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Um novo ciclo econômico

A implantação da fábrica da Fiat Chrysler Automobiles (FCA), em Goiana (Zona da Mata Norte de Pernambuco), inaugura um novo ciclo econômico no município e em Pernambuco. Nas terras onde secularmente brotou cana-de-açúcar, agora está plantada a indústria mais moderna do grupo ítalo-americano no mundo. Com investimento de R$ 7 bilhões, o Polo Automotivo Jeep é integrado por uma montadora e um parque de 16 empresas fornecedoras.

Hoje 4.500 pessoas trabalham no polo e a expectativa é que esse número cresça para 9 mil no pico de operação do complexo industrial. A fábrica tem capacidade para produzir 250 mil veículos por ano. Do parque industrial moderno com ares futuristas poderão sair 45 carros por hora. O primeiro modelo fabricado na montadora é utilitário-esportivo Renegade.

Um dos diferenciais do polo é a presença de 16 empresas fornecedoras, que vão entregar peças e componentes como pneus, painéis, bancos, vidros, suspensão e mecanismos. Essas companhias serão responsáveis por fornecer 40% do conteúdo nacional do carro. Outros 30% virão de empresas de outros Estados e o restante será importado.

Polo Jeep

Integra um parque de 16 fornecedores

Vidros

São fornecidos pela Saint-Gobain

Ar-condicionado

Fica a cargo
da Denso

Painéis

São montados pela Magneti Marelli

Pneus

São montados pela Pirelli

Bancos

Saem da fábrica
da Lear

Painel da porta

Fornecido pela
Faurecia

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A garra pernambucana traz bons resultados

O vice-presidente mundial de manufatura da FCA, Stefan Ketter, chegou a Pernambuco em julho de 2013 com a missão de implantar um polo automotivo numa região sem tradição industrial. Hoje inaugura o empreendimento, enaltecendo a garra do povo pernambucano.

JORNAL DO COMMERCIO – O que mudou na estratégia do grupo para que o projeto inicial de uma fábrica da Fiat se transformasse no Polo Jeep?
STEFAN KETTER – Nós tínhamos a fábrica de Betim com uma capacidade de produção muito alta, fazendo três carros a cada minuto. Mas cogitamos aumentar a capacidade para acompanhar o mercado brasileiro e da América do Sul. A discussão era aumentar a capacidade com uma segunda planta. A definição de brand, de qual serão os carros, isso sempre é feito no último momento. Aconteceram muitas discussões e cogitações, mas foi decidido o brand quando tivemos certeza de quais eram os maiores potenciais de mercado, os melhores business case. E decidimos por Jeep. E em seguida o Renegade.

JC – Um dos maiores desafios do empreendimento em Goiana foi erguer um polo que integrasse montadora e fornecedores. O setor automotivo está em crise. Fechou com queda de 7,1% nas vendas em 2014 e há projeção de retração de 13% para este ano. Foi difícil atrair investimento dos sistemistas nesse cenário adverso?
KETTER – Os fornecedores são parceiros nossos de mais longa data e foram escolhidos à mão. Eles tiveram a confiança, como nós também tivemos no projeto, de nos acompanhar nesse desafio. Não teve grande dificuldade. Eles também tiveram oportunidade de marcar presença no Brasil, a partir da implantação de uma fábrica tão moderna e com uma produção de carros num segmento de grande potencial de mercado. O parque é pensado a partir do que queremos ter do lado da fábrica e de uma estratégia logística. Quanto maiores e mais pesados os componentes, quanto mais a logística for custar, melhor é trazer isso para perto da fábrica. Como por exemplo pára-choques pintados, rodas, bancos. Manufaturar tudo isso ao lado é mais vantajoso.

JC – O projeto do segundo parque de fornecedores está de pé? Qual a previsão de implantação, qual a localização e que empresas deverão encampar o projeto?
KETTER – O segundo parque de fornecedores está em trabalho e muito rapidamente nós vamos fazer o lançamento. A localização ainda não posso adiantar, mas estará a cerca de 20 quilômetros da planta. Um exemplo são os fornecedores dos nossos fornecedores. Eles têm interesse que alguns componentes estejam locados perto deles. Outros são fornecedores estratégicos, como os de ferramentais, de manutenção de ferramentais ou, inclusive, de componentes de instalação de processos que querem marcar presença aqui.

JC – Que tipo de revisão a FCA precisou fazer na sua estratégia logística para minimizar os problemas ocasionados pela falta da obra do Arco Metropolitano?
KETTER – Não tendo o Arco, nós trabalhamos junto ao governo de Pernambuco para viabilizar rodovias estaduais no entorno. Temos uma estratégia de escoamento através de outros fluxos, que não são pela BR nem pelo inexistente Arco. Dá para sobreviver? Dá. É muito eficiente? Não. Mas a localização de Pernambuco foi escolhida não só pela logística do Arco, mas pela posição que tem no Brasil, além da proximidade com o Porto de Suape e do potencial do Nordeste.

JC – Depois de cumprir a missão de implantar o Polo Jeep aqui no Estado, qual será o próximo desafio do senhor no grupo? Vai seguir para implementar a fábrica da China?
KETTER – Do meu destino ainda não tenho ideia. Primeiro, vou tirar férias (risos). Não muitos dias, mas pelo menos uma semaninha para dormir bem. Depois, veremos quais serão os desafios.

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Um celeiro de inovações

O salto tecnológico para Pernambuco com a chegada do Polo Automotivo Jeep vai além da fabricação de veículos. O Estado vai abrigar o quarto Centro de Pesquisa, Desenvolvimento, Inovação e Engenharia Automotiva do grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA) no mundo, semelhante aos existentes em Betim (MG), Auburn Hills (EUA) e Turim (Itália). O centro deve ser instalado na antiga Fábrica Tacaruna, no Recife, desativada há mais de duas décadas. O orçamento do projeto está em discussão e a previsão é inaugurar dois anos após a doação do prédio à companhia pelo governo do Estado, que depende de aprovação de projeto de lei pela Assembleia Legislativa.

Além do complexo industrial, o Estado se beneficia do valor intangível do conhecimento tecnológico e da inovação. Serão 500 profissionais, principalmente engenheiros, criando inovações tecnológicas em áreas como chassis, carroceria, interiores, eletroeletrônica, design, softwares ­– dentro de um veículo há milhares de linhas de códigos, que calculam combustível, conectam o automóvel à fábrica, atendem aos comandos dos usuários...

A fábrica da Jeep por dentro tem cara de filme de ficção científica. Robôs soldam carrocerias, num bailado sincronizado de braços mecânicos. Homens supervisionam esses “operários-máquina”. Outros robôs equipados com câmeras fazem o controle de qualidade. E a partir de um centro de comunicação é possível acompanhar todo o funcionamento da montadora.

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Na briga dos SUVs

O modelo fabricado em Goiana, o Jeep Renegade, é o primeiro lançamento de grande volume da marca no Brasil e a estreia da empresa no segmento de SUVs compactos. A meta é alcançar a liderança no Brasil desse mercado hoje comandado pelo Ford EcoSport, seguido pelo Duster, da Renault.

Um dos diferenciais do Renegade será o motor diesel, que os concorrentes não oferecem. O diretor da marca para a América Latina, Sérgio Ferreira, diz que o Renegade reinventa a categoria dos utilitários-esportivos pequenos. “Ele não deriva de nenhum carro de passeio. Foi projetado desde o início para ser um SUV compacto, o que faz dele o modelo mais adequado para rodar na cidade, na estrada ou no off-road”, diz.

A empresa terá no Brasil 120 pontos de venda exclusivos. No Recife são cinco concessionárias, comandadas pelos grupos Fiori, ViaSul e Sael. O jipinho está disponível nas versões Sport, Longitude e Trailhawk,com preços de R$ 69,9 mil a R$ 116,9 mil. Em inglês, Renegade carrega o significado de rebelde. Ele será o menor e mais barato da linha Jeep, o primeiro da marca a oferecer opção de tração 4x2 (na versão mais barata). O motor pode ser 1.8 flex ou 2.0 turbodiesel. O câmbio pode ser manual, automático de seis marchas ou automático de nove marchas.

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Uma alavanca para a economia

O investimento de R$ 7 bilhões no Polo Automotivo Jeep, em Goiana, vai alavancar a economia de Pernambuco. Diagnóstico socioeconômico encomendado pelo governo do Estado à Consultoria Econômica e Planejamento (Ceplan) e à Diagonal Transformação de Territórios aponta que o setor automotivo terá um impacto de 6,5% no Produto Interno Bruto (PIB) pernambucano em 2020.

A indústria automotiva é uma atividade de cadeia produtiva longa, que demanda insumos e componentes de muitos fornecedores, irradiando o impacto econômico. No Brasil, o setor responde por 5% do total do PIB e por 23% do PIB industrial. A indústria também é uma importante arrecadadora de tributos, correspondendo a 12% do total nacional.

Em Pernambuco, a expectativa é que o Polo Jeep aumente a participação da indústria de transformação no PIB. Em 2010 essa fatia era de 11,31% e a previsão é que alcance 12,32% em 2020. O Estado também vai se beneficiar da geração de empregos, sobretudo na área de influência da fábrica. Na fase de implantação do empreendimento, o número de empregos criados chegou a 21 mil. Na fase de operação o estoque poderá chegar a 15 mil.

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Uma longa cadeia produtiva

A instalação de um polo do porte da Jeep gera uma reação em cadeia com reflexo em vários segmentos. Na fábrica de Goiana, por exemplo, os carrinhos e racks metálicos usados nas linhas de produção são fornecidos pela empresa ítalo-brasileira Eurocontainers Brasil, localizada no Curado. Como a Eurocontainers, várias empresas locais podem se beneficiar da nova dinâmica econômica de Pernambuco. Mas é preciso apostar em qualificação empresarial para não perder o bonde.

A Fiat Chrysler Automobiles (FCA) e o Instituto Euvaldo Lodi (IEL) criaram o Programa de Qualificação de Fornecedores (PQF), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que financia R$ 1,2 milhão do investimento total de R$ 1,5 milhão. Em 2012 começou a conversa com os sistemistas, que são os maiores compradores da indústria local. Foram identificados os tipos de produtos a serem comprados e a escala.

Em 2014 começou o processo de capacitação, do qual participam 22 empresas sendo capacitadas. Dessas, algumas iniciaram o processo de fornecimento, como a Eurocontainers, Forship, Utinav e Oásis. A metodologia prevê a redução de desperdício e resultado melhor para a empresa, o que repercute em toda a cadeia produtiva.

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História da marca no Estado

A história da Jeep em Pernambuco, quem diria, começou nos anos 50. Na época, a marca pertencia ao grupo Willys Overland do Brasil. A demanda pelo carro no Nordeste fez a empresa investir em uma agência e um posto de serviço, que funcionavam na Rua da Aurora, no Recife. Lá, a Willys montava os carros que desembarcavam em caixas de madeira no Porto do Recife.

Com o crescimento da procura pelo carro, a empresa decidiu instalar uma linha de montagem e depósito maior em Olinda. Em 1964, a Willys iniciou negociação com a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) para implantar uma fábrica em Jaboatão dos Guararapes, o que aconteceu em 1966. Num primeiro momento, a indústria abriu 437 postos de trabalho, dinamizando a economia do município, que sofria com o declínio da indústria canavieira.

Os carros que saíam da fábrica de Jaboatão recebiam o selo “Chapéu de Couro”, em homenagem ao Nordeste. A indústria fabricava Jeep, picape Jeep e perua Rural. No final da década de 60, a Willys foi incorporada à Ford. No início dos anos 80, a montadora suspendeu a fabricação de carros e passou a produzir luvas, uniformes e molas. Hoje no local funciona a unidade da TCA, fabricante de chicotes elétricos para o setor automotivo.

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Um polo de conhecimento

Uma parceria entre a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) e oito instituições de ensino de Pernambuco e Paraíba foi a mola mestra para o surgimento do Polo de Conhecimento Automotivo, que tem como meta ser uma referência internacional. Um termo de compromisso entre a FCA e as instituições foi assinado em dezembro de 2014.

O Senai foi uma das primeiras instituições a se integrar ao polo. Começou formando 3.200 profissionais para trabalhar na construção da fábrica, em Goiana. Agora prepara a inauguração de três unidades voltadas para o setor automotivo: uma faculdade, uma escola e um instituto de tecnologia automotiva. “Estamos aguardando um financiamento de R$ 49 milhões do BNDES e a aprovação do Ministério da Educação (MEC). Queremos ser referência na América Latina”, diz o diretor regional do Senai em Pernambuco, Sérgio Gaudêncio.

Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) terá uma pós-graduação em Engenharia Automotiva, a primeira no Nordeste, que deve iniciar as aulas em maio. A UFPE e a Universidade de Pernambuco (UPE) encaminharam alunos de engenharia para cursar especialização no Instituto Politécnico de Turim (Polito), na Itália, com apoio da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe). Vinte alunos participaram do intercâmbio e todos foram contratados pela Jeep.

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