Depressão, esquizofrenia, álcool e quatro mil internações

Os transtornos mentais, inclusive os decorrentes do uso de álcool e outras drogas, oscilam entre a segunda e a terceira causa de internamento mais frequente de jovens e adultos. Na década de 1990, estavam no topo no grupo masculino, mas acabaram sendo ultrapassados pela violência urbana. O menor impacto nas estatísticas também pode ter relação com a menor disponibilidade de leitos, uma vez que a tendência predominante de tratamento é ambulatorial. Dados registrados pelo SUS e divulgados pela Secretaria de Saúde de Pernambuco apontam 4.081 hospitalizações no Estado atribuídas ao problema na faixa dos 25 aos 34 anos, sendo 2.700 de pacientes homens.

A esquizofrenia e os delírios por uso ou não de substâncias psicoativas são os principais transtornos que levam ao internamento. Nos consultórios, psiquiatras observam um crescente aumento da depressão, mal que a Organização Mundial de Saúde estima ser capaz de ultrapassar em frequência até as doenças cardiovasculares, e de outros males da ansiedade. “A depressão é uma importante causa de afastamento do trabalho”, afirma o psiquiatra Durval Bezerra. A classificação internacional de doenças reconhece no seu capítulo F 99 distúrbios emocionais e do comportamento, com vários subtipos. A doença mental, explica Bezerra, é caracterizada quando há um prejuízo grande no relacionamento interpessoal, para o indivíduo e suas relações sociais. As causas são multifatoriais e vão da predisposição genética à sobrecarga de estresse vivenciada.

Na sociedade da informação e do estímulo por segundo, essa sobrecarga parece maior. O professor de neuropsiquiatria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Amaury Cantilino, explica que os estímulos excessivos trazidos pela tecnologia nem sempre são vantajosos na qualidade de vida. “Se cada um pensar quantas das informações recebidas nos últimos meses foram relevantes o suficiente para uma tomada de decisão que viesse a alterar significativamente a sua vida, surpreenderia-se com a quantidade de material pouco útil. Nosso cérebro trabalha mais para selecionar o essencial nessa abundância. O estresse e o gasto energético aumentaram”, avalia. Ele chama a atenção ainda para as extravagâncias. “Excessos alimentares acarretam maior necessidade de estatinas e hipoglicemiantes (remédio para colesterol e diabete), sobrecarga de trabalho e de exigências de produtividade levam aos antidepressivos, tranquilizantes e drogas para baixar a pressão arterial.”

No SUS, o cuidado em saúde mental começa na atenção básica, nas equipes de saúde da família e se estende na rede especializada, da qual fazem parte os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). “A reforma psiquiátrica trouxe avanços consideráreis na assistência à saúde mental. Os Caps representam um equipamento fundamental para a diminuição da necessidade de indicações de internamento nos casos agudos mais graves. Os profissionais que prestam atendimento nesses serviços devem ser bem capacitados para que o resultado do tratamento seja favorável, a ponto de conquistar a confiança dos pacientes e dos familiares”, observa Cantilino.

FORMAÇÃO

A residência médica em psiquiatria exige três anos de estudos. “Para um diagnóstico apurado vai ser importante que ele saiba como coletar as informações (a entrevista psiquiátrica é cheia de peculiaridades quando comparada à de outras especialidades médicas) e como realizar o exame mental”, explica o professor de neuropsiquiatria. Segundo ele, no Brasil estão disponíveis 25 antidepressivos, 20 antipsicóticos, dez tranquilizantes, além de estabilizadores do humor, medicações para tratamento do alcoolismo, dependência de nicotina, demência entre outros.

“O médico que sabe como escolher uma medicação facilita, inclusive, o tratamento do psicólogo e do terapeuta ocupacional. Além disso, é durante o treinamento que o residente em psiquiatria vai aprender quando precisa indicar um psicofármaco. Este último aspecto é relevante para que se evite a utilização de medicamentos em situações onde eles não são proveitosos ou o inverso, deixar de oferecer ao paciente com transtorno psíquico um recurso com potencial para aliviar o seu sofrimento, melhorar a sua qualidade de vida e facilitar a sua recuperação funcional quando for pertinente”, acrescenta Cantilino.

Ele lembra que gestores locais têm se empenhado para melhorar a capacitação em psiquiatria. A prova disso é que até 2013 Pernambuco só conseguia formar quatro psiquiatras por ano, número aquém das necessidades dos serviços públicos e do sistema complementar de saúde. “Com a recente abertura de novas vagas para residência em psiquiatria, a partir de 2015 teremos pelo menos 14 novos psiquiatras por ano em nosso Estado”, informa.

Entrevista - Transtornos psicológicos e psiquiátricos têm a ver com transtornos afetivos

O psicólogo Luiz LUIZ SCHETTINI, com mais de 40 anos de prática clínica, conheceu um tempo em que a convivência era difícil entre psicólogos e psiquiatras. A profissão de psicólogo foi regulamentada em 1967 e ele acredita que havia uma luta pelo mercado, com cada um querendo fazer o seu trabalho. Hoje, explica, o cenário é muito bom, com encaminhamento de pacientes de um para o outro. “Boa parte das pessoas com problema psiquiátrico se beneficia muito com atendimento paralelo de psicoterapia. Isso é uma coisa muito clara, seria o grande caminho do atendimento psiquiátrico, o suporte psicológico”, afirma.

JC – A psicoterapia funcionaria em toda doença?

LUIZ SCHETTINI – Algumas doenças, com alta deterioração, talvez não permitam a psicoterapia. Mas nem todo paciente psiquiátrico está fora da realidade, muito pelo contrário, ele tem possibilidade de encarar momentos de sua história pessoal. As drogas são reguladoras de comportamentos, mas alguns não serão reordenados pela medicação, vão exigir a associação da psicoterapia. Há uma necessidade de reordenar a história pessoal . No final das contas, os transtornos psicológicos e psiquiátricos têm bastante a ver com transtornos afetivos.

JC – Por isso a gente tem a impressão de que os transtornos mentais estão aumentando? Parece haver aumento do individualismo, da desestruturação das famílias...

LUIZ SCHETTINI – Pessoas com assistência do grupo familiar tendem a se reorganizar com mais facilidade, desde que a família esteja preparada para entender e atuar nesse processo. O grande trabalho que poderia se fazer na recuperação do doente mental seria o de recuperação com o seu grupo familiar de convivência. Isso, na realidade, não se faz na medida necessária. O doente precisa estar integrado ao grupo de acolhimento, que é a família. A doença mental já é o fissuramento dessa relação comunitária, daí o isolamento deles. O esquizofrênico se afasta da vida comunitária porque ele se afasta da vida em comum. Ele tem medo do que está fora e tem medo do que está dentro. Se você consegue uma aproximação do que está dentro com o de fora, pode dar um resultado muito bom. Se você junta a medicação, a psicoterapia e o atendimento familiar, tem uma conjunção muito favorável.

JC – Quando começa o transtorno?

LUIZ SCHETTINI – Não sabemos. Muitos transtornos psiquiátricos aparecem na infância e com muita virulência na adolescência, na mudança da infância para a fase adulta, em que há a reordenação da personalidade. Há uma desarrumação, é momento muito delicado de passagem. Se esse indivíduo veio da infância com algumas fragilidades nas relações afetivas, havendo outros elementos que colaborem para isso aí, ele, na adolescência, pode se desarticular. Para reordenar tudo isso é mais trabalhoso do que quando essa desarticulação aparece após a adolescência, quando, de qualquer maneira, houve uma estruturação um pouco melhor e a pessoa consegue lutar contra essa desorganização. Na adolescência, ela fica mais indefesa. A questão afetiva é muito responsável por essa desarticulação do indivíduo com o mundo. Daí a gente volta para o que eu chamo de acolhimento. As pessoas, na sua totalidade, precisam de um acolhimento. Nós, os humanos, estamos em busca de um acolhimento, o nutriente da construção afetiva. Quando isso não se faz adequadamente, o indivíduo fica vulnerável. Se há nele alguma vulnerabilidade, pode desembocar numa doença mental.

JC – Então, pode-se prevenir a doença mental com acolhimento e afeto?

LUIZ SCHETTINI - É a grande questão. Determinados estresses afetivos numa personalidade fragilizada podem levar a patologias das mais variadas ordens no campo mental e o autismo estaria enquadrado nisso. Tanto que o tratamento e o acompanhamento produzem alguns resultados, mínimos que sejam, na adequação ao mundo externo, quando a pessoa é imersa num ambiente de acolhimento afetivo.

JC – Uma pessoa submetida a vários estresses pode progredir para o adoecimento mental?

LUIZ SCHETTINI – Pode ser um processo ou uma eclosão. A experiência mostra que é preciso existir uma espécie de plataforma que permita isso, que a gente chama de predisposição à doença. Há indivíduos que teriam predisposição a uma doença e nunca chegam à eclosão ou evidenciação dela. Outros que têm essa predisposição e, por determinadas razões ou circunstâncias, a doença vai se evidenciar. Os estresses demasiados e a negação da afetividade podem desencadear uma doença que nunca apareceria sem esse elemento desarticulador. No final das contas, embora a gente tenha que ter cuidado para não ser radical, a falta de afetividade seria uma porta aberta para uma desarrumação mental e possível doença mental. Às vezes a doença mental começa na família, mesmo que os familiares não sejam doentes mentais. A assistência às famílias seria o caminho, para que elas se organizassem como famílias acolhedoras. O suporte somente ao indivíduo é insuficiente porque a pessoa está atrelada a um grupo e esse núcleo familiar é desarticulador.

JC – Na cultura atual de individualismo, como fazer a família refletir, se há uma cultura de massa desagregadora?

LUIZ SCHETTINI – É um processo educativo da comunidade. A gente consegue educar a comunidade para algumas coisas. Lembro o tempo em que nós, brasileiros, tínhamos cinto de segurança nos automóveis e ninguém usava. Houve um tempo em que reconheceu-se a importância para evitar acidente, e estabeleceu-se o uso. É verdade que esse processo educativo foi acompanhado de uma multa, mas o hábito foi incorporado com muita rapidez. São raras as pessoas que não botam o cinto. Entretanto, também se instalou processo parecido com o não uso do celular e não aconteceu a mesma coisa. São elementos muito diferentes. O cinto está feito. O celular é uma estimulação que vem a cada momento e você tem que reagir a ela, dar ou receber o telefonema. É muito difícil esse controle interno. Vivemos uma estimulação imensa.

JC – O excesso de estímulo está ajudando a enlouquecer as pessoas?

LUIZ SCHETTINI – Não diria assim, embora sabe-se que contribui para a dispersão da atenção. Antigamente se dizia que quem estuda muito enlouquece. Os estudantes enlouqueciam por outros motivos e não por causa do estudo. O que é a doença mental? É difícil definir. Laing (Ronald Laing, psiquiatra já falecido, estudioso das relações familiares) diz que a doença mental não é individual, ela é social, provem do comportamento do grupo, constituído por indivíduos. O grupo, onde o indivíduo surge e cria raízes, a família, é muito responsável pela saúde mental das pessoas. O trabalho de prevenção da doença mental seria paralelamente a um trabalho de assistência à família. Não falo simplesmente de Bolsa Família (de renda mínima). Também, mas da assistência, não exatamente psicoterápica ou psicológica, mas no sentido de estimular e fortalecer a vida em grupo.

JC – Quais os sinais de que a relação afetiva não está muito boa?

LUIZ SCHETTINI – Um sinal é o distanciamento corporal. O ser humano se descreve como um ser da palavra, nós até nos distinguimos dos seres vivos porque falamos. Antes de ser da palavra, somos da audição. Quem não ouve não fala. Ouvir o outro é uma forma de construir uma relação afetiva. Mas antes de ser um ser da audição, somos seres táteis. Tem havido um distanciamento corporal entre as pessoas, até no mesmo grupo.Há poucos dias ouvi uma pessoa dizer que detesta ser tocada quando está conversando com outra. Não sei por que a pessoa não gosta que toquem nela. Mas o toque corporal, na criança recém-nascida, dará ensejo a uma ligação afetiva. Existe um excelente livro sobre esse assunto, chamado Tocar, o significado humano da pele. São apresentadas centenas de pesquisas das mais variadas culturas a respeito do toque corporal e da estruturação da personalidade, que tem a ver no final das contas com a saúde mental.

JC – As pessoas precisam se abraçar mais?

LUIZ SCHETTINI – Tempo desse ouvi um professor indiano sugerindo que as pessoas se abraçassem de forma diferente. A gente deveria abraçar batendo com o lado esquerdo, o do coração. Há pessoas que a gente abraça e elas parecem ser aquelas armaduras da Idade Média, frígidas, frias.

JC – É comum ter mais amigos virtuais, nas redes sociais, do que na vida real...

LUIZ SCHETTINI – A virtualidade (vamos inventar palavras !) e a presencialidade são elementos que estão se chocando. Quando a televisão surgiu para nós, de uma certa maneira, aglutinava o grupo familiar, embora de forma muito silenciosa. À medida que a tecnologia foi se disseminando, foi sendo possível às pessoas mais de um aparelho, elas foram se separando. Hoje é comum ter três ou quatro televisores numa casa, para que cada um veja o programa de sua preferência. Houve uma desarticulação. Quando você avalia todos os instrumentos da tecnologia, pode-se ver aspectos danosos a esse agrupamento. A internet é extraordinária. Mas as redes sociais juntam as pessoas? Em algum aspecto sim. Vejo as pessoas dizerem “Tenho 900 amigos no Facebook, dos quais 880 não conheço.” As pessoas dialogam sem se conhecerem. Não há conexão afetiva. Se encontrarmos uma forma de despertar a conexão afetiva, estaremos fazendo um trabalho preventivo em relação à doença mental.

Transtornos mentais, conheça alguns:
ORGÂNICOS
São os de origem orgânica e degenerativos do sistema nervoso, como as demências, a exemplo do Alzheimer, e as vasculares, causadas por AVC, por exemplo.
NEURÓTICOS

Têm relação com a ansiedade, incluindo as fobias, histerias, somatização. O medo de locais fechados (claustrofobia), o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e o transtorno do estresse pós-traumático, comum após a vivência de uma violência, estão nesse grupo. Podem se manifestar com sintomas físicos e emocionais, tais como tensão, taquicardia, tremores, mal-estar). O pânico é uma síndrome ansiosa, que além de desconforto respiratório e taquicardia, pode vir acompanhada de medo de ter ataque do coração, de morrer ou de enlouquecer.

DE HUMOR

Distúrbios mais frequentes, a começar pela depressão, caracterizada pela perda de vontade de fazer as atividades habituais, baixa autoestima, falta de prazer e dificuldade de concentração. Os transtornos bipolares, com oscilação entre a melancolia e a euforia, também estão nesse grupo.

PSICOSES

A esquizofrenia e os transtornos delirantes (estar sob ameaça, ter um poder divino etc) são exemplos de psicoses, que exigem tratamento psiquiátrico. Na primeira, considerada a principal, além do delírio, surgem alucinações, depressão e isolamento.

POR SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS

Amnésia alcoólica, dependência e crise de abstinência por uso de substâncias lícitas, como o álcool, drogas ou medicamentos são exemplos.


Os problemas mentais e de comportamento no vocabulário popular

A humanidade já encontrou diversas formas de lidar com a loucura, atribuindo o problema a questões espirituais ou a interferência das fases da Lua. Os loucos foram alvo da caridade, da prisão, do preconceito e também da admiração, caso de escritores e pintores famosos. No Brasil, a variedade de palavras ajuda a compreender a relação com os transtornos mentais:

Abestalhado - Sujeito com retardo mental, estado confusional ou dificuldade cognitiva.

Achaque - Somatizações.

Agonia - Aflição, ânsia, ansiedade.

Aloprado - Pessoa perturbada, em estado psicótico ou sob a ação de substâncias psicoativas.

Aluado - Louco.

Alucinado - Termo para estado psicótico, assim como louco, doido, maluco.

Amarelar - Ficar pálido, assustado, com medo.

Aperreado - Aperreado do juízo, teimoso, contrariado.

Ataque de nervos - Crise de ansiedade, histérica ou de pânico.

Atarantado - Perturbado.

Avoado - Distraído, adoidado, irrequieto.

Cachola - Cabeça.

Caduco - Idoso com demência.

Chilique - Desmaio, ataque de nervos.

Danado - Atacado de raiva, alienado.

Debiloide - Com retardo mental.

Demente - Pessoa com transtorno mental.

Dengo - Manha.

Desanuviar - Desabafar.

Desimpaciente - Ansioso, irritado.

Doideira - Transtorno mental.

Encorujar - Retrair-se, ocultar-se, mostrar-se tristonho, acabrunhado.

Enjoado - Antipático, aborrecido.

Fora do tino - Sem a capacidade de julgar e raciocinar.

Estrimilique - Crise mental ou comportamental, tremedeira.

Faniquito - Ataque de nervos.

Fricote - Sintoma mental ou comportamental pouco sério e legítimo, algo que se faz para obter vantagem.

Gênio de cobra - Temperamento vingativo.

Jururu - Tristonho, pensativo.

Lelé - Louco, psicótico, com retardo mental ou com demência.

Piripaque - Desmaio, crise de ansiedade ou histérica.

Problema espiritual - Influência de espírito ruim, demônio, afastamento da fé.

Quengo - Cabeça.

Tã-tã da cabeça - Louco, com transtorno mental grave.

Zureta - Estonteado, atordoado, maluco.

Glossário extraído do livro Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais (2008), de Paulo Dalgalarrondo (Unicamp-São Paulo), baseado também em outros autores.