Em 20 anos o tratamento de pessoas com transtornos mentais mudou no Recife. Manicômios fecharam para dar lugar a Centros de Atenção Psicossocial, residências terapêuticas e espaços provisórios para doentes crônicos. Mas o que tem acontecido nas situações extremas, nas crises agudas, que levam à emergência, e quando o portador do sofrimento vive na rua? A reforma psiquiátrica vai bem? Por outro lado, por que a vida louca se tornou tão presente nos dias modernos, sem espaço para o sono, para o descanso, para o amor, para a arte? Cultivamos essa forma doida de ser e ao mesmo tempo fugimos da convivência com os reconhecidamente malucos. A doença, então, é mental ou social? A repórter Veronica Almeida e o fotógrafo Ricardo Labastier alimentam essa discussão, com narrativas em texto e imagem, trazendo pensamentos e percepções diferentes sobre a questão.

Na emergência da Tamarineira

Era quarta-feira, véspera de feriado, cenário meio atípico, tarde chuvosa, trânsito meio engarrafado lá fora. Visita anterior ao Serviço de Emergência Psiquiátrica do Hospital Ulysses Pernambucano, com escuta prévia de profissionais, deu sinais do que se veria pela frente. Gente no limite da dor, sem saber o que fazer diante da crise e do cansaço, pedindo socorro, uma trégua na conturbada luta.

Foi tudo isso e um pouco mais nas três horas de permanência numa recepção com bancos, TV, banheiro, vigilantes, assistentes sociais e técnicos de enfermagem. Doentes em atendimento nos dois consultórios, além dos outros já em observação nas enfermarias, cinco deles internados com acompanhantes, na chamada sala de articulação, uma novidade.

Do lado de fora algumas mães e pais idosos calados, outros verbalizando o problema social e da saúde pública ainda distante das comunidades: da ausência de Centros de Atenção Psicossocial (Caps) no território de origem à dificuldade para internar alcoolistas e usuários de crack, além dos casos de esquizofrenia e delírios variados.

Ao Serviço de Emergência Psiquiátrica (Sep) do Ulysses, o mais antigo em atividade pelo SUS em Pernambuco, recorrem diariamente doentes resgatados pela polícia na via pública, conduzidos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), bombeiros, familiares ou vizinhos. “Quando não há vaga, os que necessitam de internação psiquiátrica ficam na recepção, aguardando encaminhamento. Já houve dia de termos dez ou 11”, havia explicado, pela manhã, a gerente médica Ruth Bonow Theil. Ela chamou a atenção para a tal enfermaria de articulação, na qual os pacientes ficam com a família. “Os parentes fazem pressão pelo internamento, por dificuldades diversas. É mais fácil trabalhar com a família para que ela se responsabilize pelo tratamento”, explicava o sentido do internamento conjunto temporário.

Quando quase ninguém aguardava a avaliação médica, uma sirene interrompeu a calmaria. Foram apenas vinte minutos de tranquilidade. O som anunciava a chegada da ambulância do Samu de Igarassu, Zona Norte do Grande Recife. A equipe composta por médica, enfermeiro e técnicos de enfermagem trazia um homem franzino, J.M.L, 38 anos, deitado na maca, com pés e mãos atados, acompanhado da cunhada, que falava o tempo todo ao telefone, preocupada com a filha adolescente, de 11 anos. Era a segunda ocorrência daquela equipe naquele dia relacionada a transtorno mental. A outra foi levada ao Caps da cidade.

Enquanto o paciente aguardava atendimento, outras urgências também surgiram trazidas por uma equipe do Samu Recife, uma viatura da Polícia Militar e outra da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase), que abriga adolescente infrator. A PM conduzia uma mulher aparentando 40 anos, algemada, com acompanhamento de uma parenta. As algemas foram retiradas e a paciente ficou presa à cadeira, com faixas de gaze. O veículo da Funase trouxe duas adolescentes. O Samu Recife conduziu até lá um adolescente alto acompanhado pela mãe. Retardo mental na emergência? Sim. Há transtornos associados, havia explicado a diretora do hospital, Benvinda Magalhães, psicóloga que trabalha na unidade desde o início da reforma psiquiátrica.

Passada a perturbação inicial, os acompanhantes começaram a revelar o drama de cada um. L. F., que acompanhava o rapaz de 38 anos, conta que está há menos de um mês em Pernambuco. Veio de outro Estado com o marido, a filha de 11 anos e o cunhado doente, filho adotivo da sogra, falecida há cinco anos. “Ele é epilético, teve convulsões ontem e hoje deu um murro na minha filha, causando um corte grande na boca dela. Meu marido levou a menina à Unidade de Pronto-Atendimento, deixou o trabalho para fazer isso, e não sei agora como voltar, nada conheço por aqui”. Na cidade onde está morando há um Caps, mas a consulta só seria realizada 28 dias depois. “É muito errado. Ele está tomando só uma parte dos remédios porque a médica do posto de saúde não quis renovar a receita que trouxemos.

Antes disso, a mulher e as adolescentes da Funase já tinham deixado o serviço. O garoto com aparente déficit intelectual, 15 anos, já medicado, dormia no colo materno. “Acho que também estou enlouquecendo de tanto sofrer. Às vezes me dá vontade de sair correndo na rua”, confessa J.V. Aos 41 anos, mãe de outros três filhos, ela não esconde, na face, o tamanho do problema social. O garoto é acompanhado no Espaço Azul, o primeiro Caps criado no Estado, que nasceu no Ulysses Pernambucano.

Dor em família

O atendimento na emergência ou a tarde de visitas nas alas do Hospital Ulysses Pernambucano revelam como é cruel perder o juízo e precisar se isolar da realidade por algumas horas, dias ou meses. Mas não é só o doente quem sofre com seus delírios, dependência química, crise de pânico, transtorno de humor ou uma psicose mais grave, como a esquizofrenia. O cuidador também. E ele tem muitas vezes condição delicada, idade avançada, renda pequena e uma solidão que vai além da falta de companhia.

Dona C.M.C., 68 anos, moradora do Recife, servente aposentada é uma delas. Foi visitar o filho de 30 anos, com um semblante de preocupação.

Há duas décadas ela sofre e, nos últimos 11 anos, o tormento é a cada minuto. Tira a fome, altera a voz e deixa um estado de angústia permanente. É assim que ela descreve as sensações. Ainda criança, aos 10 anos, o filho desenvolveu síndrome do pânico. “Tinha medo de tudo. Não saía”. Na juventude, já sem acompanhamento psicológico (“não ficava em nenhum tratamento”), passou a beber, fumar maconha e usar outras drogas. Aos 19 tornou-se agressivo, passou a incomodar os vizinhos e a bater na mãe. Começou então a maratona de repetidos internamentos e o tormento de não poder contar com eles nas crises. Ela buscou ajuda do Ministério Público e espera internamento mais longo. Seis dias depois daquela visita, houve a alta médica. Dessa última vez foram dois meses no hospital, mas C.M.C achou pouco. Quando o rapaz está agitado e agressivo, ela sai de casa à noite, fica na residência da filha. Volta cedo no outro dia, com uma dor no peito, sem saber o que vai encontrar pela frente. Os vizinhos não toleram a perturbação nem as agressões que o filho faz à mãe. Nessas horas, ela acaba ficando do lado dele. “Eu sou mãe!”