Maracatu é brinquedo mágico, misterioso

Era um começo de noite no Sítio Chã do Uruçu, em Nazaré da Mata, quando a pequena Severina incorporou uma entidade pela primeira vez. A família de trabalhadores rurais preparava a janta quando notou o trejeito estranho da menina. Naquele conturbado 1954 (marcado pela morte de Getúlio Vargas), a mais velha dos oito filhos de Maria José e Mané de Carro estava com 7 anos. Assustado, o pai levou a criança para se consultar com um homem ‘entendido desses assuntos’ no povoado: “essa é de nascença. só quem pode com ela é Deus”. Hoje com 70 anos, Severina Maria da Silva reproduz a história que ouviu dos pais para explicar uma missão recebida desde pequena. Filha de Ogum, o orixá da guerra, Dona Biu do Maracatu é uma mulher poderosa e respeitada no universo das nações de baque solto de Pernambuco. Madrinha espiritual do Cambinda Brasileira há 48 anos, ela é a guardiã da tradição religiosa do brinquedo.



Recebeu a incumbência de substituir a velha mãe de santo Mariinha, quando tinha apenas 22 anos e aprendeu, desde cedo, os segredos de maracatu. “Se a gente contar tudo fica sem nada. E aí como é que vai se defender do mal?”, pergunta Dona Biu, deixando a conversa pelo caminho todas as vezes que o assunto é o rito espiritual do folguedo. O terraço da casinha verde onde mora, no bairro nazareno do Jaú, espelha o sincretismo religioso da brincadeira. Num altar improvisado, imagens de Padre Cícero, Nossa Senhora da Conceição e São Jorge dividem o mesmo ambiente com a Pomba Gira Maria Padilha e orixás sob a mesa. “Cambinda é um maracatu muito preparado. Peço a Deus, à Jurema Sagrada e ao Rei Salomão, que tomem conta do meu terreiro e do meu batalhão”, roga a madrinha umbandista, que frequenta a igreja católica e segue todo ano em romaria para Juazeiro do Norte (CE), em devoção a Padre Cícero.

A preparação mágico-religiosa do maracatu acontece antes e depois de o brinquedo ganhar a rua. São banhos à base de ervas, rezas, aguações, velas, defumações e fumaçadas de cachimbo e charuto. “O preparo da brincadeira é feito na Jurema, religião de matriz indígena que depois recebeu influência africana e européia. Um mestre ou caboclo da Jurema conduz a entrada e saída do brinquedo nas sambadas e no Carnaval. Além disso, o Cambinda tem uma entidade feminina própria, que o acompanha desde sua fundação. Dona Biu costuma dizer que ela se engraçou do maracatu e passou a acompanhá-lo”, conta a antropóloga Sumaia Vieira, que escreveu um trabalho de conclusão de curso e uma dissertação de mestrado sobre o Cambinda, além de vivenciar a experiência na prática, brincando de índia e de baiana no Cumbe. Antes de começar a entrevista, ela pede permissão às entidades e às pessoas para falar sobre o folguedo.

Altar de Dona Biu é exemplo de sincretismo religioso

“Maracatu é brinquedo de feitiço e bruxaria, por isso necessita de tanta proteção. Quem tá dentro da festa precisa tá limpo e respeitar a tradição”, diz João Estevão da Silva, um dos herdeiros do Cambinda. É ele o responsável por tentar evitar “chamego” durante a folia, já que o resguardo sexual é condição indispensável no preparo religioso. Dependendo do regime espiritual prescrito para cada um, homens e mulheres devem ficar sexualmente afastados de três a 21 dias antes da Quarta-feira de Cinzas. “Eu mesmo durmo no chão pra ficar longe da mulher”, conta Seu João.

“Quem desobedece desmantela a brincadeira e começa a acontecer coisa errada. O ônibus ­­­­­­quebra, alguém fica com uma dor, um caboclo cai, o maracatu não chega pra se apresentar”, explica. Durante a folia, homens e mulheres ficam separados nos ônibus e nos quartos. Na hora da dormir, depois das apresentações, Seu João monta guarda em frente à porta da ala feminina. “Fico só olhando o movimento. Se eu pegar alguém desobedecendo boto pra fora e não brinca mais o Carnaval”, garante. Além da abstinência sexual, a menstruação é outro tabu. “Nesse estado a mulher fica de corpo aberto. Se vai menstruar no Carnaval dou logo um remédio para suspender por três dias”, afirma Dona Biu, repetindo um cacoete na boca e fumando um cigarro atrás do outro.

As entidades protetoras são consultadas para tudo, desde quem pode e quem não pode brincar até sobre a produção desta reportagem. O fotógrafo do JC pergunta se pode fazer uma imagem de Dona Biu jogando os búzios. Ela entra em um dos cômodos da casa para consultar os orixás e volta dizendo que “a mulher dos búzios já foi embora”. Permissão negada.



Nação que se preza não sai desprotegida

Na tradição do baque solto, brincadeira que se preza não sai desprotegida. “Cambinda se prepara com calço (proteção espiritual) coletivo e individual. Caboclos, baianas, arreiamás, corte, diretoria e integrantes do terno são calçados na Jurema. Depois, ao final do Carnaval, o calço é devolvido”, explica Sumaia, contando que não sentia as pernas nem o cansaço enquanto brincava de índia, por conta do calço.

Metido no mundo misterioso dos caboclos de lança desde os 6 anos de idade, Luís Fernando da Silva, 19, revela que seu regime espiritual para brincar o Carnaval é de 21 dias. “Como sou médium, faço um preparo mais longo e trabalhado, com banhos, rezas, defumadores e fumo. Eu recebo o calço antes da festa e só devolvo na quinta-feira. Com ele, o caboclo não sente o peso da fantasia, não adoece, se protege de feitiçaria e brinca em paz”, acredita.



Recém-iniciada no canbomblé, Mayra Fernandes Veloso, 23, diz sentir a ancestralidade do maracatu. “A religiosidade é muito forte dentro de mim, por isso respeito o regime espiritual. Tomo meus banhos, coloco minhas guias e uso meus contra eguns (trançado palha da costa que serve de proteção). E também faço minhas oferendas para Oxum”, lembra a diretora do Cambinda.

Filha de Oxum, Mayra reverencia o orixá das águas doces

O preparo individual caminha junto com o calço coletivo na Jurema. “Muitas vezes o calço da brincadeira pode estar na boneca, porque ela é a protetora do maracatu, mas também pode estar em outro lugar. O Cambinda tem duas calungas, uma usada nas sambadas (Carolyne) e outra no Carnaval (Carolina)”, recorda a antropóloga. Só quem pode pegar na boneca é a madrinha do maracatu, a Dama do Paço, Seu João ou o presidente da nação. Antes de sair para a festa, a calunga passa sete dias e sete noites sob a mesa do altar, levando defumador, fumaça de cachimbo e charuto e recebendo rezas especiais. Além da boneca; os cravos dos caboclos, o apito e a bengala do mestre, a espada do rei, a machadinha do arreiamá e os instrumentos do terno (banda musical do maracatu) passam por uma preparação.

Nas conversas dos homens-caboclos, as histórias de bericar azougue (bebida feita com cachaça, pólvora e azeite) parecem ter ficado no passado. Ao invés dele, no domingo de Carnaval, os folgazões tomam um chá misterioso preparado por Seu João. “Não posso dizer do que é feito, mas garanto que as pessoas ficam fogosas e animadas depois que tomam”, diz, às gargalhadas. Nas apresentações do maracatu, Dona Biu traz sempre uma bolsa carregada com objetos e ingredientes secretos. Vez por outra, tira uma garrafa embalada num saco plástico colorido (para disfarçar o conteúdo) e oferece o líquido a alguém do grupo.

Fé e tradição no terreiro da brincadeira

O chão de terra marca de poeira vermelha quem pisar lá. Impossível deixar o terreiro do Engenho Cumbe sem carregar barro alaranjado nos sapatos. Único maracatu de baque solto a manter sua sede na zona rural, o Cambinda Brasileira preserva ali mais do que um espaço físico. É um lugar de ancestralidade da brincadeira. Cercado por histórias de mistério, o pedaço de chão é temido por outros maracatus. No Cambinda gostam de contar que Mestre Dedinha, do Cambindinha de Araçoiaba, foi sambar no Cumbe com os pés enrolados em sacos plásticos para não pisar no terreiro.

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O cravo na boca do caboclo tem forte relação com a religiosidade

É lá na sede da brincadeira onde acontece um dos principais rituais sagrados do maracatu. Líder do grupo, o mestre caboclo puxa a manobra para encruzar o terreiro e evitar os atrapalhos espirituais dentro da brincadeira. “O que eles fazem é o sinal de Salomão, o chamado Sino-Salomão. Segundo a crença, nenhum espírito do mal pode se aproximar de um lugar onde exista o Sino-Salomão. Durante a coreografia, eles se movimentam como se riscassem uma estrela de sete pontas no terreiro”, esclarece Sumaia.

Para além do preparo, não faltam causos de mistério dentro do Cambinda. A calunga que pulou do colo da Dama do Paço e caiu em pé fora do ônibus; a estátua de um arreiamá dançando dentro da sede e a história do caboclo João de Mônica, que diziam ter contrato com o diabo. Contam que ele pulava porteiras sem usar as mãos, de costas e com a matinada nos ombros, além de utilizar a prática de evultar (sumir diante das pessoas).

Como dizia o falecido caboclo de lança Zé de Rosa, “…maracatu é brinquedo mágico, misterioso. Você pode viver cem anos dentro e não descobre o segredo dele.”

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