"Quanto mais cedo houver diagnóstico, melhor"

O diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) é feito pelo médico neuropediatra. Para chegar a uma conclusão em relação a cada paciente, o profissional precisa entrevistar a família (pacientes e pessoas que convivem com ele em casa) e são feitas perguntas sobre a criança e os familiares, desde antes da concepção. A análise e o resultado da conversa normalmente não são divulgados na primeira consulta, é necessário marcar uma volta. Mas, basta observar algumas características do comportamento do paciente que o médico já tem uma ideia do quadro.

Estima-se que a cada 68 crianças, uma conviva com o TEA. E que a proporção é de que haja quatro casos de meninos para um caso de menina que apresente características do transtorno. No caso de Rafael Holanda, o garoto chegou ao consultório do neuropediatra Gustavo Holanda acompanhado da mãe, com o diagnóstico de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Antes mesmo de encerrar a entrevista, o médico percebeu as características do transtorno do espectro autista no menino. “Observei, inicialmente, que Rafael tem interesses restritos e repetitivos. Gosta muito de desenhar. E repete os desenhos”, explica.

O menino apresenta um grau leve do transtorno, por isso a dificuldade de diagnóstico. “Também podemos levar em consideração o fato de, somente em 2014 ter sido publicado o Manual da Associação Americana de Psiquiatria, que incluiu o termo ‘espectro’, o que dá uma amplitude em relação ao diagnóstico. Significa que uma pessoa não precisa ser gravemente afetada para se enquadrar”, detalha.

De acordo com o médico, antes da publicação do Manual, muitos casos de crianças que apresentavam leves características do transtorno “passavam batidos”, os profissionais da área de saúde e educadores especialistas na área tinham dificuldade de identificar. “Depois de 2014, tirou-se o rótulo do ‘autismo’ e os profissionais começaram a analisar os casos com outra visão”, garante. ”

É necessário, porém, difundir esse tipo de informação, para que as famílias também prestem atenção no comportamento das crianças. Quanto mais cedo for fechado o diagnóstico, melhor. Se a descoberta demorar a ser feita, o paciente vai sentir mais dificuldades de se relacionar com outras pessoas. E isso pode ir provocando traumas”, alerta.

Em alguns casos, é possível suspeitar desde bebê. Quando, por exemplo, a criança mama e não fixa o olhar na mãe, ou quando fica irritada com frequência, com dificuldades de pegar o peito.

Sinais que podem indicar autismo

O diagnóstico que confirma que uma criança possui o transtorno do espectro autista (TEA) é feito normalmente até os três anos, mas a família pode perceber alguns sinais ainda quando elas são bebês e imediatamente comunicar ao pediatra, para que o médico encaminhe a família para especialistas em tratar pacientes com o TEA. Conheça alguns sintomas:

Não fixar o olhar na mãe enquanto mama ou apresentar irritação excessiva com frequência antes de mamar
Ter interesses restritos e repetitivos. Nos casos de autismo de alta performance, o paciente é muito bom naquilo que tem interesse
Ficar frequentemente com a boca aberta (babando)
Apresentar olhar inexpressivo
Apresentar lassidão na musculatura (barriga mais redonda)
Ter dificuldades em relação à linguagem (não consegue iniciar, nem dar prosseguimentos a diálogos)
Demonstrar dificuldades de manifestar os seus sentimentos e de compreender os sentimentos dos outros
Demonstrar grandes frustrações e irritabilidade em casos de quebra de rotina - o que pode levar os pacientes a se automutilarem
Sentir incômodo e irritabilidade ao ouvir alguns sons

Em alguns casos de TEA, podem-se desenvolver comorbidades (relação entre duas ou mais doenças) como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, epilepsia, ansiedade e depressão

A revelação do diagnóstico é um momento difícil não somente para a família. Os profissionais que lidam com pacientes que sofrem do TEA afirmam que precisam ter cuidado ao contar os resultados das avaliações àqueles que estão mais próximos das crianças, como pais e avós.

“Existe um medo muito grande da confirmação de que o paciente tenha o transtorno, sobretudo por causa da falta de conhecimento da população sobre o assunto. Carrega-se o estigma de que ‘autista’ é uma pessoa com deficiência mental, que não tem capacidade de resolver problemas, não se comunica. E não é bem assim”, explica Gustavo Holanda.

Após a confirmação, o ideal é que o neuropediatra encaminhe o paciente para terapias multiprofissionais, que envolvem profissionais como fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e pedagogos, a depender da necessidade de cada criança. Há ainda tratamentos como musicoterapia, terapia com animais e atividades físicas, que ajudam a preparar as crianças para que elas possam conquistar cada vez mais independência.

“O pilar para que um tratamento tenha sucesso é a soma do apoio familiar com as terapias multiprofissionais. Infelizmente é comum, porém, que muitas famílias se desfaçam após o diagnóstico. Não são raros os casos que acompanhamos em que, logo após a descoberta, os pais abandonam o lar e a responsabilidade fica a cargo das mães. E há, ainda, aqueles casos em que a família tem mais de uma criança e as atenções se voltam bem mais para a que possui o TEA. A outra sente-se relegada”, lamenta o neuropediatra.

Expediente

2 de Setembro de 2017

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