Sucesso e fracasso dos professores

Por Marcos Leandro

De Feola a Felipão - primeiro campeão e o último -, passando por Zagallo, Telê, Parreira e Dunga. A seleção brasileira teve vários treinadores em Copas do Mundo, dos mais variados estilos.

Pragmáticos, adeptos do futebol ofensivo, do defensivo, abertos ao diálogo ou de linha dura. Única a participar de todas as 20 Copas do Mundo (1930 a 2014), a seleção brasileira foi comandada por treinadores com perfis para todo tipo de gosto. Ou desgosto. Até 1958, o Brasil sofria do que o jornalista e dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues batizou de “Complexo de Vira Lata”. Era a síndrome de “amarelar” nos momentos decisivos, como na derrota para o Uruguai em 1950, quando foi o anfitrião pela primeira vez (o disciplinador Flávio Costa era o técnico), ou nas quartas contra a Hungria de Puskas em 1954.

Para acabar com essa história, o presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange, deu carta branca para Paulo Machado de Carvalho montar um plano de trabalho para que o escrete nacional finalmente levantasse a Jules Rimet na Copa de 1958, na Suécia. O dirigente, que tinha trabalhado no São Paulo, chamou Vicente Feola (outro com ligação com o tricolor) para que ele comandasse a seleção no Mundial.

O PRIMEIRO CAMPEÃO Vicente Feola (esq) e o empresário e fundador da Rádio Record, Paulo Machado de Carvalho

Feola, que alguns diziam que chegava a cochilar no banco de reservas em alguns jogos (fato sem comprovação), exerceu muitas funções no futebol. Era aberto ao diálogo, mas foi sua vontade que prevaleceu quando um estudo psicológico sugeriu cortar Garrincha do elenco e ele não deu ouvidos. Assim como manteve o menino Pelé, que havia se machucado no amistoso contra o Corinthians. Mané e Pelé jogaram pela primeira vez na 3ª rodada contra a União Soviética. Vitória por 2x0 e horizonte aberto para o título, sacramentado no 5x2 diante dos suecos.

Feola voltaria a dirigir o Brasil na fracassada campanha na Copa de 1966, quando a seleção foi eliminada na primeira fase - o bi em 1962, no Chile, foi conquistado com Aymoré Moreira no comando. Já o tricampeonato, em 1970, no México, foi obtido com Zagallo à frente da equipe. Ele substituiu João Saldanha, demitido, entre outras coisas, pela sua ligação com o Partido Comunista. Zagallo, que tinha sido campeão dentro de campo em 1958 e 1962, montou um esquema privilegiando os craques. Pelé, Tostão, Rivellino e Jairzinho, todos camisas 10 nos seus clubes, jogaram juntos. O título veio com um sonoro 4x1 frente a Itália.

Após três títulos em quatro Copas, o Brasil passaria por um grande jejum. Em 1974, ainda com Zagallo, a seleção perdeu para a Holanda de Cruyff e Rinus Michels. Quatro anos depois, na Argentina, Cláudio Coutinho deixou a Copa em terceiro, mas alegando que tinha sido “campeão moral”, pois não perdeu nenhum jogo na campanha.

RUIM Após ser campeão em 2002, Luis Felipe Scolari não repetiu o bom desempenho em 2014, na Copa no Brasil

Em 1982, na Espanha, Telê Santana foi o técnico e até hoje se lamenta a derrota do time de Zico, Sócrates, Falcão & cia para a tática Itália de Enzo Bearzot e Paolo Rossi. Telê também não teve sucesso em 1986, no México. Em 1990, Sebastião Lazaroni optou por um esquema com três zagueiros, que não foram suficientes para Maradona e Cannigia, que eliminaram o Brasil nas oitavas. Quatro anos depois, Carlos Alberto Parreira - com um futebol pragmático -, acabou com o jejum de 24 anos e trouxe o tetra após vitória nos pênaltis ante a Itália.

Em 1998, com Zagallo, o Brasil foi vice da França. Em 2002, sob a batuta de Felipão e a “Família Scolari”, o Brasil conquistou o penta na Coreia e no Japão. Felipão bancou a recuperação de Ronaldo, que vinha de seguidas cirurgias no joelho. O sucesso de 2002, no entanto, não foi repetido em 2014. Na segunda Copa em solo brasileiro, Felipão entrou para a história por ser o comandante no 7x1 para a Alemanha - antes, em 2010, Dunga caiu nas quartas para a Holanda.

Marcação italiana acaba sonho de 82

Além dos brasileiros, vários treinadores estrangeiros têm lugar de destaque na história da Copa do Mundo. Um deles é Enzo Bearzot. O início da caminhada italiana na Copa de 1982 não foi nada animador. Três empates na 1ª fase, com Polônia (0x0), Peru (1x1) e Camarões (1x1). O desafio no triangular da 2ª fase era superar a atual campeã Argentina e o esquadrão brasileiro de Zico, Falcão & cia. Missão para o senhor cachimbo, como era conhecido Bearzot. Apesar de ter mais vocação ofensiva que a maioria dos técnicos italianos, Bearzot sabia que a parte defensiva era a chave do sucesso. Gentile (lateral/zagueiro) foi designado para ser a sombra de Maradona. Exagerou um pouco nas faltas, é verdade. Mas o fato é que a Azzurra venceu por 2x1. Chegou então o dia 5 de julho de 1982, dia de Brasil x Itália. O jogo decidiria quem avançaria para as semifinais - o Brasil bateu a Argentina, 3x1.

Pelo vistoso futebol, a equipe de Telê Santana, que jogava pelo empate, era a favorita. A Itália sabia disso. Mas antes de por em prática a sua forte marcação, abriu o placar aos 5 com Paolo Rossi. O Brasil empatou aos 11, com Sócrates. Assim como fez com Maradona, Gentile colou em Zico. Até chegou a rasgar a camisa do craque do Flamengo. Já o zagueiro Collovati estava ligado em Serginho Chulapa, o lateral Oriali de olho em Éder, Tardelli em Falcão ou Cerezo e os pontas Bruno Conti e Graziane acompanhavam os ofensivos laterais Leandro e Júnior. Atrás de todos eles ainda tinha o líbero Scirea. Rossi fez 2x1. O empate brasileiro veio aos 22, em golaço de Falcão. Mas Rossi estava impiedoso e marcou o terceiro dos italianos aos 29. A Tragédia do Sarriá pôs fim ao sonho do tetra do Brasil. Já a Itália seria tri ao bater a Alemanha na final.

Infográfico sobre o histórico dos treinadores vencedores em Copas

Armadilha alemã derrota húngaros

Outro duro golpe na história teve o dedo, ou melhor, a visão de Sepp Herberger. O treinador alemão que conseguiu derrotar a brilhante Hungria na Copa de 1954. Os húngaros eram a sensação do momento. Não perdiam um jogo há quatro anos. O time de Puskas, Kocsis, Czibor & cia era favorito para ganhar a Copa na Suíça. Logo de cara, 9x0 na Coreia do Sul. Na segunda rodada, veio a Alemanha. Mesmo diante do poderoso adversário, o técnico Sepp Herberger armou o time germânico sem seis titulares.

A derrota por 8x3 fez a imprensa alemã detonar o treinador. Mas isso fazia parte dos planos. Consciente de que perderia para a Hungria, o técnico poupou parte do time para o próximo jogo contra a Turquia, que valeria a segunda posição do grupo e o avanço para a próxima etapa. Deu certo, triunfo por 7x2 e vaga nas quartas garantida. Hungria (tirou o Brasil nas quartas) e Alemanha eliminaram todos os rivais e se cruzaram de novo na final. É claro que os 8x3 da primeira fase dava o favoritismo para os magiares.

Mesmo sem estar 100%, pois tinha sofrido uma forte pancada no tornozelo no jogo contra os germânicos, na fase de grupos, Puskas foi para o jogo. A Alemanha, no entanto, estava completa e mais forte. Pronta para ser Alemanha. Ainda mais no pesado gramado de Berna, vítima da forte chuva. Mesmo assim, a Hungria fez 2x0 logo de cara. Com a mesma rapidez os germânicos empataram. O jogo seguiu igual até os 39 minutos do segundo tempo, quando em um rápido contra-ataque, Rahn fez o terceiro da Alemanha. O gol do primeiro título alemão. O gol do Milagre de Berna.