Mudança social tem seus lucros

Empreender para impactar vidas e solucionar problemas sociais. O que pode parecer difícil de imaginar em um primeiro momento é, na verdade, um segmento que tem se popularizado no Brasil e no mundo. Um levantamento realizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) identificou mais de 800 negócios de impacto social no País até julho de 2018. São empresas que conseguem tirar o sustento da solidariedade e da transformação da realidade de outras pessoas.

O jornalista Pedro Verda, 33 anos, costumava desenvolver projetos de responsabilidade socioambiental para empresas. “Um dia fui contratado por uma escola particular do Recife para pensar em um projeto envolvendo alunos. Percebi que ali existia um nicho importante, já que poucas instituições trabalham inovação social. Passamos, então, a desenvolver junto aos estudantes iniciativas que causassem impacto em diferentes áreas.” Assim, a Verda, empreendimento que leva seu nome, virou negócio social de educação em 2016.

“Nossa metodologia busca resgatar valores como amor ao próximo e empatia, aguçando o olhar crítico das pessoas e buscando soluções para os problemas”, explica Ludmila Valença, sócia da empresa. Hoje, os dois vivem do lucro do empreendimento, que já atendeu mais de mil alunos em escolas e faculdades.
Os negócios de impacto social têm movimentado cerca de US$ 60 bilhões no mundo inteiro e registrado aumento de 7% ao ano, segundo levantamento da Ande (Aspen Network of Development Entrepreneurs), rede de empreendedores de países em desenvolvimento.

No Brasil, o conceito ainda é bastante novo. “Trata-se de diagnosticar problemas sociais e desenvolver produtos ou serviços de impacto, seja nas áreas de educação, saúde, igualdade de gênero entre outras. Uma empresa social nasce com a missão de mudar o mundo, mas lucrando com isso”, explica o empreendedor Fábio Silva. Em 2016, ele criou o Porto Social, com o objetivo de incubar e acelerar projetos, a partir da metodologia do empreendedorismo social. A Verda foi uma das primeiras a passar por esse processo.

Anualmente, são selecionadas 35 iniciativas de ONGs ou voluntários. Durante 12 meses, os líderes recebem capacitação através de cursos, palestras e oficinas. “O objetivo é mostrar que o projeto pode sair do assistencialismo e da doação para se transformar em um serviço prestado. Isso muda tudo, aumenta muito o impacto do trabalho”, argumenta Fábio Silva.

Mônica Barros é diretora do Squash Tennis Center do Recife, localizado em Boa Viagem, na Zona Sul. Desde a inauguração da empresa, há 30 anos, ela desenvolve o Tênis Para a Vida, projeto que atende jovens carentes de comunidades do entorno. Em 2017, a iniciativa foi uma das selecionadas para a incubação no Porto Social. “Tem sido muito importante. Estamos profissionalizando nosso projeto, que ajuda a tirar jovens de 10 a 16 anos da situação de vulnerabilidade, ensinando um esporte e, quem sabe, lhes dando uma profissão”, destaca.

Empreender para fazer o bem

Dar perspectiva de vida a jovens de comunidades carentes da Zona Sul da capital. Essa missão foi adotada há 30 anos pela direção do Squash Tennis Center do Recife. A empresa, localizada numa área carente do bairro de Boa Viagem, mantém o projeto Tênis Para a Vida desde que chegou à vizinhança, com o objetivo de atender jovens com idades entre 10 e 16 anos moradores do entorno.

“Quando criamos o estabelecimento, resolvemos fazer essa ação social. Minha mãe sempre teve esse olhar para o próximo, então é meio que uma herança de família querer ajudar quem precisa”, conta Mônica Barros, diretora da empresa.

As aulas acontecem na estrutura da academia de tênis, sempre às sextas-feiras, das 8h às 10h e das 14h às 16h. “É uma oportunidade de oferecer acesso ao esporte e tirar esses meninos de situações de vulnerabilidade social. Muitos também conseguem evoluir profissionalmente. Hoje os dois melhores tenistas de Pernambuco são frutos do nosso projeto”, destaca Mônica.

Entre os jovens que fizeram da esporte profissão está Edmilson da Silva, 37 anos, que chegou aos nove anos no Tênis Pela Vida. “O tênis foi a minha vida inteira. Vivo dele e hoje já treino meus dois filhos. O projeto me trouxe educação, disciplina e me deu uma oportunidade de emprego.”

A doméstica Zilda Santos, 47, é avó de Alisson dos Santos, 10. “Acho esse projeto maravilhoso. Meu neto não perde um dia. Sinto que ele passou a se concentrar e interessar mais pelos estudos desde que começou a jogar tênis.”

Em 2017, a iniciativa foi uma das selecionadas para a incubação no Porto Social. “Tem sido muito importante. Estamos profissionalizando nosso projeto, que sempre foi feito com muito amor, dedicação e feeling. Através do Porto Social, aprendemos como construir um estatuto e formalizar a questão mercadológica. Para o futuro, queremos oferecer acompanhamento psicológico, reforço escolar e ampliar o nosso projeto”, planeja Mônica.

"O empreendedor é mais sensível à dor do outro"

JC – Qual a diferença entre uma empresa que realiza ações sociais e uma empresa social?

FÁBIO SILVA – Uma empresa convencional que tem uma área de responsabilidade social tem como ativo seu produto ou serviço. Ela identifica que também pode ajudar pessoas ou mudar o seu entorno, mas o objetivo não é transformar o mundo, é vender o seu produto ou serviço. Em um negócio social, o principal ativo é a transformação social. Ele nasce com esse objetivo.

 

JC – Em que medida isso difere do trabalho de uma ONG?

FÁBIO – Uma ONG pode até utilizar a metodologia do empreendedorismo social, mas não pode dar lucros. Já um negócio social tem como característica a transformação da vida das pessoas, com lucratividade.

 

JC – Trata-se de um outro perfil de empreendedor.

FÁBIO – Sim. O empreendedor social tem um perfil muito ligado a um propósito. É um empreendedor mais sensível à dor do outro. Ele está sempre preocupado com as questões voltadas para a sustentabilidade. Não se trata do lucro pelo lucro, mas do lucro a partir da mudança do mundo, seja na educação, na saúde, em programas de geração de renda ou que promovem empoderamento feminino, por exemplo.

 

JC – Esse é um conceito novo no País. De onde vem?

FÁBIO – Um dos principais fomentadores do empreendedorismo social e dos negócios sociais é um indiano chamado Yunus. Através do microcrédito, ele mudou a forma de consumo e do ciclo do capital na Índia. No Brasil é extremamente recente. Estamos começando a perceber a migração do mercado convencional para o mercado de propósito. As empresas têm começado a se preocupar com a área de responsabilidade social, com seu entorno, seu colaborador e seu produto.

 

JC – Nesse contexto, como surge o Porto Social?

FÁBIO – O Porto Social nasce como uma organização sem fins lucrativos, mas com toda a metodologia do empreendedorismo social para ajudar líderes de organizações e projetos sociais ou pessoas que tenham uma ideia para mudar o mundo. O trabalho é realizado através de editais anuais de incubação e também de palestras, labs e cursos durante todo o ano. Isso melhora tudo, transforma o nível de impacto do projeto e o mind setting do líder, para que ele entenda que o empreendedorismo social não se trata de assistencialismo, mas de um segmento econômico.

Leia também

Jornal do Commercio | Expediente