Tecnologia e inovação andam lado a lado com a logística. No Brasil, os dois setores são aliados das empresas na estratégia para reduzir de custos. Logística e tecnologia também estão alinhadas no e-commerce. A parceria é peça-chave para encurtar distância entre a loja virtual e o cliente.

 

Do clique à entrega, uma operação de guerra

O youtuber Ricardo Carvalho tem muita intimidade com a internet, mas nem se dá conta da “operação imperceptível” por trás do computador quando faz uma compra virtual. O que acontece depois que ele enche o carrinho e clica em finalizar é determinante para o sucesso das empresas de e-commerce. Sem logística eficiente, não há comércio eletrônico que sobreviva. As lojas virtuais montam verdadeiras operações de guerra para receber os pedidos, separar e despachar as mercadorias e fazer com que elas cheguem nas mãos do cliente em perfeitas condições e no menor tempo possível.

“Tudo isso exige que as empresas tenham um bom planejamento, cuidem da gestão do estoque e sejam rápidas no transporte, seja usando frota própria, seja terceirizada. O cliente que recebe o produto fora do prazo combinado tende a não comprar mais daquela empresa”, alerta o diretor da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), Rodrigo Bandeira. A logística está entre os principais itens de custo dos comerciantes virtuais.

Realizada pela ABComm, a pesquisa Logística no E-Commerce Brasileiro 2017 mostra que o transporte ainda é o maior custo das empresas de comércio eletrônico (58,1%), seguido por armazenagem (21,5%) e mão de obra para manusear os produtos (20,5%). Uma tendência entre as companhias tem sido investir em transporte próprio ou de empresa privada para evitar a dependência dos Correios e o atraso nas entregas.

“É muito frustrante esperar por uma encomenda e ela não chegar. Felizmente tive poucas experiências negativas nesse sentido. Em alguns sites internacionais, em que o prazo de entrega é mais longo, prefiro comprar o que não vou precisar de imediato”, diz Carvalho, que usa com frequência as lojas virtuais para comprar roupas, óculos, eletrodomésticos e acessórios para computador e celular. “Os principais motivos que me fazem preferir comprar na web são comodidade, preço e promoções”, revela.

CRESCIMENTO

Este ano, a expectativa da ABComm é de que as lojas virtuais recebam 220 milhões de pedidos, superando os 214 milhões de 2017. A previsão é que o faturamento cresça 15%, alcançando R$ 69 bilhões. A aposta para 2018 é que os lojistas do comércio eletrônico aprofundem a relação com o cliente, por meio de aplicativos nos dispositivos móveis. A meta é que esse meio responda por 33% dos pedidos. Pelas contas da associação, a retomada da economia também vai fazer o tíquete médio das compras aumentar de R$ 280 para R$ 310 entre 2017 e 2018.

Atualmente, o Brasil conta com 71 mil lojas virtuais, que são responsáveis pela geração de 239,6 mil empregos. O comércio eletrônico tem sido um chamariz para lojas físicas interessadas em aumentar suas margens de lucro. A estratégia vale tanto para gigantes quanto para os pequenos negócios. “Sempre acompanhava notícias de que os negócios virtuais contribuíam para aumentar as vendas e também ficava pensando como inovar no ramo de mercadinho. Foi aí que surgiu a ideia de criar a Grande Mercearia”, conta Marcelo de Melo, 22 anos, que desenvolveu o projeto de um supermercado online junto com o irmão, Moisés de Melo, 24. O negócio começou a funcionar em dezembro do ano passado, atendendo a dez bairros do Recife e 16 de Olinda. O valor mínimo da compra é de R$ 50 e o pagamento pode ser feito no cartão de crédito e em dinheiro. No site, o cliente tem a opção de agendar os horários de entrega, que são realizadas de segunda a sábado. Hoje são cerca de 800 produtos cadastrados, mas a expectativa é ir aumentando.

Os irmãos Marcelo e Moisés de Melo

Os dois dos cinco filhos de Mário Etelvino herdaram do pai o tino para os negócios no ramo de supermercados. Natural de Bom Jardim, Seu Mário mantém há 15 anos o Mercadinho Olindense, na Vila Popular de Olinda. “Se eles se empenharem, o negócio vai dar certo”, aposta. Enquanto não conseguem um galpão próprio, os irmãos aproveitam a estrutura do supermercado. “Nossa logística é mais fácil porque o estoque está na prateleira”, brinca Marcelo, esperando que a empreitada no comércio eletrônico dê certo.

Redução de custos é a tônica da revolução 4.0

A sensação é de estar dentro de um centro de distribuição fantasma, com pilhas de paletes se movendo sozinhas, mas são robôs controlando armazéns. Na Amazon, faz tempo que eles substituíram pessoas e empilhadeiras, numa demonstração de que a revolução 4.0 chegou à logística. E se a atividade é considerada área de custo, tecnologia e inovação são aliadas para cortar despesas. Startups e grandes empresas aproveitam o momento para oferecer soluções, sobretudo para o setor de transporte de carga, que tem o maior custo logístico. Em 2016 (dado mais recente disponível), foram gastos R$ 416 bilhões, representando 6,6% do PIB.

Fundada em 2014, a pernambucana Fusion aproveitou a busca das empresas por mais eficiência na gestão de entregas e desenvolveu uma solução integrada para indústrias, varejistas, atacadistas e distribuidores. “O software Fusion DMS é capaz de reduzir o custo das entregas em até 30%. A solução traz módulos como roteirização, monitoramento automático, aplicativo para o motorista realizar o check in e check out das entregas, gestão de jornada de trabalho (que passou a ser obrigatória depois da ‘lei do motorista’) e gestão de produtividade da equipe de entrega”, enumera o CEO da Fusion, Emílio Saad.

O executivo explica que o diferencial está no pacote completo, já que o mercado vinha oferecendo soluções isoladas. Na prática, os ganhos vêm da redução da quilometragem rodada pela frota, da diminuição dos desvios cometidos pelos motoristas e da escolha do melhor porte dos veículos para movimentar a carga. Saad afirma que outra vantagem do sistema é o fato de funcionar com contrato de serviço, sem obrigar o cliente a fazer um alto investimento no software, além da possibilidade de cancelar o contrato se não ficar satisfeita com o resultado.

A Fusion, que começou pequena e chegou a ser acelerada pelo Cesar em 2015, hoje vive um momento de crescimento exponencial. Em 2017 saltou da marca de 80 para 200 clientes e este ano quer conquistar mais 180. A empresa atua em todo o Brasil, com exceção dos Estados do Amapá e de Roraima. “Até 2020 nossa meta é alcançar mil clientes”, aposta, acreditando na recuperação da economia. “A crise ensinou os empresários que é preciso reduzir custos”, diz.

Na Symbolus Transportes, com sede em Jaboatão dos Guararapes, a estratégia para driblar gastos é fazer investimento em tecnologia. Com uma frota própria de 90 veículos e 50 motoristas, a transportadora mantém um software de monitoramento da frota e aparelhos inteligentes que permitem manter conexão em tempo real com os motoristas. “Nosso investimento mensal em tecnologia chega a R$ 30 mil, mas se reflete em redução de custo”, afirma o diretor Eduardo Pimenta.