Paisagens e vidas são transformadas por turbinas e painéis

É como se um diretor de Hollywood tivesse escolhido um romance de Rachel de Queiroz para produzir uma ficção científica. Da paisagem de chão ocre pontuado por arbustos contorcidos pela falta d’água, brotam moinhos brancos feitos em aço e fibra de vidro com mais de 80 metros de altura. Em outra cena, a terra é coberta por placas espelhadas que, de tão extensas, parecem açudes sob o sol. O encontro inusitado de elementos modernos com a realidade do Nordeste não mudou só paisagens. Transformou vidas. Através da renda extra ou do contato com as tecnologias, a expansão das fontes renováveis levou novos parâmetros a locais até então isolados e com poucas perspectivas de desenvolvimento.

Maria Auxiliadora Nunes, Cecê, 46 anos, é parte desse ambiente, que há três anos ganha novos contornos e gera oportunidades. Nascida na aldeia indígena Brejo dos Padres, em Tacaratu, no Sertão do Médio São Francisco pernambucano, até 2015, ela acreditava que passaria a vida da mesma forma como iniciou: trabalhando na roça. “Nunca tinha ouvido falar nesse negócio de energia eólica. Aí, começou a circular na cidade que ia chegar um parque. Depois, foi gente pra lá e pra cá pra construir, e eu comecei a trabalhar no restaurante da obra”, lembra. Na época, quase 400 pessoas da região foram contratadas para a implantação do projeto da Enel Green Power, grupo italiano que investiu cerca de US$ 18 milhões no Complexo Híbrido Fontes – o primeiro do tipo no País. Depois de erguidas as torres, Cecê continuou na empresa como auxiliar de serviços gerais, trabalhando com carteira assinada ao lado do marido e de um dos três filhos.

O contexto político-econômico em que os projetos começaram a florescer os torna ainda mais preciosos para a região. “Em momentos delicados da economia, investimentos em infraestrutura, que geralmente vêm do governo, estão mais difíceis. E esses projetos são privados. É dinheiro privado ajudando a levar renda para o interior”, observa a economista sócia da consultoria Ceplan Tania Bacelar. A renda à qual Tania se refere vai além dos postos de trabalho gerados diretamente, como no caso da família tacaratuense.

Arrendamentos permitem que agricultura e geração de energia convivam lado a lado

A operação dos parques desencadeia um processo em que os pequenos municípios deixam de depender apenas de repasses, cargos públicos e benefícios sociais. “Quando chegamos aos locais, o primeiro impacto é a regularização fundiária. Como muitas vezes são áreas mais inóspitas, é comum não haver qualquer documentação sobre os terrenos. Assim, as pessoas vivem vulneráveis”, destaca Lucas Araripe, diretor da Casa do Ventos. A empresa brasileira é responsável por cerca de 30% dos projetos em operação no País. Após a etapa burocrática de registro das terras, a construção traz a necessidade de abrir acessos para a chegada dos equipamentos, transportados de maneira fracionada em caminhões de mais de 30 metros de comprimento. Com tudo pronto, ficam os novos caminhos e a renda do aluguel dos quintais onde os equipamentos produzem energia. O valor do arrendamento varia de acordo com a quantidade de turbinas e a região. Alguns contratos condicionam a remuneração a um percentual da produção do aerogerador, outros estipulam preços fixos – de R$ 1 mil no Sertão do Piauí a mais R$ 2 mil no Litoral do Rio Grande do Norte.

Atividades como agricultura e pecuária podem conviver com as máquinas, que trazem novas preocupações. “A cidade aqui é perigosa. Tem violência, assalto às casas. Ter uma torre deixa a gente preocupado, todo mundo vê. Passei a ter receio de atrair bandido”, diz o agricultor do Sertão do Araripe João José da Costa, 60 anos, que preferiu não posar para foto por medo.

Bem posicionado em relação à linha do Equador, o Nordeste tem incidência solar ideal

Há novas implicações também para as gestões municipais. A cidade de Ribeira do Piauí, por exemplo, tem apenas 4 mil habitantes e abriga um investimento de US$ 300 milhões, a usina solar Nova Olinda – a maior da América do Sul, com quase um milhão de painéis fotovoltaicos. A operação do parque pela Enel gera ISS, renda direta para a prefeitura, que precisa ter projetos para aproveitá-la da melhor forma. “É preciso políticas públicas estabelecidas pelos governos estaduais através do levantamento das carências e apoio aos municípios. Como muitos parques são construídos cruzando mais de uma cidade, também é possível a criação de consórcios municipais para o trabalho em conjunto pela região”, sugere o consultor de licenciamento social e ambiental Ney Maron.

Investimentos privados para a comunidade vêm de compensações exigidas para o licenciamento. Não são permitidas casas em um raio de 150 metros de cada torre. Assim, muitos moradores são indenizados para a construção de novas moradias a distâncias seguras, enquanto impactos à fauna e à flora precisam ser reparados. Nos projetos financiados via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), os contratos podem conter exigências de investimentos socioambientais adicionais.

Investimentos são mais bem aproveitados em áreas onde já havia estrutura, como no Litoral

Para além das compensações obrigatórias, nos parques Rio do Fogo e Arizona, ambos no Rio Grande do Norte, a Neoenergia leva a geração renovável para as salas de aula de escolas públicas das proximidades. Da mesma forma, para retribuir o trabalho dos ventos em São Miguel do Gostoso, no Litoral potiguar, as empresas que operam os nove parques lá instalados (GE Energia, Voltalia, CPFL e Casa dos Ventos) proporcionaram também a reforma do posto de saúde local, iniciativas de apoio ao artesanato local e de proteção às tartarugas marinhas.

Parte dos governos estaduais e do Legislativo Federal, no entanto, defende que essas ações socioambientais não devem ser opcionais. Nessa linha, o Congresso Nacional analisa uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que determina a cobrança de royalties sobre produção eólica e solar. “Esse debate é fora de contexto. O conceito de royalties é baseado em recursos finitos e de impacto irreversível. Até onde se sabe, vento é um recurso infinito, ele não é destruído depois que passa pelas pás de uma turbina. O que faria algum sentido seria o estabelecimento de investimentos nas regiões, o que o setor já vem fazendo”, pondera a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Élbia Gannoum.

Para o consultor Ney Maron, é importante que as empresas mantenham uma boa relação com a comunidade onde os projetos serão instalados. “O empreendedor, independentemente do que é exigido, deve criar uma conexão com a localidade. São áreas tão carentes, onde não havia nenhuma perspectiva. Mas Deus soprou ali com vento. Então, é quase uma obrigação que se criem iniciativas socioambientais”, destaca.

"Nunca na minha vida pensei em ver um negócio desse tamanho na minha roça"Luzia de Sousa, agricultora

Torre eólica é atração no quintal de Luzia

A casa que tanto orgulha Luzia Pedrina de Sousa, 64 anos, tem nas paredes o verde que falta à paisagem. Na zona rural de Caldeirão Grande do Piauí, vizinha à cidade de Marcolândia, o pedaço de terra perdido entre estradas sinuosas de terra batida e cercas desconjuntadas foi o primeiro a ser indenizado para a implantação do projeto Ventos do Araripe. A agricultora analfabeta nem imaginava, mas sobre o teto antigo soprava o vento ideal para a produção de energia: a torre foi levantada; a casa antiga, derrubada; e outro lar, construído a poucos metros, em uma nova realidade distribuída em quatro quartos, dois banheiros, sala e cozinha.

“Nunca na minha vida eu pensei em ver um negócio desse tamanho na minha roça. Quem nunca veio aqui fica tudo doido quando vê esses geradores, corre pra tirar foto. Parece que não vão se acostumar. Eu me acostumei foi rápido”, diz, cobrindo o rosto com as mãos enquanto sorri.

Sobre a Chapada do Araripe, as quatro etapas do projeto eólico ergueram 156 máquinas. A agricultora teve sorte: chegaram três geradores no lado de dentro de suas cercas, onde antes só havia plantação de mandioca, feijão e milho. Por máquina, ela recebe pouco mais de R$ 1 mil. Antes, sua renda se resumia ao que se colhia e à pensão que recebe do INSS desde a morte do marido, há nove anos.

A vida melhorou não só para ela, mas também para seis dos sete filhos que dependem do pedaço de terra, além dos nove netos. A quantia é repartida para todos, que agora podem diminuir as horas no trabalho pesado e desfrutar de luxos como moto, televisão e celular.

Na cidade de 5.600 habitantes e a 435 quilômetros de Teresina, ainda são poucas as oportunidades para as gerações que sucedem a de Luzia. Praticamente não há opções de trabalho além da enxada. Lá, mais de 80% da receita vem de repasses do Estado e da União. Outros cerca de 17% são fruto de receita tributária, sendo 94,55% dela originária de ISS.

A demora para perceber um novo futuro a ser construído para os jovens do município a partir dos recursos gerados, no entanto, não abala o otimismo e a humildade de quem vivia no isolamento da pobreza de uma região que até então era vista como infértil. “Só em ter um dinheiro para a família se manter já é um ganho. Não tenho desespero por riqueza nem dinheiro muito. O negócio que eu quero é passar a vida tranquila, sem precisar estar pedindo dinheiro nem nada na casa de ninguém. Meu desejo é só esse e que Deus me dê saúde”, diz com convicção.

Tauá (CE) entra para a história com usina fotovoltaica

Quando Jorge da Silva, 32 anos, saiu de Tauá, no Sertão dos Inhamuns, no Ceará, para fazer um curso de segurança em Fortaleza (a 340 quilômetros de distância), sua esposa, a dona de casa Edinalva, estava grávida da caçula Maria Eduarda. “Através de uns amigos, fiquei sabendo que ia vir um parque solar para Tauá. Como eu não sabia mexer com eletricidade e eles iam precisar de gente para fazer a segurança do local, pensei que o curso era uma oportunidade de conseguir um emprego e melhorar de vida”, explica.

Nascido em Tauá, que tem quase 60 mil habitantes, Jorge trabalhava como instalador hidráulico, e a renda no fim do mês era incerta para uma família em crescimento. “Eu não queria sair da minha cidade, então essa foi a oportunidade ideal.”

Na área rural de Tauá, instalou-se o parque que ajudou a alçar a cidade a uma posição de destaque na história da geração renovável no Brasil. A Usina Fotovoltaica de Tauá, operada pela Eneva, foi a primeira de porte comercial do País.

O parque começou a operar em 2011, com capacidade instalada para a geração de 1 MW em um terreno particular de 12 mil metros quadrados. A novidade atraiu novos negócios ao município, incluindo a construção de dois hotéis e novos restaurantes para atender o fluxo de fornecedores e pesquisadores gerado pela chegada do parque.

As placas também chamaram a atenção dos moradores da cidade, curiosidade que foi estimulada pela aproximação da empresa com as escolas do município – é mantida uma programação de visitas ao parque, com aulas sobre a geração solar. Uma das crianças a visitar o parque, não só como aluna, mas também acompanhada do pai, é Maria Eduarda, o exemplo de mudança de perspectivas entre gerações. “Ela ficava me perguntando como era a produção da energia, como funcionava o sistema. Hoje, ela diz que quer estudar para ser engenheira elétrica”, conta Jorge, orgulhoso.

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