Entre a liberdade, o conflito e o abandono

Tanto faz o cruzamento das Ruas Paula Batista e Harmonia, em Casa Amarela, quanto a Praça da Independência, no Centro do Recife. Que independência e desconcertante harmonia, poderíamos concluir. Pessoas com aparente desorientação mental estão nas ruas do Recife, caminham às margens das rodovias, dormem e convulsionam no passeio público, aos olhos de todos, num cenário confuso da vida agitada e barulhenta, emoldurada pela paisagem urbanisticamente insana. Ignorados, rotulados, temidos ou acolhidos pela solidariedade, ganham apelidos e, sobretudo, ajudam a levantar questões antigas, muito atuais. A rua é de todos, a liberdade de ir e vir também. Mas lá estão no exercício dessa autonomia ou vivendo o sofrido abandono social ? São o retrato da ausência de políticas assistenciais competentes ou do despreparo da família e da sociedade para lidar com as diferenças?

No primeiro trecho visitado, no bairro de Casa Amarela, Zona Norte da capital, bastou uma hora e exatos 21 minutos, numa tarde ensolarada do dia 22 de abril, para descobrir o que é normal por ali. Já existia a informação prévia sobre o Doido da Garrafinha e outros tipos aparentemente desequilibrados que por lá passam diariamente. Logo no primeiro minuto um deles aparece. Vive andando de um lado para o outro, com a garrafinha vazia de água mineral, vasilhame necessário para pedir sua bebida predileta: café. Tem em torno de 40 anos. A barba está feita, não demonstra morar na rua. Parece ter endereço certo e quem cuide dele. O jeito é de quem toma remédio controlado, tem olhar às vezes perdido. Sabe ou não o que faz na rua? Quem trabalha na via alerta que às vezes ele é agressivo. Um casal de comerciantes, há sete anos na região, conhece a rotina por todo esse tempo. “Jogou café num motoqueiro, agride mais as mulheres, dá tapa”, conta a senhora. O esposo dela completa: “Devia estar internado!”. Será?

Em pouco tempo se descobre que o tal homem com comportamento infantil tem família. Mora no bairro próximo do centro comercial de Casa Amarela. Um vendedor de cocos refere-se a ele como "o especial", revelando outro olhar para a diária convivência. É contrário ao internamento e entende que o passeio, na rua, deve fazer bem àquele maduro homem “que precisa de cuidados dos que têm plena consciência.”

Enquanto o sol baixa, a curiosidade encontra outro alvo. Também chama a atenção pelos gestos, de longe involuntários, de perto, mais conscientes. Passa pela faixa de pedestres, faz sinal para os carros, e, como um guarda de trânsito, aponta para a ciclofaixa, orientando o uso de bicicletas no local. Seu nome? Ele responde completo. Reage com alegria ao ser fotografado, agradece por estar sendo entrevistado. Tem 52 anos, diz que aos 15 foi abandonado pela mãe, na Feira da Rodinha, na Mangabeira, e que mora na rua, sozinho. Sua companhia, o pai, morreu logo depois. Era feirante e bebia. Apresentou o filho a duas coisas que lhe deram prazer: o álcool e o samba. “Bebo porque gosto, não faço mal a ninguém. Todo mundo bebe”, sentencia o Galego (apelido), educadamente. E os gestos na ciclofaixa? “Queria ter uma bicicleta.” Morou no Córrego José Grande e frequentava a quadra da Escola de Samba Galeria do Ritmo, no Morro da Conceição.

BEBIDA

O mesmo álcool que dá prazer ao Galego entorpece outros mais vulneráveis, que vivem aos farrapos no Centro da cidade. A Praça da Independência e arredores acolhem muitos deles. Alguns, quando o efeito do álcool está em baixa e a abstinência não clama nova dose, conseguem sobriedade suficiente para pedir comida e fazer pequenos serviços. Outros, entorpecidos pelo dueto bebida e doença mental, pouco se desligam do seu mundo abstrato, particular.

Te Odeio é um desses. Negro, magro, vestindo quase sempre uma sunga preta, anda de um canto a outro, catando comida no chão e até no esgoto. Ganhou esse apelido por causa da frase recorrente que diz quando está mais perturbado: “Eu te odeio, largue minha mão!”. Aparenta em torno de 40 anos e é visto também em outros trechos do Recife. “Fico revoltado quando alguém dá bebida a ele, piorando seu estado”, desabafa um dono de restaurante que tenta ao menos saciar a fome de muitos que perambulam na região. Bebeto é mais um que recebe sua ajuda. Passa uma parte do tempo deitado no chão e às vezes canta, daí o nome similar ao do artista, com quem tem, aliás, uma certa aparência física por causa dos cabelos alourados. O sósia prefere o diálogo consigo mesmo e de vez em quando desaparece. “Retorna tomado banho, de cabelos cortados, talvez de algum internamento”, sugere o amigo comerciante.

Na emergência do Hospital Ulysses Pernambucano, a única a atender todo o Estado, há uma enfermaria para acolher os pacientes que vivem na rua. Depois do atendimento à crise aguda, eles lá aguardam a pesquisa feita pelo serviço social, que vai em busca de algum laço familiar ou de abrigos mantidos pelas prefeituras, para onde possam ser encaminhados a partir da alta médica. O processo nem sempre é rápido, em razão das dificuldades da busca, informa a direção do hospital. Nos casos mais graves, que exigem cuidado mais intensivo, as alternativas de internamento são os hospitais Alcides Codeceira (feminino), em Igarassu, Grande Recife, e a Colônia Barreiros (masculina), na cidade do mesmo nome, na Mata Sul.

Abaixo o pensamento higienista!

É missão dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) assistir também a população de rua portadora de transtorno mental. Cabem às equipes, que atendem na sede desses centros e fazem visita domiciliar, abordar e tentar construir alguma alternativa terapêutica ou de cuidado para o doente da via pública.

“Não podemos simplesmente partir para uma medida de higienização, retirar as pessoas da rua, dar banho, arrumá-las. É uma violência contra o direito de ir e vir, relações são construídas naquele espaço. Temos que conhecer melhor a pessoa, seu nível de autonomia e fazer um projeto singular”, explica Telma Melo, gerente de Atenção à Saúde Mental do Recife.

Segundo a psicóloga, vários fatores levam uma pessoa a morar ou passar a maior parte do tempo na via pública, desde questões econômicas, sociais e até mesmo culturais. “Quando o usuário está na rua por sua condição psíquica, a gente tenta dar conta pelos Caps”, garante.

Além do Consultório de Rua, que tem foco na redução de danos para dependentes de álcool e crack que moram nas calçadas e debaixo dos viadutos, foi criado este mês o Consultório na Rua, para um cuidado mais integral. O serviço está funcionando inicialmente em dois distritos sanitários, Centro e Zona Norte.

A ideia é que profissionais do novo Consultório, de nível médio, façam o primeiro contato. Detectado o transtorno, o trabalho será no sentido de aproximar o Caps de quem precisa.

PASSADO

No século 17, na Europa, mendigos, pessoas sem domicílio, sem trabalho ou sem ofício, criminosos, rebeldes políticos, prostitutas, crianças violentadas, sifilíticos e alcoólatras eram colocados no hospício. E isso também foi replicado no Brasil.

No período colonial, os agitados eram levados à cadeia pública. Os ricos ficavam presos em casa, escondidos, conta Heronides Coelho no livro A psiquiatria no país do açúcar (1954)