Editorial


O professor e pesquisador paulista Carlos Roberto de Souza foi o primeiro a interpretar a história do cinema brasileiro como uma aventura. Em todos os cantos do Brasil, os intrépidos e corajosos cineastas e produtores brasileiros lutaram contra condições adversas para levar às telas esse espírito aventureiro. Não é fácil fazer cinema. Nem ontem, nem hoje. Em Pernambuco, essa aventura começou com as exibições do cinematógrafo Lumière em janeiro de 1900. Começamos o século 20 assistindo aos primeiros filmes. E estamos na segunda década do século 21 fazendo filmes que os compatriotas dos irmãos Lumiére estão vendo.

Dezenas de cineastas, produtores, técnicos, atores, atrizes, exibidores, distribuidores e milhões de espectadores fazem parte dessa história. São muitos os pais dessa nova geração do cinema feito Pernambuco. Eles são aventureiros de uma corrida em busca de algo mais valioso que o ouro: a memória. As naturais do início do século passado, os filmes do Ciclo do Recife e os curtas do Movimento Super8 estão vivos na produção atual. Essa aventura está apenas começando. Neste especial, tentamos resgatar histórias e imagens desses últimos 20 anos do cinema pernambucano, sem esquecer também o seu passado. Vasculhamos os arquivos do Jornal do Commercio para contar essa aventura, com auxilio de quem está fazendo e pensando o cinema Pernambuco de hoje. Boa viagem.

História


Escolher Baile Perfumado, no ano em que completa 20 anos de realização, é uma convenção para determinar um certo marco histórico do novo do cinema pernambucano. Na verdade, essa nova onda começa nos primeiros anos da década 1980, quando a geração do Movimento Super8 abandonava a bitola, ao mesmo tempo que uma nova geração de cineastas começava por ela. O ano de confrontação é 1983: Paulo Cunha e Geneton Moraes Neto, aliados a Jomard Muniz de Brito, lançam O Coração de Cinema, um curta-metragem filmado em 16mm. Os papas do Movimeno Super8, ao lado de Fernando Spencer e Amin Stepple e alguns outros, davam adeus a um certo tipo de cinema. Enquanto isso, Paulo Caldas fazia seu segundo curta-metragem em Super8: Morte no Capibaribe, um filme que já mostra que ele iria seguir adiante. O que aconteceu depois, com a realização de inúmeros curtas, em 16mm e 35mm.

That's a Lero lero

Nos anos que antecederam a Baile Perfumado surgiu uma leva de filmes realizados no Recife que já faziam crer que muita coisa ainda iria acontecer. Em 1994, o encontro de Amin Stepple e Lírio Ferreira, no inventivo e seminal That´s a Lero a Lero pode ser visto com um filme que plantou uma semente. Afinal, Baile Perfumado trazia elementos formais marcantes de That´s a Lero Lero, como também em seu fervor pela metalinguagem. Lírio Ferreira e Alexandre Figueirôa relembram um pouco dessa história, com um olhar também voltado para outros cineastas do período

Nos últimos 20 anos, o cinema pernambucano ganhou em diversidade e número de filmes produzidos. De lá para cá, os cineastas que se iniciaram nos bastidores de Baile Perfumado e os da nova geração, que deram seus primeiros passos por volta da primeira metade da década passada, convivem num clima de muito respeito. Aconteceram trocas simbólicas, principalmente quando a Rec Produtores fez Cinema, Aspirinas e Urubus e convidou um grupo de jovens para posições de assistência, entre eles Gabriel Mascaro, Daniel Aragão e Juliano Dornelles. Pouco depois, a Rec produziria o documentário KFZ-1348, da dupla Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso. A partir da instauração do Edital do Audiovisual, as oportunidades para a produção de curtas e longas surgiram organicamente. Kleber Mendonça Filho, que já se exercitava desde o começo dos anos 1990, iria se destacar com uma série de curtas matadores e uma obra em longa-metragem que ganhou merecido reconhecimento internacional, com O Som ao Redor e Aquarius. O próprio Kleber, os professores Alexandre Figueirôa e Alberto da Silva, além de Lírio, Leonardo Lacca e Juliano Dornelles contam como foi essa história.

Baile Perfumado


Viver no Recife da década de 1990 não era fácil. A estima da cidade estava em baixa. Mas a cultura estava pulsante, principalmente a música, com o movimento mangue. Desacreditado após o fim da Embrafilme – pelo ex-presidente Fernando Collor, em março de 1990 –, o cinema brasileiro ficou no limbo por mais de cinco anos. O milagre do renascimento aconteceu em 1995, quando o então presidente Itamar Franco criou o prêmio Resgate do Cinema Brasileiro. Entre esses filmes, que iniciaram o processo de retomada da produção cinematográfica nacional, Baile Perfumado é um dos mais lembrados 20 anos depois de feito.

Até hoje, Baile Perfumado é visto como uma universidade de cinema para toda uma geração. “Baile Perfumado iniciou a aventura do novo cinema pernambucano levando em conta que havia uma probabilidade muito grande desse cinema não existir. Nosso lugar era muito pobre para essa aventura acontecer”, comenta Paulo Caldas

Foi uma surpresa para todos ver na tela um sertão verdejante e um Lampião (vivido pelo ator paraibano Luiz Cláudio Vasconcelos) sofisticado, amigo do uísque, dos perfumes e do cinema. Além de que, ao contar a história do fotógrafo libanês Abraão Benjamim (Duda Mamberti) a partir dos fragmentos das únicas filmagens verdadeiras de Lampião, Paulo, Lírio e Hilton Lacerda, que escreveram juntos o roteiro do filme, tiveram uma sacada brilhante.

Neste vídeo, o cineasta Lírio Ferreira e o pesquisador e critico de cinema Alexandre Figueirôa relembram o impacto de Baile Perfumado e sua importância histórica.

Aquarius


A história do cinema brasileiro vai registrar nos seus anais que 2016 foi o ano de Aquarius, do pernambucano Kleber Mendonça Filho. Desde a première mundial na Competição Oficial do Festival de Cannes, em maio passado, que o filme coloca o Brasil em discussão. A atitude política de Kleber, Sonia Braga e parte de sua equipe, que se postaram frente ao tapete vermelho do Grand Palais e levantaram cartazes contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, chamou a atenção do mundo.

No Brasil, a explosão de Aquarius deu-se, primeiro, em suas ruidosas sessões especiais antes da estreia, no último dia primeiro. Até agora, em pouco mais de três semanas de exibição, já foi visto por cerca de 250 mil espectadores, um número estupendo sob todos os aspectos.

Até o fato de haver sido preterido pela comissão do Ministério da Cultura, que o deixou de fora da óbvia escolha para representar o Brasil no Oscar de Melhor Estrangeiro 2017 – como já fizera em 2013, com O Som ao Redor, o filme anterior do cineasta – só mostra o quanto Aquarius reflete o momento político em que vivemos.

Neste vídeo, Kleber, a produtora Emilie Lesclaux, o diretor de arte Juliano Dornelles e os pesquisadores e professores Alexandre Figueirôa e Alberto da Silva falam sobre o cinema do diretor pernambucano.

Memórias


Em toda sua história o cinema pernambucano teve uma memória viva. O Ciclo do Recife, que produziu mais de uma dezena de longas metragens entre as décadas de 1920 e 1930, ainda hoje reverbera nas mentes dos cineastas locais. Enquanto pôde, Jota Soares, o diretor e ator de A Filha do Advogado, foi o cronista do Ciclo nas páginas dos jornais recifenses. Nos anos 1980, Fernando Spencer realizou uma série de documentários com Jota Soares, Almery Steves e Ary Severo, dando nova vida à memória dos filmes do Ciclo do Recife. Em 1990, com Amin Stepple, no curta Ciclo – Uma História de Amor em 16 Quadros por Segundo, o legado dos pioneiros dos cinema silencioso pernambucano ganhou seu melhor inventário.

Em 1992, Kleber Mendonça Filho e a jornalista Elissama Cantalice foram atrás da memória física dos salas de cinema do Recife no projeto Casa de Cinema. Essa preocupação sempre esteve presente na vida e no cinema de Kleber, como atestam passagens em O Som ao Redor e Aquarius.

Nesta galeria de imagens, pertencentes ao arquivo do Jornal do Commecio, você pode ver cenas dos antigos cinemas do Recife que já não existem mais, com exceção do majestoso Cinema São Luiz.

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