Em cada telhado uma pequena usina solar

Longe do campo, perto das capitais, se ainda é Nordeste, o sol queima com intensidade. Onde houver telhado ou laje, é possível usar luz para produzir eletricidade. Enquanto no interior grandes parques fotovoltaicos começam a se espalhar no compasso de novos leilões, os centros urbanos são o principal alvo da geração distribuída. De instalação simples – se comparada à infraestrutura das demais fontes –, essa forma de gerar energia permite, ainda, o desenvolvimento de diferentes tipos de negócios. De acordo com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o mercado já movimenta R$ 2,2 bilhões no Brasil. E é no sol do Nordeste que a maior parte dele está de olho.

Para o diretor regional da consultoria global KPMG, Paulo Siqueira, a inovação é a característica que mais irá se destacar entre as empresas de geração distribuída daqui para frente. “Ela quebra a lógica dos grandes parques geradores, das linhas de transmissão e distribuição. Cria uma desintermediação. O consumidor passa a ter um novo papel. O que vem aí é inovador não só do ponto de vista de produção, mas de mudança de toda a cadeia”, enfatiza o consultor. Siqueira inclui a energia na lista de setores da economia que estão passando por transformações disruptivas (em que há quebra de paradigmas, e as relação de consumo são alteradas).

Geração distribuída, que atende diretamente casas, empresas ou indústrias, permite diversificação no modelo de negócios (Foto: Divulgação)

Fruto desse processo, a pernambucana Insole nasceu em 2013 a partir da praticidade de instalação dos sistemas distribuídos e foi embarcada no Porto Digital. Hoje, conta com 150 funcionários. “Fiquei curioso para entender o funcionamento das placas e instalei um sistema na minha própria casa. A partir daí, surgiu o interesse de uma empresa de São Paulo em contratar meus serviços para montar um sistema no Rio Grande do Norte. Depois disso, não paramos mais”, conta o diretor-presidente da marca, Ananias Gomes, que antes trabalhava para uma companhia do segmento energético.

Apesar das boas projeções, a crise econômica que se instalou exigiu dos empreendedores criatividade para atrair novos clientes. No caso da Insole, que atende de residências a indústrias, a saída foi adaptar a forma de financiamento: o cliente pode parcelar o valor total com base no preço mensal da conta de energia. “No fim, a sensação é a de que a pessoa substituiu uma conta pela outra”, explica.

Entre as empresas que focam em demandas comerciais e industriais, a também pernambucana Satrix foi uma das pioneiras no segmento, criada em 2012. “Esse mercado cresceu 176% em quantidade de instalações no ano passado e cerca de 230% em potência instalada. As perspectivas são muito positivas”, destaca o diretor da marca, Thiago Diniz. Hoje, são mais de 250 projetos desenvolvidos.

Ananias, da Insole, inovou na forma de financiamento para sistemas residenciais

Assim como nos nichos de atuação, os modelos de negócios também têm sido diversificados. Há desde redes de franquia, como a Blue Sol (que realiza projetos e treinamentos), até fazendas solares onde a geração acontece em uma área afastada do local de consumo e o cliente recebe crédito pelo que é produzido pela placa que adquiriu. A novidade é o comércio online, com o Portal Solar, que reúne diferentes empresas do segmento, facilitando a busca e contratação por parte do consumidor. A empresa espera fechar R$ 20 milhões em negócios até o fim deste ano.

Prova da força desse movimento de transformação é a participação de empresas que nasceram das fontes mais tradicionais de energia. “Com o avanço tecnológico, a geração solar se tornou mais competitiva. E foi isso que fez a Chesf – que tem a hidrelétrica até no seu nome – partir para a nova era solar”, comenta o diretor de operações da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, João Franklin Neto. Ele se refere à criação do Centro de Referência em Energia Solar de Petrolina (Cresp), inaugurado este ano, resultado de um investimento de quase R$ 210 milhões. A ideia é que o espaço agregue empresas e universidades para o desenvolvimento de novas tecnologias na área.

Enquanto ambientes como o Cresp se estruturam, os consumidores aproveitam as opções que já existem no mercado para os mais diferentes perfis. “Já tenho um sistema na minha casa há dois anos, e cada vez mais tenho certeza de que fiz um bom investimento. Não só pela economia na conta, mas também pela valorização do imóvel”, comenta o executivo Marcelo Pinheiro.

Instalação de painéis solares cria demanda na educação

Células de silício com cargas diferenciadas e sensíveis aos fótons.” Instalar placas fotovoltaicas é mais simples que compreender e aplicar o conceito da conversão da luz do sol em eletricidade. Que o diga o eletricista Marlos Alves, 30 anos, que sentiu a necessidade de aprender a teoria para facilitar a execução do seu trabalho. Tornou-se aluno da unidade do Senai de Areias, Zona Oeste do Recife, que oferece há três anos o curso de capacitação em Sistema Solar Fotovoltaico, Conceitos e Aplicações.

A ementa é voltada a profissionais que já trabalham com instalações elétricas e até com placas solares, mas não possuem formação direcionada ou teórica na área. “Muitas vezes, esses profissionais aprendiam a mexer nos sistemas na prática, mas não compreendiam conceitualmente o seu funcionamento. Percebemos que, quando queriam acessar esse conhecimento, precisavam ir para Estados vizinhos. Com a expansão desse mercado, havia a lacuna da boa formação desses profissionais, que, aos poucos, estamos preenchendo”, afirma o diretor do Senai de Areias, Gilberto Morais. A oferta de formação na área confirma a perspectiva de crescimento ainda maior desse mercado, que demandará cada vez mais profissionais capacitados.

Senai oferece curso de instalação de painéis fotovoltaicos desde 2015

Como resultado do curso, somado à experiência prática na área, Marlos recebeu uma proposta melhor de emprego e hoje trabalha como técnico em Pernambuco de uma rede de franquias de geração de energia solar. “O curso abriu-me portas”, confirma o eletricista.

Além da capacitação – com duração de 60 horas e custo de R$ 445 –, o Senai oferece certificação para quem já trabalha no setor. “Diante da necessidade de atender à demanda das empresas, criamos uma solução mais rápida, a certificação, para reconhecer quem já está atuando na área”, explica o diretor Gilberto Morais.

Para o próximo ano, a unidade de Areias dará início à primeira turma do curso técnico de um ano e meio em Sistemas de Energias Renováveis, com foco em geração fotovoltaica e também eólica, com data de início ainda não definida. A formação de nível técnico já é oferecida pelo Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) desde 2015, com duração de dois anos e também voltada para as fontes eólica e solar.

Também em 2019, o Centro Universitário Sebrae de Santo Amaro, na Área Central do Recife, deve começar a oferecer uma pós-graduação lato sensu em Sistemas de Energia Solar Fotovoltaica. Especialização, mestrado e doutorado na área já são realizados pela Universidade de Pernambuco (UPE) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Brasil chegou ao ranking dos 30 melhores países do mundo em capacidade de geração solarEY

Potencial do Brasil é destaque global

Mesmo com uma história muito recente no universo das renováveis, o potencial do Brasil atrai a atenção do mundo. Além das condições ideais de sol e vento, o País conta com outro elemento precioso no ramo: extensão territorial. Referência na geração eólica, a Dinamarca, por exemplo, chega a ter mais de 42% de sua energia proveniente dessa fonte. Mas, como o país tem uma área de apenas 43 mil quilômetros quadrados – um pouco menor que o Estado da Paraíba –, a solução foi partir para o mar, com torres offshore, cujo custo pode sofrer um incremento de até 40%.

O Brasil é citado, junto ao México e à Índia, como aposta dos investimentos globais em geração sustentável das próximas décadas no relatório Global Energy Transformation – A Roadmap to 2050, produzido pela Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena). O mesmo documento frisa, ainda, a necessidade de que as nações emergentes apostem na formação de cadeias produtivas locais para sustentar o desenvolvimento.

Energias renováveis pelo mundo

Alguns dos países que mais investem:

“Há o aspecto de geração de emprego a partir da formação da cadeia produtiva, que é importantíssimo. As renováveis serão uma grande oportunidade de crescimento para o Nordeste nos próximos anos. Mas nós temos que ter a competência de usar esse desenvolvimento da maneira mais eficiente”, reflete o vice-presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), Anísio Coelho. Nesse sentido, Joaquim Rolim, seu colega de federação do Estado vizinho, o Ceará, destaca a importância da atuação das entidades. “É preciso que o investidor perceba que há um ambiente favorável, sempre atualizado e melhorado através de uma governança corporativa bem estabelecida”, defende o coordenador da Fiec.

Sem deixar de lado os desafios impostos pela formação da cadeia de transmissão da energia que será produzida, o relatório global Renewable Energy Country Attractiveness Index (Recai), produzido pela EY, destaca que o Brasil chegou ao ranking dos 30 melhores países do mundo em capacidade de geração solar e bom destino de investimentos.

Entrevista: Everaldo Feitosa

Biogás e biomassa como fonte de energia são os próximos grandes potenciais do BrasilEmpresa de Pesquisa Energética (EPE)

Próxima aposta da energia está no lixo

Para além das fontes de geração de menor impacto para o meio ambiente, o Nordeste começa a se destacar no aproveitamento de resíduos para a produção de energia elétrica. Em abril deste ano, o município de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, começou a produzir biogás a partir das três mil toneladas de lixo descartados diariamente no aterro sanitário da cidade. Batizada de GNR Fortaleza (Gás Natural Renovável Fortaleza), a planta é um investimento de R$ 100 milhões, capaz de produzir até 150 mil m³ do combustível por dia. O uso de biomassa e biogás para a produção de energia é apontado como alternativa de grande potencial para o futuro pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia.

A implantação de indústrias capazes de transformar o gás tóxico produzido a partir da decomposição de resíduos é uma das soluções economicamente viáveis propostas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, estabelecida em 2010. De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente, até 20% do total de metano (um dos gases produzidos a partir dos resíduos descartados) presente no ambiente é proveniente de aterros sanitários. Na GNR Fortaleza, tanto o metano quanto o gás carbônico e outros fluidos são tratados e transformados no biogás compatível com o gás natural de origem fóssil.

GNR Fortaleza é exemplo de investimento de grande porte na produção de biogás - Foto: Napoleão Barbosa Neto

“Além do fato de se desperdiçar muita matéria-prima, o não aproveitamento dos resíduos ainda deixa mais evidente o custo associado à coleta de lixo. Quando se coloca esse material em um aterro sanitário para se decompor ao longo dos anos, esse custo ganha uma outra dimensão”, reflete o diretor-presidente da Marquise Ambiental (detentora da usina), Hugo Nery.

De acordo com os estudos realizados pela Ecometano, empresa responsável por desenvolver a tecnologia usada na Grande Fortaleza, até o produto da queima do biogás lá produzido é 25% menos danoso à atmosfera que a liberação direta dos fluidos de aterros sanitários. A planta de Fortaleza é capaz de produzir gás para a geração elétrica através da movimentação de usinas térmicas ou da injeção direta no gasoduto da rede estadual. Para isso, foi necessária a certificação de qualidade pela Agência Nacional de Petróleo (ANP).

CANA E EUCALIPTO

A história de Pernambuco está intrinsecamente ligada à produção de cana-de-açúcar. Desde essas origens, mesmo ainda sem a motivação da responsabilidade ambiental, o aproveitamento do bagaço da cana era uma realidade. “O bagaço é um combustível desde a colonização. Hoje, a geração de energia a partir dele é também parte do nosso negócio”, conta o empresário Jorge Petribu. Da usina que leva o sobrenome da família, o que se descarta na moenda é usado para gerar eletricidade na termelétrica – que hoje representa até 15% dos negócios da Petribu.

O sucesso foi tão grande que, diante da concorrência com a indústria sucroalcooleira do Sudeste e Centro-Oeste, o empresário resolveu apostar na plantação de eucalipto nas áreas de encosta, onde a produção de cana é mais complicada e, por isso, mais cara. O combustível produzido a partir da planta recém-chegada na economia pernambucana tem, ainda, a vantagem de não depender de fase de colheita e pode ser usado sempre que a demanda por termelétricas exigir. “Há, ainda, a vantagem da geração de empregos. Para cada mil hectares de plantação, conseguimos empregar cerca de 200 pessoas”, destaca Petribu. Através desse segmento, a geração de energia pode chegar a 30% dos negócios da empresa.

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