a fonte daquilo que a gente chama de solidariedade. São tendências altruístas de ajudar quem está passando por alguma dificuldade. Sigmund Freud falava que o ser humano pode ser comparado aos porcos-espinhos: eles se aproximam uns dos outros em busca de calor e, quando essa proximidade é muito grande, começam a se machucar mutuamente e se acabam se afastando novamente. Esse movimento de se aproximar e afastar pode ser entendido como o próprio movimento da vida. A solidariedade é um efeito da aproximação e do afeto entre as pessoas. É a possibilidade que a gente tem de ver o mundo através dos olhos do outro.

CONSTRUÇÃO

O olhar pela ótica do próximo é uma coisa que se desenvolve, que é possível ser construída ao longo da vida do indivíduo. Existem autores, como (Jean) Piaget, que, em seus estudos, defendem que essa compreensão do ponto de vista do outro é uma construção progressiva, que as crianças iniciam já desde os primeiros anos de vida e traz benefícios. Experimentar o mundo pelos olhos do outro, compreender as coisas como ele compreende é um exercício de altruísmo e pode fazer com que elas sejam mais solidárias para com o próximo.

INDIVIDUALISMO

Os estudos também mostram o aumento do individualismo na sociedade contemporânea. Por individualismo, a gente quer dizer que as pessoas têm mais autoconsciência e se guiam menos pela função que o grupo atribui a ela, como acontece nas sociedades tradicionais, e mais pelo seu desejo próprio, pela direção que ela mesma se estabelece. Isso não quer dizer, necessariamente, que elas sejam egoístas ou menos solidárias. O que podemos dizer é que esse sentimento de querer tudo para si acaba resultando em um desgaste dos laços sociais, que é evidente na sociedade contemporânea. As pessoas, antigamente, eram mais ligadas aos grupos familiares, por exemplo. Hoje isso ainda existe, mas a obrigação familiar ficou menos presente.

PSICOLOGIA SOCIAL

É uma área muito estudada e bem desenvolvida no nosso País. A psicologia social se dedica a compreender o comportamento dos indivíduos em grupo: como se promovem certas condutas de ajuda mútua, de solidariedade com o próximo e como se pode melhorar as relações das pessoas dentro da coletividade. Existe ainda o campo da psicologia social comunitária, que visa estudar os grupos na comunidade, para entender como melhorar as relações naquele lugar.

POLARIZAÇÃO

Em uma situação de polarização, com opiniões muito divididas, como a que estamos vivendo no País atualmente, o exercício do altruísmo e a solidariedade podem ajudar a unir novamente as pessoas. A questão é como se vai conseguir isso. Acredito que será um trabalho mais a longo prazo. Existem coisas em comum que todos querem e esse deve ser o foco. Se a gente conseguir fazer com que as pessoas entendam que existem projetos comuns, faremos com que elas fiquem menos voltadas para os seus próprios desejos e passem a se voltar para a comunidade como um todo. É um trabalho que, para mim, pode ser um pouco demorado.

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