100 anos de baque solto

Debruçado na janela, João Padre pediu aos filhos que colocassem sua velha cadeira de balanço para fora de casa, debaixo da jaqueira.“Eu não tiro mais essa noite. Tô indo embora. Peço que façam de tudo, mas não deixem minha Cambinda se acabar. O maracatu é a herança que deixo pra vocês”. Naquela mesma noite de sexta-feira, em 21 de julho de 1995, morria João Estevão da Silva (seu nome de batismo). No dia seguinte, o enterro arrastou maracatuzeiros de toda a Zona da Mata pernambucana. Bandeira sobre o caixão e o terno acompanhando o ruidoso cortejo de despedida do homem-caboclo que, durante 50 anos, comandou o Cambinda Brasileira.

Passadas mais de duas décadas, o pedido de João Padre continua soando dentro do brinquedo, que nesta sexta-feira (5) comemora 100 anos de história. Fundado no dia 5 de janeiro de 1918, o Cambinda Brasileira é o maracatu rural mais antigo em atividade ininterrupta no País e o único a manter sua sede na zona rural, no Engenho Cumbe, em Nazaré da Mata. Sua trajetória traduz a própria história do baque solto, surgida na Zona da Mata canavieira de Pernambuco. Sem registros escritos, o que se conhece hoje sobre as primeiras décadas do folguedo é baseado em história oral.

Durante 50 anos, João Padre foi o gurdião do Cambinda Brasileira.
Foto: Cortesia/Projeto “Maracatus – uma contribuição para sua salvaguarda”

“O maracatu de baque solto é uma brincadeira híbrida e complexa, cheia de influências e confluências. Saiu da senzala com sua tradição africana, mas também recebeu forte influência indígena, identificada pelo culto à Jurema e a presença do índio arreiamá. O baque solto também se caracteriza pelo ritmo, a música bruta, a presença do poeta que improvisa versos, os instrumentos (terno) que acompanham o poeta”, aponta a jornalista e pesquisadora Maria Alice Amorim, estudiosa do tema desde 1987 e coordenadora do Dossiê de Baque Solto de candidatura do maracatu, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil conquistado em 2014.

Na sua origem, o maracatu rural era uma brincadeira de caboclos de lança. Diversão de trabalhadores da palha da cana, que curvados sobre o chão do canavial, buscavam uma pausa da labuta diária. A presença de uma corte no “maracatu dos caboclos” foi uma “invenção” da Federação Carnavalesca de Pernambuco. Na avaliação da entidade, para ser aceito como maracatu no Carnaval do Recife era preciso ter rei e rainha. “Foi um erro de avaliação achar que pra ser maracatu teria que ser normatizado, ter os mesmos elementos. A diferença é um aspecto que deveria ser reforçado e não desmerecido. O baque solto não derivou do baque virado. Era um maracatu que tinha autonomia”, defende Maria Alice.

A história do Cambinda Brasileira começou no Engenho Cumbe. A dona da propriedade, conhecida como Dona Rosinha, permitia que os trabalhadores “brincassem maracatu” no domingo de folga. Gostava de ver e pedia que eles se apresentassem na Casa Grande. Em 1918, Nazaré passou por um ano de crise. Sem ter o que comer, a alternativa era pescar. As tarrafas vinham cheias de cambinda e o peixe acabou dando nome ao maracatu. Primeiro se chamou Cambinda Nova e depois Cambinda Amorosa até Dona Rosinha sugerir homenagear o País, mudando para Cambinda Brasileira.

“O primeiro dono do maracatu foi o trabalhador do engenho Severino Lotero. Depois ele não quis mais e passou para João Fulosino e em seguida para João Lauro até meu pai (João Padre) e minha mãe (Dona Joaninha) tomar conta (em 1945). Quando morreu, ele deixou o maracatu pra mim e meus irmãos João e Antônio e disse que Zé de Carro seria o presidente e mestre caboclo e Dona Biu a madrinha”, conta José Estevão da Silva (Zé Padre), lembrando do pedido do pai debaixo do pé de jaca.

Peixe cambinda deu nome ao maracatu

“Falar da história de Cambinda é falar da história do baque solto. É um maracatu de tradição, de peso, respeitado. Depois que João Padre morreu, Zé de Carro continuou mantendo a espiritualidade forte dentro da nação. Tem brinquedo que só faz se embelezar, mas abre mão da tradição”, critica Mestre Barachinha, que passou pelo Cumbe de 1999 a 2002 e está no Estrela Dourada, de Buenos Aires.

Assim como formou gerações, a brincadeira do Cumbe também criou dissidência. A partir da segunda metade dos anos 1980, teve início um processo de interferência política no maracatu, com vereadores assumindo a presidência. João Padre continuou como dono, mas a administração era política. Depois de passar três anos na presidência, o vereador Biu Hermenegildo quis transferir a sede do folguedo do Engenho Cumbe para a cidade. Sem a concordância do dono, o político deixou o maracatu e levou as fantasias confeccionadas durante sua gestão. “Aquele ano (1990) foi muito difícil pra Cambinda. Ficamos quase sem nada e saímos só com 28 caboclos”, conta João Estevão da Silva, caçula dos filhos de João Padre. Em 1991, Biu Hermenegildo criou o maracatu Águia Misteriosa.

A história rendeu desavença entre amigos e uma rixa que permanece até hoje. “João Padre era meu compadre. Passei mais de 20 anos no Cambinda. Fui eu quem convenci o amigo a deixar os filhos dele brincarem de caboclo. Quando fui para o Águia Misteriosa o compadre não me perdoou. Quatro anos depois ele faleceu ainda sem falar comigo e eu não fui ao seu enterro. Acho que essa briga não devia passar de geração em geração. Se Cambinda nos convidar pra sambar com ele a gente samba”, diz o dono do Águia, José Rufino. Dentro do Cambinda, a querela permanece. “Meu pai nos proibiu de sambar com eles. Disse que os dois se acabam no dia que isso acontecer”, acredita João.

Minha história com o Cambinda

O menino que virou rei

Quando João Padre se dava conta, o menino Pedro estava escondido dentro do caminhão que transportava os folgazões do Cambinda. A pergunta era sempre a mesma: “O que você está fazendo aqui?” E a resposta se repetia: “Eu vim ver o maracatu”. Como já estavam no Centro da Cidade, distante sete quilômetros do engenho, o jeito era deixar o garoto ficar. Foi assim, na base da persistência, que em 1992, Pedro Alexandre de Lima se tornou rei do Cambinda, permanecendo no trono até hoje, 26 anos depois. “Vou me manter até quando Deus me der vida”.

Mãe evangélica, filho caboclo

Preto Benvindo tinha 14 anos quando decidiu deixar a igreja evangélica para acompanhar o maracatu. No começo ficava só admirando os caboclos, mas sem brincar, para não “dar desgosto” à mãe. “Enquanto eu for viva você não coloca aquela coisa do demônio nas costas”, dizia. Num domingo de Páscoa Preto vestiu a arrumação e foi visitar a mãe. “Ela botou pra chorar quando me viu e eu desisti do sonho”. Anos depois, em 2007, com 42 anos, o caboclo finalmente venceu a resistência da mãe e, desde então, sai batendo chocalho com a bênção dela.

O decano da cabocaria

Seu Zé Pequeno é de um tempo em que caboclo de lança brincava de alpercata, usava gola de espelhos, andava a pé, dormia em casa de farinha, comia fubá com cambinda e tomava azougue. “A gente misturava pólvora com cachaça, limão e liamba mexia e bebia. Mas isso é coisa de caboclo velho, hoje não tem mais. Ave Maria! O azougue era forte demais, fazia a gente ficar ligeiro”. Hoje com 77 anos de idade e 37 de cabocaria é o mais velho do Cambinda em idade e em posto. Depois do centenário promete aposentar a matinada.

A guardiã da boneca

Em 2008, Dona Lourdinha recebeu a incumbência de ser a guardiã da calunga do maracatu. Há três anos brincava de baiana, mas foi escolhida para substituir sua filha numa das posições de maior responsabilidade dentro do brinquedo. Quem leva a boneca, carrega a proteção espiritual da nação. É nela que, na maioria das vezes, está o calço coletivo do folguedo, a força para brincar os três dias de Carnaval sem atrapalho. “Quando carrego Carolina sinto como se estivesse mais leve. É uma emoção muito grande ser a Dama do Paço”.

Nos tempos de hoje e de antigamente

“Nos tempos de antigamente maracatu era brincadeira perigosa. Tinha briga e até morte. Hoje brinca mulher e criança e todo mundo vê aquela festa bonita na televisão”, diz Zé Pequeno que, com seus 77 anos de idade, contribui para manter viva a memória do folguedo. Em um século de história, o baque solto passou de brinquedo violento a um dos símbolos do Carnaval de Pernambuco, com imagem personificada na figura do caboclo de lança. Em 2014 recebeu do Iphan o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Os tempos de antigamente que Seu Zé Pequeno comenta são dos anos de surgimento do maracatu rural até a década de 70, que ficou conhecida como a “época dos caceteiros”. Os conflitos eram tão frequentes que os grupos foram obrigados a pedir autorização nas delegacias de polícia para brincar. João Padre andava com o papel por dentro da arrumação de caboclo para mostrar aos guardas quando o brinquedo era abordado na rua.

Naquela época, o maracatu era formado por caboclos de lança, arreiamá, catita e baiana. Como as mulheres ainda não podiam brincar, as baianas eram homens vestidos de mulher. “Os caboclos iam buscar as baianas em casa, porque se elas andassem sozinhas outro maracatu pegava a força para fazer parte do grupo deles”, recorda Amaro da Silva, 82 anos, que brincou de baiana no Cambinda por dois anos e depois foi caboclo por 35 anos até ficar doente e não aguentar mais o peso do surrão sobre os ombros. Irmão de Dona Joaninha, Amaro explica que ter baiana na brincadeira era símbolo de luxo e beleza.

As nações de maracatu se deslocavam a pé e se apresentavam nas casas dos engenhos. A catita ia na frente para pedir autorização aos donos da residências e depois, enquanto o folguedo se apresentava, ela entrava por trás das casas e roubava comida para alimentar os folgazões.

Nessa caminhada pelos engenhos os grupos se confrontavam. O sinal para saber se ia ter briga era a decisão de encruzar as bandeiras. “Se encruzasse ficava tudo bem, cada mestre cantava uma loa e o maracatu seguia. Caso contrário, ou alguém abria passagem ou o cacete comia. Meu pai falava em casos de morte e caboclos feridos por pontas de guiadas (lança)”, conta José Estevão da Silva (Zé Padre).

Com o fim da violência vieram os desfiles no Carnaval do Recife, a participação das mulheres e a visibilidade a partir dos anos 1990. Na explosão do movimento manguebeat, Chico Science e Nação Zumbi fizeram uma releitura da música Maracatu Atômico, composta por Nelson Jacobina e Jorge Mautner e lançada em 1974. Quando estava no Grupo Mestre Ambrósio e depois em carreira solo, Siba Veloso produziu discos inspirados no baque solto. O diálogo do universo pop com a cultura popular contribuiu para que o maracatu deixasse de ser invisível aos olhos do País.

Praticamente nessa mesma época, em 1989, foi criada a Associação de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco (AMBS-PE), melhorando a articulação entre os grupos. “Cambinda Brasileira é o maracatu mais tradicional do Estado, mantendo seu lado particular voltado para o respeito aos mais velhos e à religião”, diz o presidente da Associação, Manoelzinho Salustiamo, adiantando que o 28º Encontro Estadual de Maracatus neste ano vai homenagear a Cambinda do Cumbe.

Localização do Engenho Cumbe, em Nazaré da Mata - PE.

Ouça os instrumentos do maracatu rural

 







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