Juventude abraça a tradição

Quando os mestres chegavam no terreiro, o menino Anderson Miguel subia num banquinho e ficava respondendo os versos improvisados pelos poetas. Tinha 8 anos na época. Morador do Engenho Cumbe, na zona rural de Nazaré da Mata, cresceu dentro do Cambinda Brasileira, aprendendo sobre a tradição poética do baque solto. Aos 17 anos virou o mestre mais jovem do maracatu rural, no Cambinda, e inaugurou a chegada da nova geração ao posto. A história de Anderson reflete o movimento de renovação no Cumbe, com jovens e crianças se incorporando ao folguedo.

O maracatu, que hoje completa 100 anos de história, tem na sua nação integrantes como o pequeno caboclo Pietro Juan, de 5 anos, e o veterano Zé Pequeno, de 77. A brincadeira se aprende observando os mais velhos nos ensaios, nas sambadas e no Carnaval. “Fico impressionado com meu filho, porque ele dança como se brincasse maracatu há muitos anos. E meu enteado Vitor, de 11 anos, também está no mesmo caminho. Esses meninos serão o futuro do brinquedo”, diz o pai de Pietro e mestre caboclo do Cambinda, Luciano Santos, 33. Conhecido como Nando, ele conta que vestiu sua primeira arrumação quando tinha 15 anos e lá se vão 18 carnavais.

Anderson inaugurou a presença de mestres jovens no folguedo

“O Cambinda tem uma tradição de atrair adolescentes e crianças graças ao vínculo entre as pessoas e à coesão do grupo. O foco no sagrado também é um compromisso dentro da brincadeira. Os mais jovens abraçam a tradição porque existe um sentimento de identidade, valorização e dignidade do grupo, que luta pela permanência”, destaca a jornalista e pesquisadora Maria Alice Amorim, que coordenou o dossiê do baque solto para defender a candidatura do maracatu como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Além dos laços de afinidade, também é forte a hereditariedade dentro do grupo. “A impressão que se tem é que todo mundo é parente”, diz o presidente do Cambinda, Elex Miguel. A família de Zé Pequeno, caboclo de lança mais velho do Cambinda, é um exemplo dessa complexa árvore genealógica. O caboclo de lança Josenildo Oliveira, 17, é neto dele pela parte de sua filha Marilene Irineu e também é neto da Dama do Paço, Lourdes Oliveira. “Sou caboclo do Cambinda há 37 anos e a família brinca junta”, diz Zé Pequeno, prometendo se aposentar depois da festa do centenário.

Apesar da participação dos jovens no brinquedo, manter esse interesse entre as gerações futuras não deixa de ser um desafio. “A juventude se interessa pelo maracatu, mas também está de olho em outras coisas. Tem muita tecnologia e novidades acontecendo ao mesmo tempo. O Cambinda está completando 100 anos e tem uma história e uma bagagem cultural muito grandes, mas é preciso que a tradição continue sendo passada de geração a geração. O maracatu já passou pelas mãos de Severino Lotero, de João Padre, de Zé de Carro, que deu a vida por ele, e é preciso que surjam outras lideranças para dar continuidade”, defende Mestre Anderson, 22.

Renovação na fantasia e no comportamento

A renovação no maracatu também passa por mudanças culturais, com transformação nas fantasias e na maneira de organizar e conduzir a brincadeira. Nos anos 1960, a pesquisadora norte-americana Katarina Real pesquisou o baque solto e identificou que naquela época as golas dos caboclos de lança eram enfeitadas com espelhos e ajoufre. Depois passaram a ser confeccionadas com canutilho e vidrilho, chegando a pesar o dobro das atuais bordadas com lantejoulas e miçangas. Hoje a inovação é a lantejoula holográfica, que vai enfeitar a gola do mestre caboclo do Cambinda no Carnaval deste ano.

Os chapéus dos caboclos já foram feitos de sacola plástica, de papel celofane e agora são confeccionados com tiras reluzentes, chamadas de chicotes. As roupas dos mestres do apito, das baianas e da corte também foram mudando com o tempo.

“A cultura é um processo dinâmico. Se não existir flexibilidade, adaptações e diálogo com o hoje ela deixa de existir e passa ser elemento de museu, um objeto arqueológico. A tradição não pode ficar apegada, presa, congelada. É preciso dialogar com o contemporâneo”, defende Maria Alice.

Fotos: Arnaldo Carvalho / Drone JC Imagem.

“Festa dos sonhos” no centenário do Cambinda

Dezesseis nações de maracatu rural vão riscar o terreiro do Engenho Cumbe, na zona rural de Nazaré da Mata, nos próximos dias 13 e 14. Baque solto em festa para celebrar os 100 anos do Cambinda Brasileira, grupo mais antigo em atividade contínua no País. A organização do evento avisa que será preciso pique de folgazão para sustentar as 25 horas de festa. No sábado, a comemoração começa às 10h, se estende por todo o dia e atravessa a madrugada, acabando às 5h. No domingo, a pisada recomeça às 9h e vai até as 17h. A ideia é fazer um encontro da cultura popular, com grupos de coco, ciranda, boi e cavalo marinho, levantando a poeira vermelha do Cumbe.

A partir das 10h começa a programação de oficinas de bordado de golas, confecção de chapéus e grafite em camisetas. Ao longo do dia serão realizadas cinco oficinas, cada uma com 15 vagas. Quem se interessar pode fazer as inscrições na hora. No local também vai funcionar uma feira de artesanato com 115 expositores, organizada pelo Instituto dos Artesãos de Nazaré da Mata.

No sábado, maracatus convidados se apresentam no terreiro da brincadeira e, no domingo, será a vez de grupos comandados por mestres do apito que já passaram pelo Cambinda Brasileira. Nessa lista estão Estrela Dourada, com Barachinha; Carneiro Manso, com Antônio Paulo Sobrinho; Leão Mimoso, com Antônio Carlos; Leão Misterioso, com Davi e Leãozinho, com Zé Flor. O Cambinda vai fechar o primeiro dia de apresentações e à meia-noite acontece o corte do bolo. A programação de shows terá Grupo Bongar, Ticuqueiros, Ciranda Raiz da Mata Norte e outras atrações.

“Será a festa dos sonhos. Um bolo gigante de 150 quilos vai contar um pouco da história do maracatu, homenageando in memoriam pessoas que passaram por ele, como os donos João Padre e Dona Joaninha, o mestre caboclo e presidente Zé de Carro e o caboclo Zé de Rosa”, adianta o presidente do Cambinda Elex Miguel.
Amanhã, a o centenário do Cambinda também será comemorado com uma missa, às 19h, na Catedral Nossa Senhora da Conceição, em Nazaré da Mata. Uma demonstração de que o baque solto reúne arte, tradição e fé.

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