"Meu filho é especial em todos os sentidos"

Rafael nasceu prematuro, pesando menos de dois quilos. Ficou um mês na UTI neonatal e cada passo do seu desenvolvimento se transformava em grandes conquistas. Em decorrência disso eu tive excesso de cuidados com ele.

Perto dele completar dois anos, eu percebi algo diferente em seu comportamento, mas não sabia definir bem o que era. A parte mais perceptível desse estranhamento era a sua fixação em certas coisas; geralmente focava em animais: peixes, baleias, tubarões e dinossauros.

Além disso, demonstrava irritação e incômodo ao ouvir alguns sons e intolerância demasiada às frustrações e à quebra da rotina. Ao se fixar em uma espécie de animal, decorava o nome científico e fazia a ficha técnica dele; desenhava até onde esse animal estava situado na cadeia alimentar.

No início, achei apenas que se tratava de sua tendência natural proveniente de uma inteligência refinada, mas, nas séries iniciais da escola, os sintomas do transtorno foram se acentuando.

À época, as visitas de rotinas à pediatra se transformaram em odisséias. Ao completar três anos, iniciei a minha via crucis à procura de especialistas para diagnosticar o que ele tinha. Nenhum deles atendia pelo plano de saúde que nós temos, e, por achar que havia algo fora do normal, e que ele se comportava de maneira diferente comparado às outras crianças da mesma idade, eu custeava as consultas e exames.

Vários especialistas o subdiagnosticaram com dislexia, síndrome da deficiência postural (SDP) e TDHA. Este último diagnóstico estava inconcluso porque ele tinha menos de seis anos. Mesmo assim, iniciei o tratamento que julgava o mais correto naquele momento, com medicação, terapia e atividade física.

Em 2016 ele mudou de escola e isso alterou toda a dinâmica da sua vida. Mas foi em 2017, perto de completar 11 anos, que os sintomas se agravaram (nas situações de estresse, ele se batia e arranhava tanto que sangrava). Foi necessário repetir vários exames e veio mais um diagnóstico: síndrome de Asperger; no caso do Rafael, num grau muito leve, que não compromete o cognitivo, nem os aspectos motores, mas sim os sensoriais.

O impacto que um diagnóstico desses causa na família é muito intenso: por um lado nos impõe a uma renovação de postura no comportamento e por outro aumenta ainda mais a sensação de protegê-lo, porque, em certos momentos, percebo a sua angústia e inadaptação ao mundo e às pessoas.

Não digo, com isso, que ele terá uma vida limitada, mas, com certeza, a sua relação com o mundo é diferente, porque sei que tudo nele é muito intenso e, de uma maneira ou de outra, o deixa vulnerável, especialmente agora, que ele está entrando na pré-adolescência.

Todos da família já temos consciência de que ele se expressa através dos desenhos; geralmente são as aves de rapina o seu foco de interesse; a mais recorrente em seus traços é o falcão peregrino. Pesquisei sobre essa ave e vi que é considerada o animal mais veloz do mundo; todo o seu corpo está adaptado às performances de voo. Talvez meu filho projete a liberdade da ave em seu desejo de sentir e de viver.

Sei que a sua alma não é limitada e sempre estimularei Rafael a aprender e a valorizar a vida. Temos um longo caminho a percorrer, seja quebrando as barreiras do preconceito, seja rompendo as amarras da inadaptalidade, da limitação e da incompreensão. Meu filho é especial em todos os sentidos.

Expediente

2 de Setembro de 2017

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