Apesar de ser um país de dimensões continentais, quase 65% do transporte de cargas no Brasil é feito pelas estradas. E são muitos dos desafios pelo caminho: rodovias precárias, assaltos, congestionamentos e protestos. Tudo isso faz com que o custo logístico suba e os produtos fiquem mais caros para o consumidor.

 

Custo logístico encarece produtos no Brasil

Quando você compra uma geladeira por R$ 2 mil, algo em torno de R$ 172 fica, literalmente pelo caminho, para pagar despesas com transporte, armazenagem e estoque. É o chamado custo logístico, que no País representa 12% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto nos Estados Unidos não passa de 7,5%. Essa diferença se explica pela ineficiência do Brasil no setor, que aparece em 55o lugar no ranking de desempenho logístico do Banco Mundial, realizado com 160 países e liderado atualmente pela Alemanha. Na prática, a baixa performance reflete a precariedade das rodovias, a falta de segurança, os congestionamentos no labirinto urbano das cidades e a burocracia. Para o consumidor, tudo isso se reverte em “inflação logística”.

Trânsito e precariedade das estradas dificultam o transporte dos produtos

Especializada no transporte de produtos químicos, a Symbolus Transportes vive uma maratona diária pelas estradas. Com 16 anos de mercado, a empresa localizada em Jaboatão dos Guararapes atende a indústrias de todo o País. “Os maiores desafios das transportadoras hoje são a qualidade das estradas, o trânsito, a burocracia e os roubos. A situação está complicada em todo o País e Pernambuco tem um dos piores cenários. Isso reflete no aumento dos custos e, consequentemente, no preço final dos produtos para os clientes”, afirma o diretor da Symbolus, Eduardo Pimenta.

Eduardo Pimenta: “Aumento do custo logístico reflete nos preços dos produtos"

Para exemplificar a paralisia nas estradas, ele conta que precisou aumentar de seis para oito carretas a frota de atendimento a um cliente para percorrer uma distância de 35 km entre Jaboatão e Igarassu. “É uma rota curta, mas completamente congestionada, que nos fazia ter uma perda de produtividade de 30%. Por isso, a solução foi ampliar o número de caminhões”, observa. O empresário também reclama das condições da BR-101, que obriga a empresa a elevar as despesas com pneus e manutenção.

A lista de problemas não pára por aí. Em função do crescimento do roubo de cargas no País, a empresa precisou aumentar o custo com seguros de quatro de seus caminhões dedicados a realizar rotas no Sudeste, onde os assaltos são mais frequentes. “Nosso tipo de carga não tem muito interesse para os bandidos porque são produtos muito específicos e de difícil comercialização, mas não estamos livres. Temos conhecimento de empresa parceira que os ladrões não se interessaram pela carga, mas levaram os 26 pneus da carreta, deixando um prejuízo de R$ 30 mil”, conta Pimenta. Em 2016, a Symbolus teve um prejuízo de R$ 70 mil com o roubo de uma carga de resinas. O motorista foi abordado na BR-101 Sul e depois apareceu sem a carga em Caruaru.

No volante há 17 anos, o motorista Cristiano Lopes, 39 anos, diz que as estradas vêm amedrontando mais nos últimos anos. “Antigamente a gente rodava mais sossegado, mas hoje a violência é grande. A programação do caminhão é feita para passar em áreas de risco pela manhã, porque quando escurece é hora de parar o caminhão. Alguns trajetos são mais longos e atrasam a viagem, mas é o certo a fazer para garantir a segurança”, resigna-se.

Segundo Joint Cargo Committee, entre 2014 e 2017, as ocorrências de roubos de carga explodiram de 3.537 para 10.599, com o valor das perdas saltando de R$ 855 milhões para R$ 1,9 bilhão.

Motorista há 17 anos, Cristiano Lopes se preocupa com a insegurança nas estradas

Apesar das dificuldades, a Symbolus registrou crescimento de 15% em 2017 e espera repetir o feito este ano. “A crise deixou a lição aos empresários de que é preciso ter uma operação do tamanho certo. Nós não demitimos ninguém no período da crise, mas reduzimos custos negociando a compra direta de pneus e combustíveis com fornecedores, por exemplo. Do lado da receita, tivemos aumento com a diversificação de cargas”, comemora Pimenta.

A Symbolus é uma pequena peça da cadeia logística brasileira, mas sua história espelha a realidade do setor de transportes. A atividade deverá voltar a crescer este ano, mas essa arrancada virá junto com mais aumento de custos. Isso porque o crescimento dos volumes demandará investimentos em infraestrutura, que andaram em marcha a ré nos últimos anos. Números do Plano de Transporte e Logística realizado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostram a necessidade de o País investir R$ 240 bilhões para resolver o problema da mobilidade apenas nas grandes cidades. E de acordo com o Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), o custo logístico vem avançando, tendo saltado de R$ 750 bilhões para R$ 790 bilhões entre 2016 e 2017.

Navegação de cabotagem é alternativa à paralisia das estradas

O Brasil tem 7,5 mil quilômetros de costa navegável e 34 portos espalhados pelos estados, mas o transporte marítimo está longe de ser prioridade no País. As cargas brasileiras rodam mesmo sobre caminhões. Levantamento do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos) aponta que o modal rodoviário representa 62,8% da matriz nacional de transportes, seguido pelo ferroviário (21%) e pelo aquaviário (12,6%). A explicação está na preferência cultural pelas estradas - reforçada pela industrialização durante o governo Juscelino Kubitschek (1956-1961) - e na falta de infraestrutura dos outros modais.

Apesar do predomínio dos caminhões, a cabotagem (navegação entre portos do mesmo país) vem crescendo nas duas últimas décadas. A expansão faz sentido diante da deteriorização das estradas brasileiras e da necessidade das empresas de buscarem novas alternativas para ganhar eficiência. Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) sobre a situação das rodovias brasileiras mostra que 20,1% são ruins; 8,1% péssimas, 33,6% regulares e apenas 29,3% boas e 8,9% ótimas. Há um potencial marítimo a ser explorado porque a cada contêiner transportado pela cabotagem existem outros 6,5 com capacidade de migrar para a navegação costeira.

Na lista de vantagens de apostar a cabotagem, as empresas donas dos navios apontam a menor emissão de gases poluentes, a redução de custos de até 15% em relação ao modal rodoviário e a diminuição dos riscos de assaltos.

No Porto de Suape, a cabotagem representa 36% das operações do Tecon. Líder na navegação de cabotagem no Brasil, a Aliança contribuiu para turbinar o desempenho do atracadouro no ano passado. O gerente da companhia no Nordeste, Norbert Bergmann, diz que se surpreendeu com o crescimento de 50% sobre 2016.

“Além do processo de recuperação da economia, a crise também obrigou as empresas a sair de sua zona de conforto e buscar outros modais para reduzir custos. Esse movimento fez com que tivéssemos um crescimento de até 15% na cabotagem para distâncias a partir de 1,5 mil quilômetros”, comemora. Os setores de plásticos, cimento, químicos, petroquímicos e vidreiro foram os que mais andaram de navio.