Tite por quem o conhece

Por Matheus Cunha

A confiança e a credibilidade são as principais marcas do trabalho de Tite à frente do comando da seleção brasileira. O treinador chegou em junho de 2016 ao time nacional e, desde então, vem navegando em águas calmas na canarinho. Fez a equipe voltar a jogar coletivamente e, principalmente, a reencontrar o bom futebol de outrora. Devolveu a esperança aos torcedores. Virou um verdadeiro fenômeno de carisma, liderança e inspiração. Possui ainda algo que há tempos nenhum técnico tinha: virou quase uma unanimidade.

O JC procurou atletas treinados por Tite, companheiros de time e amigos pessoais do treinador. Cada um elencou uma característica diferente do gaúcho. A liderança e o poder de gestão foram os principais pontos citados.

TRABALHO Tite revolucionou a seleção brasileira, apostando no coletivo para realçar a individualidade dos jogadores

Talvez essa quase unanimidade, citada no início do texto, não fosse vista na canarinho desde os tempos de Telê Santana, comandante da equipe nas Copas do Mundo de 1982 e 1986. De lá para cá, praticamente todos os outros nomes eram contestados de alguma forma. Parreira nunca caiu nas graças da torcida, mesmo com o título em 1994. Tampouco Dunga e Mano Menezes.

Hoje técnico da seleção e com passagens por grandes clubes do futebol brasileiro, Tite formou um currículo modesto quando jogador. Constituiu a sua carreira basicamente no Sul do país, defendendo equipes como Caxias e Esportivo, ambos do Rio Grande do Sul.

O treinador também possui um bom relacionamento com a imprensa, algo que o antecessor Dunga não tinha. Para Gilmar Dal Pozzo, seu amigo há 27 anos, isso se dá por conta da passagem de Tite pela Rádio Caxias, do Rio Grande do Sul, entre 1997 e 1998.

“Depois que ele fez um trabalho no Juventude em 1997 e acabou demitido, passou o período de um ano emeio sem treinar nenhum time. Aí foi trabalhar na Rádio Caxias. Isso contribuiu muito com a sua relação com a imprensa. A gente sabe que precisa ter um elo com os jornalistas, porque vocês estão ali a trabalho”, explicou Dal Pozzo, exjogador do Santa Cruz e ex-treinador do Náutico.

O currículo adquirido quando foi para a beira do gramado é mais vistoso. Passou por Internacional, Grêmio, Palmeiras e Atlético-MG. Mas nenhum teve maior peso na sua vida que o Corinthians. Foi no alvinegro paulista em que Tite se firmou como técnico, ao ganhar dois Brasileiros, uma Libertadores e o Mundial de Clubes. Até chegar à seleção brasileira.

Outro ponto que pesa a seu favor é o apoio e o entrosamento da comissão técnica. Tite tem como auxiliares o seu filho, Matheus Bacchi, e o ex-jogador Sylvinho. Esse último foi assistente de Vágner Mancini nas passagens por Sport (2012) e Náutico (2013). O fato de também sempre estar estudando facilita no seu desenvolvimento.

“Eu trabalhei com Tite em 2008 e 2009 no Internacional. Fizemos ótimas campanhas e eu acho que ele sempre teve um potencial muito grande. Mas eu acredito que diante das conquistas dele, diante da experiência, ele também foi buscar conhecimento fora. Não só trabalhando, mas estudando”, analisou Danny Morais, zagueiro do Santa Cruz.

É notório que o “Fenômeno Tite” tomou conta do Brasil. Os ídolos brasileiros não estão mais apenas dentro de campo, nas figuras de Neymar e Gabriel Jesus. Fora dele, à beira do gramado, está o técnico de 56 anos responsável por comandar, quem sabe, a “geração hexa”.

HUMANO

Marlone, treinado por Tite em 2016, no Corinthians

O Tite, além de ser uma grande pessoa e ter um grande caráter, é ainda muito humano. Ele se coloca no lugar do atleta. Lembro que no Corinthians eu me lesionei e ele sempre me dava atenção. Perguntava como eu estava. Eu não vinha nem sendo relacionado para os jogos. Então eu acho que o fato dele tratar todo mundo igual, faz ele ganhar o grupo. Realmente é um cara de caráter extraordinário. E também eu acho que o grande diferencial dele é ser um grande gestor. Chegava e falava com o porteiro, falava com o cozinheiro. Isso é a grande diferença do Tite. Aí acaba refletindo isso tudo dentro de campo.

INSPIRADOR

Gilmar Dal Pozzo, ex-atleta de Tite e amigo pessoal do treinador

Ele sempre falava muito sobre o Telê Santana, na copa de 1982. E ele seguiu os passos, o conceito de jogo. Se espelha muito no estilo do Telê. O conceito é bem próximo daquilo que o Telê apresentou em 1982. Posse de bola, qualidade e o objetividade. Eu olho aquela seleção de 82 e vejo essa e são muito parecidas. Talvez naquela tinha um meia diferenciado, que era o Zico e que hoje não tem esse jogador com essa carateristica.

GESTOR DE PESSOAS

Danny Morais, zagueiro do Santa Cruz e que trabalhou com Tite em 2008 e 2009

O grande segredo dele (Tite) é a gestão de pessoas. É um cara que tenta ser muito honesto, se preocupa com cada detalhe do jogador, do clube. Mas não sendo muito invasivo, não querendo centralizar o poder. Eu acho que essa é a grande diferença dele. Isso não é fácil de fazer, de atingir essa maturidade. Aproveito para desejar uma ótima Copa do Mundo para ele e que eu vou estar torcendo muito. Foi um dos grandes amigos que eu fiz no futebol.

LÍDER PRECOCE

Ricardo Rocha, ex-zagueiro e que jogou com Tite no Guarani na década de 1980

Ele já tinha muita liderança naquela época. Sempre foi um cara muito educado. Ele sempre teve liderança com relação ao grupo. A gente sentia esse espírito nele. Ainda era um bom jogador também. Jogava ali como um segundo volante, muitas vezes como um meia. A nossa relação era excelente. Sempre foi muito boa. Ele é um cara que trabalha muito a cabeça dos atletas e das pessoas que trabalham com ele. É um cara aberto ao diálogo, deixa todo mundo falar. E isso é muito bom. Ele é muito inteligente.

ESTRATEGISTA

Kuki, ex-atacante e que trabalhou com Tite em 1996, no Ypiranga de Erechim-RS e no Veranópolis-RS

Tudo o que o pessoal fala hoje em dia, ele já falava em 1996. Ele citava muito a questão de ampliação de jogo. Falava que quando a bola estava de um lado, era pra observar se o outro lado estava livre. Um jogo de compactação, jogar junto. O futebol se dividindo entre ângulos desde aquela época. Então tudo o que ele dizia para a gente, está se repetindo. Ele sempre citava essa questão tática.

Trajetória

Infográfico com informações da Copa de 2002