Pernambuco é um Estado geograficamente conectado. Localizado a 800 quilômetros de sete capitais no Nordeste e porta de entrada e saída para vários continentes, tem uma vocação natural para a logística. Prestes a completar 40 anos, o Porto de Suape é um trunfo do Estado nessa área.

 

Suape: Pernambuco na rota do desenvolvimento

Nas suas andanças por Pernambuco nos anos 1950, o padre Lebret “profetizou” que o caminho para o desenvolvimento local estava na implantação de um porto-indústria. Naquela época, a economia vivia do açúcar e era quase um desvario imaginar que a ideia do economista e dominicano francês vingasse. Quase três décadas depois, no final dos anos 1970, o porto-indústria virou realidade. Hoje prestes a completar 40 anos (em novembro), o Complexo Industrial Portuário de Suape se transformou no principal polo de investimentos e ativo logístico do Estado.

Distante 50 km do Recife, o complexo ocupa uma área de 13,5 mil hectares (o equivalente a três cidades como Olinda), abriga 100 indústrias, concentra R$ 50 bilhões em investimentos e gera emprego para 22 mil pessoas. Os números grandiosos são compatíveis com o tamanho da expectativa do Estado, que enxerga em Suape uma janela para o futuro.

Combustíveis, óleos e derivados de petróleo representam 74% da movimentação do Porto de Suape

Considerado um dos melhores portos públicos do Brasil, Suape reforça a vocação logística de Pernambuco. Com posição geográfica estratégica, o Estado se conecta com sete capitais do Nordeste e é porta de entrada e saída para o mercado internacional. “Se traçarmos um raio de 800 km a partir do Recife, vamos encontrar várias cidades nordestinas e um mercado consumidor de 46 milhões de pessoas, que representa 90% do PIB da região”, dimensiona o presidente de Suape, Marcos Baptista.

Marcos Baptista: “Suape superou a crise e registrou movimentação recorde em 2017”

Na área do porto, o vaivém dos navios não pára nos 365 dias do ano. São pelo menos 135 embarcações por mês, trazendo e levando cargas do Brasil e do mundo. No ano passado, 23,8 milhões de toneladas passaram pelo complexo, um recorde nesses 40 anos de história. “Pelo menos na operação portuária, Suape não enfrentou a crise e viu a movimentação de cargas crescer ano a ano”, comemora Baptista.

Esse desempenho se explica, em boa parte, pela entrada em operação da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), no final de 2014, que turbinou a movimentação de combustíveis, óleos e derivados de petróleo no porto. Hoje, esses produtos representam 74% da movimentação, colocando Suape no topo do ranking nacional desse tipo de carga. O crescimento foi tanto, que as empresas Decal, Pandenor, Tequimar e Temape estão investindo, juntas, R$ 540 milhões para ampliar a capacidade de armazenagem de seus parques. Na movimentação de combustíveis, também chama atenção o gás de cozinha, que entra por Suape para atender a todo o Brasil.

E se a Rnest puxou o desempenho dos combustíveis, a montadora da Jeep em Goiana fez crescer a movimentação de veículos, transformado Suape no maior operador do Norte e Nordeste. No ano passado, 80 mil carros passaram pelo complexo, num aumento de 46% sobre 2016. Além das exportações da Jeep, a Toyota e a GM importam pelo porto. A nova carga atrai para Suape navios como o Apollon Highway, com capacidade para transportar 7,5 mil veículos. Com 13 andares, a embarcação se parece com um grande estacionamento.

Na área industrial, Suape concentra os polos naval, de alimentos, bebidas, plásticos, construção, metalmecânica e componentes eólicos. Na época do boom de investimentos, o governo do Estado chegou a ser mais seletivo, privilegiando empresas que precisassem utilizar o porto na sua estratégia de negócios. Com a crise, a busca por terrenos minguou, mas a aposta é que o complexo acompanhe a retomada da economia.

PLANEJAMENTO

Se as oportunidades são muitas, maiores são os desafios de Suape para investir em infraestrutura, atrair empresas, crescer com responsabilidade socioambiental e estimular o desenvolvimento do mercado consumidor na região. Nos planos de expansão, estão a implantação do segundo terminal de contêineres (Tecon 2), o arrendamento do pátio de veículos para a iniciativa privada, a conclusão da ampliação do parque de tancagem, o início da operação de cinco pátios para caminhões e a inauguração da fábrica da Aché.

“Não podemos esperar o crescimento da demanda se consolidar para prover a infraestrutura. Ela tem que vir antes, por isso, precisamos licitar o Tecon 2 agora”, pondera Baptista. O investimento tem valor estimado em R$ 1 bilhão e capacidade para movimentar 1 milhão de TEUs (medida padrão para contêiner de 20 pés).

Condomínios são verdadeiros "shoppings logísticos"

O Porto de Suape colocou Pernambuco na rota dos condomínios de negócios, que se multiplicaram no Brasil nos últimos anos como alternativa às indústrias em busca de eficiência logística. São plataformas que facilitam a armazenagem e distribuição de produtos, uma atividade que representa cerca de 15% do custo das empresas. Localizado entre os municípios de Jaboatão dos Guararapes e Cabo de Santo Agostinho, o Cone – Condomínio de Negócios surgiu com a proposta de oferecer soluções integradas aos clientes.

“O Cone tem uma característica multimodal porque está próximo a rodovias, porto, aeroporto e ainda há a perspectiva da ferrovia (Transnordestina). Um condomínio de negócios funciona como se fosse um shopping da logística, que ao invés de ter lojas, tem empresas que guardam seus produtos antes de chegar ao consumidor”, explica o presidente do Cone, Marcos Roberto Dubeux. Hoje o empreendimento tem 77 empresas instaladas e gera 6 mil empregos diretos.

A Império Móveis e Eletros foi um das que decidiram aportar no Cone. A partir de sua central de distribuição com 4 mil metros quadrados, a varejista abastece suas duas lojas localizadas nos shoppings RioMar e Recife. Vinte e seis funcionários dão conta da operação. “Daqui controlamos o estoque, acompanhamos a demanda das lojas e garantimos a entrega dos produtos no tempo combinado com o cliente”, diz o supervisor de armazenagem, Ronaldo Tavares, lembrando que a eficiência logística é um importante diferencial competitivo para o varejo.

Os condomínios de negócios vieram se juntar aos 78 centros de distribuição (CDs) instalados no Estado com benefício do Programa de Desenvolvimento de Pernambuco (Prodepe) entre 2010 e 2017, de acordo com a Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (AD Diper). Um empreendimento recentemente anunciado é o CD do Grupo Saraiva & Siciliano, que vai aportar no Cabo de Santo Agostinho com investimento de R$ 2 milhões. A estrutura vai atender às lojas físicas da empresa no Nordeste e à operação de e-commerce no Brasil. A expectativa é que comece a operar no primeiro semestre e gere 60 empregos diretos.

DEBATE

As oportunidades e os gargalos logísticos de Pernambuco serão discutidos no seminário Logística e Inovação, que acontece nesta segunda-feira (12), no Teatro RioMar, das 9h às 13h. Realizado pelo Cone, o evento terá a apresentação da “Carta dos Portos”, com sugestões para o setor público sobre dificuldades enfrentadas pelos representantes do setor logístico no Estado. O documento foi elaborado durante reuniões do Comitê de Logística da Amcham ao longo dos últimos dois meses. As inscrições para o encontro estão abertas no site do evento.

Tecon Suape quer ser o terminal mais eficiente do Brasil

O executivo argentino Javier Ramirez fala com serenidade da missão de transformar o Tecon Suape no terminal mais eficiente do País. Na presidência há menos de um ano, herdou o desafio de “sacudir” a gestão do empreendimento. “Logística é a arte de fazer acontecer de forma eficiente. E eficiência é fazer mais com menos”, ensina, garantindo que o conceito faz parte da rotina do Tecon.

Javier Ramirez: “Nossa missão é transformar o Tecon no terminal mais eficiente do Brasil”.

Operando no Estado desde 2001, o terminal é responsável por 18% da movimentação do Complexo de Suape, colocando a carga conteinerizada em segundo lugar no ranking do porto. No ano passado, foram movimentados 464,4 mil TEUs (unidade padrão para contêineres de 20 pés), com aumento de 18,9% sobre 2016.

Com uma base de crescimento alta em 2017, a projeção para este ano é avançar 6%. “Suape tem todos os ingredientes para virar um porto de cacife mundial. E o Tecon é uma peça fundamental nessa estratégia, porque funciona como um catalizador do comércio exterior de Pernambuco”, defende Ramirez.

Hoje o porto acompanha o perfil da balança comercial pernambucana, que historicamente teve uma tendência importadora. Das cargas movimentadas pelo Tecon, 36% são de cabotagem (entre os portos do País), 18% de importação, 12% de transbordo (de um navio para outro) e apenas 8% de exportação. As principais cargas movimentadas pelo terminal são resinas PET e peças para a indústria automotiva.

Considerado pela Associação Brasileira de Terminais de Contêineres de Uso Público (Abratec) como o segundo com maior produtividade líquida do Brasil, atrás apenas de Paranaguá (PR), o Tecon consegue movimentar 30 contêineres por hora, o que significa um a cada dois minutos. Com 935 metros de cais, tem capacidade para operar até três navios simultaneamente. “Recebemos entre 40 e 45 embarcações por mês e temos capacidade para movimentar 700 mil TEUs por ano”, afirma o executivo.

No plano de negócios da companhia, a expectativa é investir R$ 290 milhões em equipamentos e tecnologia até o prazo final do contrato, em 2031. “Nosso planejamento é renovar a parceria e continuar no Estado. Temos uma contribuição a dar”, conclui.