Desenhos que falam para o mundo

Rafael nasceu no dia 10 de agosto de 2006. Era esperado para setembro, mas, aos oito meses de gravidez da mãe, a professora Ana Karine Holanda, o obstetra descobriu que o bebê não estava recebendo todos os nutrientes necessários para um crescimento saudável. O médico decidiu realizar uma cesariana e o menino veio ao mundo com apenas 1,870kg, o que exigiu uma semana de UTI e mais duas de internação no hospital.

Os primeiros meses de vida foram delicados. Cada ganho de peso era comemorado com muita alegria. Os dois anos seguintes, parecidos com a realidade de outras crianças: trabalhosos, mas com desenvolvimento considerado normal.

Os sinais mais evidentes de que Rafa era uma criança especial vieram aos três anos: na escola, dificuldades no aprendizado e no relacionamento com os colegas e os professores. Vários exames foram feitos. Vários diagnósticos, medicamentos, terapias. Mas nada trazia tranquilidade a Rafael e sua família.

Somente prestes a completar 11 anos, em junho de 2017, veio o diagnóstico de síndrome de Asperger, uma condição neurológica do transtorno do espectro autista que afeta a capacidade de comunicação e de relacionamento. Acabou, enfim, a odisseia da família em busca de um diagnóstico. “Mas vem outro tipo de angústia, de aflição. Como preparar o meu filho para enfrentar uma sociedade preconceituosa, que impõe comportamentos e limites às pessoas?”, questionava Ana.

Não foram poucas as perguntas da família de Rafa dias após o diagnóstico.

 

Era uma soma de incertezas em relação ao futuro. Rafael conseguiria se adaptar à escola, conviver de forma saudável com família e amigos? Nossos gastos seriam maiores? Quais os profissionais mais adequados para acompanhá-lo?”, relata a mãe, admitindo que as primeiras semanas foram as mais difíceis para toda a família.

 

O mundo de Rafa deu uma reviravolta depois que Ana recebeu uma ligação da escola enquanto viajava a trabalho. “Precisamos conversar sobre Rafael”, escutou. “Chorei muito, sofri demais quando ouvi que um especialista que trabalha no colégio acompanhando outra criança autista tinha observado meu filho durante os intervalos das aulas e achava que ele apresentava características da Síndrome de Asperger. Achei as palavras duras, mas não tinha o que fazer senão encarar e buscar, mais uma vez, um diagnóstico preciso”, lembra.

Diante de um mundo de incertezas, Ana Karine começou a reviver momentos, alguns passados há muito tempo. Lembrou que, ainda no primeiro ano de vida, o filho separava os brinquedos por classes. Carros num lugar, bonecos em outro, animais em outro…

Aos dois anos e meio, já apresentava gosto pelos desenhos. Aos três, durante um exame, um oftalmologista percebeu que o menino não fixava o olhar nas pessoas. A família buscou outros profissionais. Vieram diagnósticos de síndrome da deficiência postural (SDP), dislexia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Tratamentos e medicamentos inadequados. Momentos de conflito dentro de casa. “O nosso amor por Rafael nunca diminuiu. Mas não foram poucas as vezes em que perdemos a paciência, chegamos a gritar com ele, colocá-lo de castigo. Na verdade não entendíamos o seu comportamento e assim ficava mais difícil de lidar com as situações”, admite a mãe.

Na escola, a convivência com os colegas era complicada. O menino não gostava de participar das atividades extraclasse. Outra dificuldade relatada pela família era a falta de preparo dos educadores para lidar com as necessidades de Rafael.

“Quando ele estava no 4º ano, observamos que estava regredindo em relação ao aprendizado. Foi então que decidimos mudá-lo de escola. Na outra instituição ele se adaptou melhor. Mas ainda sentia dificuldades no aprendizado. Aí veio a intervenção do educador, que, ao mesmo tempo que nos deixou assustados, levou-nos a buscar o tratamento adequado”, explicou o pai, Marcelo Bastos.

O menino, que mora com os pais, passa o dia na casa dos avós paternos. Durante a maior parte do tempo, gosta de desenhar. É assim que se comunica com o mundo. Tem preferência por pássaros, dinossauros, animés, na maioria das vezes desenhados em cinza e branco, não gosta muito de cores. Os desenhos de animais muitas vezes relatam o cotidiano da família de Rafa.

“Certo dia ele se desentendeu com a avó e, mais tarde, num desenho, retratou um pássaro menor e outro maior, como se estivessem num diálogo. E escreveu no papel: ‘Eu sou o pior neto do mundo?’, deixando um espaço para a avó responder. Outra vez, fez uma família de golfinhos para representar eu, ele e o pai. E me deu de presente de Dia das Mães”, conta Ana Karine, chamando atenção para a sensibilidade do menino. “Guardo uma caixa com fotos, cartões e lembranças do meu pai, já falecido. Me emociono sempre que abro. Um dia Rafa me viu com a caixa e comentou: ‘Mamãe, você abriu a caixa da saudade?'”.

Recentemente, na escola, um professor de língua portuguesa questionou a letra do aluno, alegou dificuldades para entender a sua grafia. Depois, os pais foram chamados novamente. Em vez de fazer as tarefas de sala, Rafael preferia desenhar. Proibiram, então, os desenhos. O menino passou a se torturar. Cortava sua própria pele, arrancava sangue.

O diagnóstico preciso ajudou a família a lidar com situações complexas. Além do acompanhamento de um neuropediatra, a família contratou uma equipe especializada em lidar com pessoas com déficit de cognição. Psicólogo, psicopedagogo, terapeuta ocupacional, professores orientam Rafael e sua família para que ele tenha autonomia ao realizar tarefas simples, como ir ao banheiro ou executar as atividades da escola.

“E, aos poucos, vamos aprendendo estratégias para mostrá-lo que existem outras atividades prazerosas além do desenho sem, porém, deixar de valorizar essa habilidade dele. Seguimos um protocolo sugerido pela equipe de profissionais que o acompanha, o que exige disciplina e cuidados específicos. Ainda estamos em fase de adaptação, mas já enxergamos melhorias na nossa relação com ele”, comemora a mãe.

Expediente

2 de Setembro de 2017

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