As Paixões de José Pimentel, o eterno Jesus

O JC preparou um hotsite especial em homenagem ao ator e diretor Jose Pimentel, o eterno Jesus Cristo do teatro pernambucano



Toda a paixão de José Pimentel

O ator, diretor, dramaturgo, produtor e professor aposentado de Teatro da UFPE José Pimentel faleceu nesta terça-feira (14), aos 84 anos, após seis dias internado na UTI do Hospital Esperança Recife, na Ilha do Leite, em decorrência de um enfisema pulmonar. O eterno intérprete de Jesus Cristo da Paixão de Cristo do Recife e precursor da Paixão de Nova Jerusalém foi internado no dia 8 de agosto. No sábado (11), passou a respirar por ajuda de aparelhos e a fazer hemodiálise. Ele deixa a esposa Aurinete e a filha, Lilian Pimentel.

A saúde de Pimentel começou a dar sinais de fragilidade em 2016, quando ele se submeteu a uma cirurgia de hérnia inguinal e teve uma piora em seu quadro clínico quando estava prestes a receber alta, sendo constatada uma embolia pulmonar. Na época, ele ficou cinco dias na UTI. Recuperado, voltou suas atenções à Paixão de Cristo do Recife e à peça Massacre de Angicos – Morte de Lampião, em Serra Talhada.

Resistência é a palavra que define Pimentel em seus últimos anos, quando lutava contra as adversidades para se manter, íntegro, como um homem de teatro. A grande dificuldade foi vencer o desafio de colocar a Paixão do Recife nas ruas, espetáculo algumas vezes ameaçado de não acontecer, inclusive na última edição, por questões orçamentárias. O ator e diretor encerrou a temporada deste ano prometendo melhoras. “Vamos tirar algo bom desses problemas. Tenho muita vontade de voltar com algo novo e espero que a equipe não perca o fôlego. Não quero deixar a Paixão morrer”, declarou, à época.

Para grande parte dos atores, dar vida ao mesmo personagem por longo tempo é correr o risco do estigma. Ficar marcado por um papel não permitiria a versatilidade, a capacidade de mimese e transformação exigida pela profissão. Para Pimentel, o risco jamais se configurou num problema. Ele viveu Jesus Cristo desde 1978. Começou na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém e seguiu até 1996.

No ano seguinte, organizou a Paixão de Cristo do Recife, seguindo no papel até 2017, quando se viu obrigado, após 40 anos, a ser substituído pelo ator Hemerson Moura na edição 2018. A versão do Recife começou no Estádio do Arruda, chegou a ser realizada no Clube Português, e se mudou para o Marco Zero. Pimentel viveu sua própria via-crúcis ao tentar implementar sua visão à obra em meio à dificuldades de patrocínio e críticas à sua idade. No entanto, como afirmou, esta cruz ele carregou até o fim.



Vídeos


José Pimentel na TV JC

José Pimentel, no Ponto de Entrevista

Paixão de Cristo do Recife já tem novo Jesus

José Pimentel convida para 15ª Paixão do Recife



Uma vida marcada pelo Jesus das Paixões de Cristo

Há artistas que se incomodam em serem eternamente associados a um personagem. Não foi o caso de José Pimentel. Aos 83 anos, o ator e diretor viveu o Nazareno pelo 41º ano – 19 deles em Nova Jerusalém e 21 na Paixão de Cristo do Recife.

Além de lidar com questões da própria saúde, Pimentel viveu a própria via-crúcis ao tentar implementar sua visão à trajetória de Jesus em meio a dificuldades de patrocínio e críticas pela idade. “As pessoas têm preconceito, mas o artista não tem idade. Você vê uma Bibi Ferreira no palco e é um estouro. O pessoal brinca que eu deveria interpretar Matusalém. Eu respondo: posso fazer também”, diz, Pimentel, que prometeu carregar a cruz até o fim. A primeira vez em que foi à Fazenda Nova, em 1956, não tinha ideia de como o espetáculo determinaria sua vida e carreira. “Na época, eu era halterofilista. Então, fui chamado por Octávio Catanho (ator, diretor e cenógrafo) para vestir a roupa de romano e mostrar os músculos”, lembrou, entre risos.

O envolvimento com o projeto cresceu e, em 1961, escreveu Jesus, o Mártir do Calvário. Em 1962, com o sucesso, Plínio Pacheco optou por criar Nova Jerusalém. Pimentel participou do projeto. Em 1969, um ano após a abertura da cidade-teatro, substituiu Clênio Wanderley na direção e começou a implementar mudanças, como o uso de áudios pré-gravados. A partir de 1978, passou a conciliar a função com o papel de Jesus – no qual ficaria até 1996. “Nova Jerusalém foi importante para mim enquanto durou. Dei minha vida ali dentro e tudo que acontece lá, em grande parte, fui eu quem implantei, decidi. Mas, os louros dessas coisas ficaram para outras pessoas. Nem gosto de falar porque me faz mal”, dizia, ressentido.

Articulado e persistente, Pimentel estreou a Paixão de Cristo do Recife em 1997. O evento, gratuito, chegou a reunir 30 mil pessoas por dia no Marco Zero. Ele ainda encenou outros dramas históricos ao ar livre, como A Batalha dos Guararapes e O Calvário de Frei Caneca, pelas ruas do Centro do Recife; A Revolução de 1817, encenada em 2008; O Massacre de Angicos – A Morte de Lampião, em Serra Talhada; e Auto de Natal, no Marco Zero. Era um homem de teatro público, sem barreiras, para multidões.





Versatilidade era sua marca

A versatilidade sempre foi uma marca na trajetória de José Pimentel, antes e durante a vivência de Cristo no auto popular de Natal. “José Pimentel participou de toda a evolução do teatro pernambucano, a partir dos anos 1950. Foi ator, autor, diretor, sonoplasta, iluminador, um homem que respirava teatro. Esteve em momentos-chaves, como na estreia de O Auto da Compadecida, com o Teatro Adolescente do Recife”, diz o jornalista e escritor Cleodon Coelho, autor da biografia José Pimentel – Para Além das Paixões, lançada pela Cepe.

“Ele foi atuante no Teatro Popular do Nordeste e no Teatro de Arena, sob o comando de Hermilo Borba Filho. Fez muito teleteatro na TV Jornal. São dele, por exemplo, dois espetáculos épicos que fizeram história: A Batalha dos Guararapes e O Calvário de Frei Caneca. Muita gente pensa que Jesus Cristo foi sua única glória, mas o teatro pernambucano não seria o mesmo sem ele. O palco era a verdadeira casa dele”, segue Cleodon.

Primogênito de quatro irmãos, José Pimentel nasceu em 1934, em Garanhuns. Passaria a infância mudando de cidade em função do temperamento imprevisível do pai, Virgínio, que mudava de CEP a cada desavença com colegas e vizinhos. Do pai, Pimentel herdou o fascínio pelo imaginário do cangaço. Tinha apenas dez anos quando o pai morreu e a família, sem o patriarca, se mudou para o Recife.

Na capital, uma coincidência do destino lhe facilitou a sensibilidade artística. Como aluno da Escola Comercial Prática, teve Ariano Suassuna como professor de português, um mestre que se tornaria mentor. Os caminhos de ambos voltariam a se cruzar: Pimentel participou da primeira – e elogiada – encenação do Auto da Compadecida, em 1956. Mas não pôde ali se dedicar ao teatro. Era arrimo de família, precisava se ocupar com o que mais rapidamente lhe oferecesse renda. Aí, conciliou os serviços técnicos com o halterofilismo, outra de suas paixões. Foi substituindo a timidez pelo o culto ao corpo. Participando de competições, ganhou um troféu de “Melhores Pernas”. Com seu corpo, começa a aparecer na imprensa do Recife.

Foi, então, convidado pelo amigo Octávio Catanho, o Tibi, que também era amigo dos diretores Luiz Mendonça e Clênio Wanderley, a participar do Calvário da Paixão, nas ruas de Fazenda Nova, interpretando um soldado romano. Voltou do Brejo da Madre Deus com novo fôlego.

Com Catanho, integraria o Grupo Paroquial de Água Fria e atuaria como Pilatos, na Paixão de Cristo do bairro. O coletivo monta, então, Lampião, de Rachel de Queiroz, no Teatro de Santa Isabel: é seu primeiro contato com o palco à italiana.

A imprensa não perdoou os vários problemas da encenação. O que não abalou sua empolgação com o teatro. Através de Clênio e de Luiz Mendonça, integra a montagem de O Auto da Compadecia. Ali, experimenta o sucesso pela primeira vez. A montagem tinha inovações: o elenco entrava em cena pela plateia. Durante os anos em cartaz, com temporadas no Rio de Janeiro, ganhou elogios de gente consagrada, como a atriz Fernanda Montenegro.

A partir da década de 1960, integra o Teatro Popular do Nordeste, o histórico grupo capitaneado por Hermilo Borba Filho. Aplicando conceitos da cultura popular, o grupo buscava a construção de uma nova gramática teatral, distante das estratégias rígidas e vigentes, importadas do teatro europeu. A atuação de Pimentel chama a atenção dos críticos. Vieram sucessos como Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri; A Farsa da Boa Preguiça, de Ariano; O Noviço, de Martins

Galã de TV e Cinema

Nos anos 1960, Pimentel se tornaria um dos rostos mais conhecidos de Pernambuco. Como teleator, participou de trabalhos na TV-Rádio Clube e TV Jornal do Commercio. As telenovelas começavam a se tornar uma febre nacional. No Recife, Pimentel foi um de seus primeiros galãs. A Moça do Sobrado Grande é o auge desse processo.

Cinéfilo, Pimentel deu seu primeiro passo no cinema em 1965, quando atuou em Riacho de Sangue, filme sobre o cangaço que ativou as memórias das histórias contadas pelo pai. Encenou ainda A Noite do Espantalho, de Sérgio Ricardo, Faustão, de Eduardo Coutinho, e A Batalha dos Guararapes, que inclusive, inspiraria o espetáculo épico que ele dirigiu anos depois.



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