Reencontro com o mundo

Já dizia o pai da psicanálise, Sigmund Freud, que os romancistas e poetas são mais conhecedores da alma humana do que mesmo os cientistas, pois sabem dos mistérios que existem entre o céu e a terra. A psiquiatra Nise da Silveira, que criou o Museu de Imagens do Inconsciente no Rio de Janeiro, provou, ao dar liberdade de expressão aos seus pacientes, que a arte é uma forma de comunicação e de reencontro com o mundo.

No Recife, o Centro de Atividades Terapêuticas do Hospital Ulysses Pernambucano, adota a arte como terapia há décadas, dando uma feição diferenciada ao hospício. O trabalho é feito graças à persistência de artistas e profissionais de saúde da unidade. Ana Lisboa, professora de Teoria da Arte da Universidade Federal de Pernambuco, não só ajudou a construir essa nova possibilidade, como provou, em pesquisa para doutorado, o importante instrumento de cuidado que é a arte.

Vizinha da Tamarineira e frequentadora das missas da capela do hospital, Ana acabou criando laços mais do que solidários a partir da década de 1990. Depois de conhecer o Museu do Inconsciente, de Nise da Silveira, procurou Noêmia Varela, que trabalhou com a psiquiatra, e juntas montaram um curso para profissionais e pacientes. Começava aí a observação e a interação. Assim como o psiquiatra Ulysses Pernambucano, que inovou conceitos da especialidade e acreditava no uso benéfico dos trabalhos manuais, Nise apostava nessa reocupação da mente e montou um museu com a arte dos seus pacientes. As discípulas e outros amigos da Tamarineira, como o fotógrafo Luiz Santos,a escultora Cristina Machado, o músico Alexandre Gomes e tantos outros foram no mesmo caminho.

A pesquisa para desenvolvimento da tese de Ana em psicologia clínica se deu durante nove meses de trabalho no hospital, com atividades três vezes na semana para pacientes voluntários. Foram produzidas 14 telas pintadas com tinta acrílica, uma instalação de parede com madeiras pintadas, jogos em madeira e desenhos sobre papel. “Enquanto pintavam, os pacientes conversavam sobre suas histórias de vida, anseios, alegrias, tristezas, projetos, dando, através da arte, moldura ao seu existir. Uma rica interação artística e interpessoal foi formada, observando-se sensível mudança no estado psíquico, melhoria de atitudes, motivação, e no comportamento de muitos pacientes, evidenciando que a arte pode ser um importante instrumento coadjuvante de cuidado”, descreve Ana Lisboa no seu estudo.

Um novo projeto de extensão, envolvendo, alunos e professores de artes visuais da UFPE levará, agora em 2014, para os pacientes a oportunidade de fazer litogravura (desenho em pedras calcárias).

No HUP, os pacientes referem-se positivamente às experiências com arte. “Eu adoeci aos 18 anos de idade, fui internado. Depois minha mãe ficou sabendo de um hospital-dia, passava uma parte do dia lá e o outro em casa. O Ulysses Pernambucano é um modelo de hospital ao ar livre, com atividades. Deixa a gente com a mente mais ocupada e menos despreocupado”, reconhece o interno E.P.M., 35 anos, que fala quatro idiomas (além de português, inglês, italiano e Limitações do serviço público impedem que oficinas regulares sejam oferecidas por artistas que não são funcionários do hospital. Ao mesmo tempo, a vaga para esse fim também não foi criada, o que inibe a regularidade da diversidade cultural no Centro de Atividades Terapêuticas, que ocupa um pavilhão da unidade estadual. O mesmo ocorre nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de diferentes redes municipais. “Se o trabalho dos artistas comprovadamente vem ajudando na reabilitação dessas pessoas, não tem por que ser marginalizado”, afirma Ana.

A Tamarineira tem muita experiência com interculturalidade, explica Benvinda Magalhães, diretora do hospital, que sonha um dia vê-lo transformado num grande centro de convivência em saúde mental. Quando ela ingressou no serviço, há 20 anos, o trabalho terapêutico tradicional era feito com profissionais de várias áreas, embora o saber médico prevalecesse. “O que me prendeu na época foi o olhar diferenciado que existia em relação à loucura, já vinha de uma formação com olhar crítico para o tratamento unicamente medicamentoso, que não olhava as subjetividades”, explica.

Entrevista - "Saúde e cultura são integradas"

O jovem e inquieto médico Vitor Pordeus, discípulo de Nise da Silveira – a psiquiatra alagoana já falecida, que viveu grande parte de sua vida e prática no Rio de Janeiro e na década de 1940 levou um olhar intercultural ao tratamento dos doentes mentais – , vem inovando a política antimanicomial com o Hotel-Spa da Loucura, espaço de convivência entre artistas, pessoas comuns e pacientes. Dá lugar especial ao teatro, inclusive em atividade extramanicômio, feita nas comunidades. Ele esteve no Recife este ano, para expor sua ideias, vê retrocesso na reforma psiquiátrica e fala descontroladamente o que muita gente tem medo de ouvir e dizer.

JC- Quem é Vítor Pordeus?

VÍTOR PORDEUS - Nasci em Realengo (RJ), filho de um metalúrgico com uma professora primária. Meu avô paterno saiu de Souza (PB), era mascate. No meu bairro convivi com negro, samba, Carnaval público, festa junina, festa comunitária. Meus pais fundaram o PT na Zona Oeste do Rio, exibiam filme. Uma pena que eles não sabiam fazer teatro. Eu começo a fazer o teatro amador aos 9 anos, com Maria Clara Machado. Interrompi para ser médico, acho que era um desejo da minha mãe. Eu era muito alérgico. Saí de Realengo para estudar, ia para a Tijuca. Estudei para medicina na Universidade Federal Fluminense (Niterói), comecei a fazer pesquisa em imunologia. Fiz internato em Israel. Tenho uma carreira científica que me sustenta de fato. Fui fazer doutoramento na USP. Trabalhei um ano e meio e fui expulso da pós-graduação, por uma discordância científica e filosófica. Eu adoeci por causa disso. Decidi, então, voltar para o teatro. Achei que não teria volta, mas depois de ler Galileu e Brecht (Bertolt) redescobri o gosto pela medicina. Fundei um grupo, o Laboratório Tupi-Nagô, em 2007, e fizemos a primeira ação na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

JC - O que é o laboratório?

VÍTOR PORDEUS - É um laboratório de arte e ciência. A gente propõe trabalhar a ideia de arte-ciência, que são as atividades humanas. A arte é o bem fazer e a ciência, o bem saber. Como é que você sabe que sabe uma coisa se você não faz? E como é que você faz para fazer uma coisa se você não sabe? Fazer e saber estão o tempo todo juntos. O teatro é um bom exemplo dessa atividade humana. A medicina e o jornalismo, também. Tudo é arte-ciência, saber e fazer têm esse balanço que a nossa sociedade separou.

JC - E toda a vez que acontece essa separação a gente adoece?

VÍTOR PORDEUS – Adoece. A nossa sociedade está profundamente adoecida por esse processo de alienação de si próprio, do seu afeto, do seu fazer, do seu saber. Existe grau profundo de alienação científica. As pessoas só ficam sabendo das novidades da ciência pela televisão, pensam que a ciência é uma religião, uma espécie de Deus que revela novos milagres. É uma alienação cultural, a pessoa não se acha ator do mundo, da sua coletividade, da sua história, da sua cultura. Os pacientes que a gente atende são pessoas que tiveram esse direito expressivo suprimido, violentado, sofreram violência física. Então isso vai comprometendo nossa constituição biológica e psíquica. Na nossa concepção – que segue doutora Nise, Paulo Freire, o neurobiólogo chileno Humberto Maturana, Baruch Espinoza, filósofo do século 17, judeu português nascido em Amsterdã (Holanda) –, as ideias são estados do corpo, a saúde e a cultura são integradas, nós somos uma coisa só. Isso não é novidade nas sociedades originárias, na cultura hindu, africana, oriental, nos índios. Eles trabalham exatamente com essa concepção.

JC – Por que isso não prevalece?

VÍTOR PORDEUS – Difícil pergunta, mas me parece que temos uma indústria farmacêutica, principalmente, poderosa, que controla uma parte da política pública, científica, dos médicos, das escolas de medicina. Na minha escola de medicina não ouvia falar de Nise da Silveira, mas tinha propagandista pagando jaleco, churrasco. O médico saiu da condição de mediar as forças do inconsciente coletivo para mediar o lucro. Você não pode usar a arte de curar para se beneficiar. Você tem que ajudar seus mestres como se fossem seus pais, tem que ajudar seus discípulos como se fossem os filhos, para proteger os médicos das influências. A medicina está prejudicada pela prática comercial. Tem muito dinherista (sic) fingindo ser alquimista, produzindo o ouro de tolo, que leva ao enlouquecimento.

JC – Como deve ser a arte de curar?

VÍTOR PORDEUS – Tem que olhar a história da medicina. Na Grécia, na Idade Média, os pajés, os pais de santos, todos trabalhavam a integração do homem consigo próprio, com a dimensão simbólica, com o invisível, a profecia. Apolo era o Deus da profecia, da poesia e da medicina. A saúde tem a ver com enxergar o futuro, antecipar os problemas, adequar a conduta à natureza, não ir contra seus impulsos. Se você vai contra, dá treta. Quando não consegue, inflama o corpo e a cabeça. A saúde humana é uma condição simbólica, a doença e a política também. Se a gente não olhar os símbolos que estão sendo produzidos, pode levar gato por lebre, comer comida estragada. Temos epidemia de doença mental, de doença crônica. Faço psiquiatria comunitária, transcultural, há três anos temos uma oficina de teatro dentro do hospício. Nós somos práticos, arte-cientistas. No Canadá, numa universidade, há um departamento gigante de psiquiatria transcultural, onde se estuda religião, simbolismo, diferenças culturais entre as doenças mentais. No Brasil, há um ranço farmacêutico, a academia está fazendo pesquisa para vender drogas, patentes, usando dinheiro público para gerar bem privado. O que estamos fazendo para investigar as nossas competências originais? Somos o País da maior biodiversidade.

JC - Como avalia a reforma psiquiátrica?

VÍTOR PORDEUS – Há grupos importantes atuando, mas estamos retrocedendo na política do crack, nas comunidades terapêuticas que são manicômios, na hipermedicalização dos pacientes, tomando remédio em excesso. No Caps, modelo fundamental para atender na comunidade, muitas vezes a prática é manicomial, da camisa de força química. Dopa, dá altas doses, embota o doente. Estamos vivendo um momento perigoso da política mental. A coordenação nacional faz esforços enormes, é antimanicomial, mas essa força cultural é muito grande. Você liga a televisão, é o jaleco branco, propaganda de remédio, de doença. Carlos Drummond de Andrade fala essa receita “Não cantaremos o amor. Cantaremos o medo”... Franco Baságlia, que fez a reforma psiquiátrica na Itália, dizia que o manicômio é a relação que se estabelece entre as pessoas. Tem manicômio na escola, na universidade, na empresa, na família. Qualquer espaço que aniquila as diferenças, que não permite que você coloque suas expressões, seus delírios, seus sonhos, suas fantasias, é manicômio. É uma questão política universal, os espaços de cura, como na Grécia Antiga, deveriam ter teatro, dança, festa, rituais, oráculo, plantas. Você fica mais tranquilo. Favorece a expressão e o desenvolvimento humano. A doença nada mais é do que romper com sua vocação. Mário Pedrosa, critico de arte visual que trabalhou com a doutora Nise da Silveira, falava: “Curado é quem encontra seu destino”. A doença tem a ver com a restrição da sua ação e vocação. Na educação, é o que a gente mais vive: “Fica quieto, menino, não fala, não mexe, fica na sua!”. No nosso teatro, no Engenho de Dentro, a gente canta muito: Saúde não se vende, loucura não se prende, quem está doente é o sistema social!