A violência que adoece a população

Lígia voltava da faculdade para casa quando foi assaltada no ônibus por dois homens armados. Elaine teve uma arma apontada para a cabeça dentro de um salão de beleza. Hosana viu a vida virar de cabeça para baixo após os casos de assédio nos coletivos do Estado. Para as três mulheres, os eventos traumáticos, frequentes em Pernambuco, deixaram marcas difíceis de apagar. Mais do que pertences, a violência lhes tirou a tranquilidade e desencadeou um transtorno que faz parte da realidade de um número cada vez maior de brasileiros: a síndrome do pânico.

“As crises começam como o princípio de um ataque cardíaco. Em seguida, vêm a falta de ar e a ânsia de vômito. Então, você tem a certeza de que vai morrer”, detalha Lígia Sarmento, 23 anos. A estudante convive com os sintomas desde 2013, quando o ônibus da linha CDU/ Boa Viagem, que a levava diariamente da faculdade para casa, foi alvo de assaltantes.
“Eu já sofria de depressão e ansiedade, mas comecei a sentir medo de sair de casa e de estar em lugares públicos a partir do assalto. Quando passei a não conseguir deixar o apartamento de jeito nenhum, soube que precisava de ajuda.” Em fevereiro deste ano, as crises se tornaram frequentes. “Passei um mês e meio sem conseguir ir à faculdade, porque tinha crises praticamente todos os dias. Minha mãe tirou licença para cuidar de mim”, lembra. Entre remédios, consultas e transporte – já que não consegue utilizar ônibus – Lígia chega a desembolsar mais de R$ 600 por mês. “Deixo de fazer muitas coisas que gostaria, porque tenho essa despesa.”

É um problema de saúde pública. As pessoas estão adoecendo por causa da violência e o governo não dá o suporte adequado. Não somos enxergados”, Lígia Sarmento

A violência também deixou marcas em Elaine Carla Ribeiro, 37. Em dezembro de 2015, a microempresária se arrumava para uma festa de fim de ano em um salão de beleza em Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife, quando uma criança entrou no estabelecimento, perguntando o preço do corte de cabelo. Em seguida, o menino retornou, dessa vez acompanhado por um homem armado. A arma foi apontada para a cabeça de Elaine durante cerca de cinco minutos, enquanto o suspeito fazia ameaças. “Nunca tive problemas psicológicos, mas, a partir desse dia, tudo mudou. Comecei a ter medo de sair à noite, usar transporte público e frequentar locais fechados. Cheguei a trancar a faculdade por causa disso. Então, busquei ajuda e recebi o diagnóstico.”

De acordo com relatório divulgado em fevereiro de 2017 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem a maior taxa de transtorno de ansiedade (que inclui a síndrome do pânico) do mundo. Ao todo, 18,6 milhões de pessoas vivem com o distúrbio, número que representa 9,3% dos brasileiros.
“A síndrome é apenas uma das faces do transtorno de ansiedade. As crises são caracterizadas por sintomas físicos, como tremores, sudorese e taquicardia e podem durar de cinco a 20 minutos. O gatilho varia de paciente para paciente, mas, muitas vezes, o trauma causado por algum tipo de violência pode desencadear os sintomas”, explica o psiquiatra Pedro Russo, da Associação Amigos dos Pacientes de Pânico em Pernambuco (Ampare-PE).

Segundo o médico, a situação é ainda mais preocupante entre as mulheres. “Elas têm duas vezes mais ataques de pânico do que os homens. Isso pode estar relacionado a agressões e abusos sexuais sofridos.” Ainda de acordo com o psiquiatra, as crises são mais comuns em mulheres no início da vida adulta.
É o caso da estudante Hosana Farias, 22. Os relatos de abusos sofridos por mulheres no transporte público serviram como gatilho para a síndrome do pânico, no início do ano. “Tinha histórico de depressão, mas desenvolvi o pânico depois das notícias de assédio. Passei, inclusive, a me vestir com roupas mais largas, que mostram menos o corpo. Nunca estive em uma situação de abuso, mas sei que não tenho psicológico para superar, caso aconteça comigo.”

A boa notícia, segundo Pedro Russo, é que a doença tem cura. Para isso, é preciso estar atento aos sintomas e procurar ajuda profissional. “Em alguns casos, com psicoterapia e o uso de medicamentos, o possível curar o transtorno dentro de poucos meses.”

REDE PÚBLICA

De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES), Pernambuco conta com apenas 129 leitos de saúde mental em unidades gerais espalhadas pelo Estado. Único hospital de referência, o Ulysses Pernambucano oferece outras 125 vagas para pacientes com transtornos psicológicos. Além dos leitos, a rede pública de saúde também dispõe de 139 Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

Para Lígia, que chegou a buscar atendimento no SUS, o Estado que adoece não dá conta de seus doentes. “É difícil marcar uma consulta, porque os hospitais estão sempre lotados. Quem tem pânico precisa de acompanhamento uma ou duas vezes na semana. Se não existir essa frequência, não há assistência de qualidade. Por isso, quem depende do SUS muitas vezes desiste de procurar ajuda.”

QUANDO É HORA DE PROCURAR AJUDA?

Sintomas psicológicos e físicos:

Medo de fazer coisas simples do dia a dia

Inquietação

Pensamentos negativos

Taquicardia

Falta de ar

Suor excessivo

Tensão muscular

Tremedeira

Tontura

Visão distorcida

Expediente

12 de Novembro de 2017

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