"Autistas precisam de pessoas sensíveis às suas causas"

Tito Bela Vista é formado em história. Alguns anos atuando em sala de aula foram suficientes para que ele se incomodasse com a dificuldade de se encontrar professores preparados para trabalhar com educação inclusiva. Por isso decidiu se especializar na área.

Fez MBA em Métodos Cognitivos e Aprendizagem Imediata na Universidade Católica do Uruguai; estudou e preparou-se para aplicar, em Pernambuco, o método Teacch (criado na década de 60, na Universidade da Carolina do Norte) e formou a Sala de Orientação Pedagógica (SOP), onde profissionais das áreas de psicologia, pedagogia, fonoaudiologia e terapia ocupacional trabalham com o objetivo de auxiliar as pessoas com dificuldades de cognição e comunicação.

Por acompanhar um aluno na mesma escola onde Rafael estuda, Tito começou a observá-lo, sobretudo nos momentos de intervalo, e percebeu características do transtorno do espectro autista (TEA). Acionou a mãe de Rafa, comunicou suas impressões e orientou para que a família procurasse ter certeza do diagnóstico. Hoje, além de ajudar Rafael e muitas outras crianças que sofrem do transtorno, com graus mais leves ou intensos, também realiza cursos e palestras sobre o assunto.

Confira a entrevista de Tito Bela Vista ao Jornal do Commercio:

JC –  Como é feito o tratamento da criança com suspeita de TEA pela equipe do SOP?

TITO – Primeiro, estabelecemos um protocolo que consiste em quatro etapas: 1. teste para identificar a idade cognitiva da criança e quais são as suas maiores dificuldades; 2. desenvolvimento de plano individual de desenvolvimento educacional (para ser usado na escola); 3. desenvolvimento de plano terapêutico (para ser adotado em domicílio) e 4. formação para professores e terapeutas que lidam com a criança. Durante todo
o processo é fundamental que as pessoas envolvidas – familiares e profissionais – tenham disciplina e organização para seguirem as recomendações e assim conseguirem adaptar os ambientes para que a criança se sinta acolhida e possa se comunicar melhor.

JC –  Qual o método adotado?

TITO – Utilizamos o método Teacch, da Universidade da Carolina do Norte. Com base nesse método, as crianças são submetidas à avaliação PEP-3, que revela o perfil psico-educacional de cada uma. A partir daí é que podemos detectar se a criança tem autismo e qual o grau. Depois começamos a fazer as intervenções. São várias reuniões e treinamentos com os familiares e terapeutas para poder começar a aplicar os planos previstos no protocolo.

JC – Que tipos de dificuldades você observa nas crianças autistas para estabelecerem comunicação em casa e na escola?

TITO – Eles sentem dificuldades sobretudo porque não sabem relatar o que sentem. Não conseguem explicar oralmente e por isso suas ações muitas vezes são vistas como inadequadas, mas a verdade é que  são incompreendidos. Por exemplo: alguns não sentem o chão e por isso pulam muito. Aí vem um professor, pega pelo braço e manda sentar. É lógico que essa criança ficará irritada. Barulhos normalmente os incomodam. Aí, em muitas escolas, nas aulas de educação física, o professor apita muito. Isso irrita as crianças com TEA. Em casa, eles nem sempre conseguem pedir para ir ao banheiro; às vezes tiram as roupas na frente das outras pessoas, ou mesmo fazem as necessidades antes de chegarem ao vaso sanitário.

JC –  E como é possível fazer com que essa relação deles com o mundo possa mudar para melhor?

TITO – As crianças autistas precisam de pessoas sensíveis às suas causas. Pessoas que procurem compreendê-las. É necessário também estar perto de profissionais capacitados e que utilizem métodos eficazes. Assim conseguimos obter resultados satisfatórios. No método Teacch procura-se adaptar os ambientes para que a criança não fique irritada. Um aluno que reclame do barulho nas aulas de educação física, por exemplo, não deve deixar de frequentar essas aulas por ser autista. Basta conscientizar o professor e os colegas a fazerem menos barulho e dessa forma acolherem aquela criança especial.

JC –  A superproteção, então, seria prejudicial?

TITO – Sim. É preciso incentivar as pessoas com transtorno do espectro autista a descobrirem suas habilidades e competências. Elas precisam de autonomia para lidar com diversas situações do cotidiano. Se gostam e têm talentos para desenho, pintura, plantação, seja qual for a atividade, é preciso valorizar. Porque isso pode representar a liberdade para elas. E, quando se proíbe, como no caso de Rafael,  podem entender que querem tomar a sua liberdade.

JC – As escolas brasileiras estão preparadas para lidar com essa realidade?

TITO – Não. Nas escolas públicas os professores dificilmente têm acesso a formações para que possam compreender o universo autista. Em muitas escolas particulares, há aquela ideia de inclusão, mas, na prática, nem sempre os professores estão preparados. É preciso muito estudo e conhecimento de casos para poder compreender.

JC –  Ainda há uma resistência muito grande dos pais em admitir que seus filhos possam ter o transtorno?

TITO – Sim. A sociedade enxerga o autismo como um “monstro” porque associa o TEA à falta de capacidade de comunicação. Mas, quando há conhecimento e acompanhamento adequado por parte de profissionais preparados, as famílias não somente aceitam, como passam a se orgulhar do convívio com essas pessoas especiais.

Expediente

2 de Setembro de 2017

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