Onde está você agora?

Fabiana Moraes (textos) e Ricardo Labastier (imagens)

Almoçar juntos no próximo domingo, se encontrar para festejar o aniversário, decidir na casa de que familiar vai ser a ceia de Natal ou festa de Réveillon. Caminhar lado a lado no parque. Ajudar a ir no médico medir a pressão. Brigar porque chegou em casa tarde. Ou porque deixou a torneira da pia meio aberta. A vida mais festiva ou a vida mais besta são postas pelo avesso quando alguém que você ama some sem qualquer explicação. Quando vai ali e não volta, quando não há qualquer notícia, nem sequer um corpo. Quando não há nada, só espanto e espera. Quando tudo à sua volta, como diz a música, vira um vão. Este especial do Jornal do Commercio/JC Online traz os relatos das famílias profundamente quebradas pela ausência de um parente – e a história emocionante de Maria Eulália, que foi sequestrada há mais de 50 anos em Caruaru e aparece aqui à procura dos seus (vídeos, textos e fotos nos links abaixo). É um fragmento de um universo de 250 mil desaparecidos no Brasil todos os anos, sendo 40 mil crianças. Cinco histórias distintas e múltiplas, todas sobre o desmonte cotidiano de quem ficou e de quem, violentamente, partiu.

Aos que sumiram:

De janeiro a junho de 2015, foram registrados 1.412 desaparecimentos em Pernambuco, Estado no qual o índice de pessoas sumidas é alarmante: entre 2009 e 2013, segundo a Secretaria de Defesa Social, saímos de 1.158 casos para 2.343. Esse número terrível, no entanto, não é acompanhado em relação às políticas de segurança necessárias para cobrir o enorme vão que se abre a partir do desaparecimento de alguém. Há apenas uma delegacia em todo o Estado voltada para investigar desaparecidos, localizada no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Lá faltam policiais para acompanhar integralmente os casos. Nas delegacias especializadas em crianças e adolescentes, dá-se o mesmo: as investigações sobre o paradeiro de quem some são quase nulas. “Vamos acumulando os casos. Se uma criança some, começamos a investigar, mas chega depois uma ocorrência, um estupro, aí temos que deixar o desaparecimento de lado. E assim vai sendo. É uma bola de neve”, reconhece o delegado Carlos Barbosa, da Gerência da Polícia da Criança e do Adolescente (GPCA) de Prazeres. Ou seja: quem fica e quem some tem que contar com o terço ou com a sorte.

Também não há uma rede nacional de informações efetivas: a rede brasileira de desaparecidos, que precisa ser alimentada pela polícia dos Estados, está à míngua. Não reflete minimamente o que está acontecendo no País: para se ter ideia, enquanto aqui já chegamos perto de 1.500 pessoas desaparecidas (2015), o Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes (ReDESAP) mostrava, no dia 26/8, às 15h30, apenas 369 casos cadastrados em 20 Estados brasileiros. Em Pernambuco, apenas seis pessoas estavam registradas. É ausência em cima de ausência em cima de ausência. Ausências de várias ordens. Afetiva, institucional, familiar. Neste especial, trazemos o dia a dia de quem está há anos à espera de alguma notícia, resposta, contato, algo que explique o afastamento repentino de uma pessoa que estava sempre por perto. Conhecemos Domícia, Donzília, Cristina e Sueli. Todas mulheres que tentam reconstruir suas existências a partir de uma imensa falta. Mostram algo presente na pesquisa do sociólogo Dijaci Oliveira (link na sessão Desaparecidos ou invisíveis?): são as mulheres, na maioria, que continuam a insistir nas buscas, que tomam à frente, que querem, que acreditam, que se dispõem a preencher o vazio institucional em relação aos desaparecidos e desaparecidas. Que entram em matagais, que passam as noites olhando à porta, que são convidadas a sair da delegacia por estarem descontroladas. Nesse universo de poucos afagos, nos chega ainda a história de Maria Eulália, sequestrada há 55 anos. Tinha apenas nove anos e foi enviada ao Sul do País para trabalhar como babá. Nos escreveu uma longa carta contando tudo o que passou (estupro, racismo constante) e como gostaria de reencontrar a família que ficou aqui (Dora era sua mãe, do irmão ela só lembra do apelido: Maneco). Eulália, cujo vídeo está disponível aqui, é uma desaparecida que nos fala aqui, é a afirmação de um possível que acontece, um alento, um oásis que nos poupa temporariamente do abismo que é saber que a vida de quem some passa a ser invisível (para sempre) aos olhos do Estado. Um alívio quando sabemos que tantas famílias várias vezes matam simbolicamente seus parentes ausentes para poderem continuar a viver.

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