1930 - Uruguaios celebram título em casa

Por Luana Ponsoni

Para os amantes do futebol, a ansiedade costuma ser grande. Afinal, são necessários quatro anos até a chegada da próxima Copa do Mundo. Em meio às expectativas para o torneio deste ano, na Rússia, muitos nem imaginam que a primeira edição do evento demorou duas décadas e meia para deixar de ser uma ideia e virar realidade. Antes da concretização da Copa de 1930, no Uruguai, a Fifa amargou um imenso fracasso ao tentar organizar o Mundial em 1905. Apenas depois que o francês Jules Rimet assumiu a presidência da entidade, em 1920, é que se atingiu o cenário favorável à estreia da competição.

FESTA Uruguaios venceram os argentinos por 4x2 na decisão de 1930 e comemoraram muito a conquista. Foto: Estadão Conteúdo e AFP

Na primeira tentativa de viabilizar o Mundial, a Fifa, então presidida pelo francês Robert Guerin, viu o prazo de inscrições chegar ao fim totalmente esvaziado. Na época, a entidade tinha 11 seleções filiadas. Todas, porém, de países da Europa. A eclosão da Primeira Guerra Mundial também foi um sério entrave ao prosseguimento da ideia. Dois anos após o fim do conflito, porém, a Federação contava com a adesão de países de outros continentes, como a África do Sul, Argentina e os Estados Unidos. Nesse momento, criar uma competição de futebol aberta entre vários países voltou a fazer todo sentido.

A palavra final para a realização da primeira Copa do Mundo aconteceu no Congresso da Fifa em Amsterdã (HOL), em maio de 1928. A proposição oficial de Jules Rimet recebeu 23 votos favoráveis e três contra. O Uruguai demonstrou grande interesse em receber o torneio. Como argumento, usou a comemoração do centenário de sua independência e o fato de a seleção do país ser bicampeã olímpica, títulos que lhe renderam a alcunha de Celeste Olímpica.

O plano estrutural apresentado pelo Uruguai propunha ainda a construção do estádio Centenário, considerado pela Fifa, anos depois, um monumento ao futebol mundial. Com tantos atrativos, o país sul-americano acabou ganhando a preferência para ser a sede da edição inaugural da Copa do Mundo. Magoada, a Itália, também candidata, liderou um boicote ao evento que acabou sendo seguido por boa parte dos europeus. Do Velho Continente, participaram apenas França, Bélgica, Romênia e Iugoslávia.

“É uma viagem impraticável, tanto pela distância até Montevidéu, como pelo prejuízo que os clubes vão ter se cederem jogadores, em pleno campeonato, a uma Liga recém-criada”, chegou a justificar o então técnico da Espanha, José María Mateos. Os demais participantes da Copa de 1930 foram Estados Unidos, Argentina, Chile, México, Brasil, Bolívia, Peru e Paraguai, além do país-sede.

Com 13 seleções, a Copa do Mundo de 1930 organizou as equipes em quatro grupos. Apenas um deles, porém, tinha quatro times. Com uma seleção composta principalmente por cariocas, em razão de disputas entre cartolas das federações do Rio de Janeiro e de São Paulo, o Brasil caiu na mesma chave de Bolívia e Iugoslávia. A Canarinho, porém, não passou da fase de grupos. Na estreia, foi derrotada por 2x1 para os iugoslavos. Naquele jogo, a seleção já perdia por 2x0 quando Preguinho, atacante do Fluminense, fez o primeiro gol do Brasil em Copas do Mundo. No segundo compromisso, o escrete nacional venceu a Bolívia por 4x0 (dois de Preguinho e dois de Moderato, atacante do Flamengo). De nada adiantou. Quem avançou foi o extinto país dos Bálcãs, que também superou a Bolívia por 4x0.

A primeira final

Uruguai e Argentina, países onde o futebol se popularizou de forma mais rápida do que no Brasil, decidiram a primeira Copa do Mundo. Anfitriões, os uruguaios queriam coroar a construção do estádio Centenário com o título mundial, repetindo o feito das Olimpíadas de 1924 e 1928. Para isso, contavam com os gols do atacante Cea e a maestria de Scarone, um dos melhores do torneio. Já os argentinos apostavam no faro de gol de Stabile. “O infiltrador”, como era conhecido o atacante do Huracán, acabaria como o artilheiro do Mundial depois de balançar as redes oito vezes. Mas não levaria a taça.

A decisão da primeira Copa atraiu cerca de 30 mil argentinos ao país vizinho. Apenas dez mil tiveram acesso ao Centenário, que registrou um público oficial de 70 mil pessoas, mas havia mais torcedores, pois milhares entraram sem pagar. O clima era tenso. Tanto que o árbitro belga Jan Langenus pediu um seguro de vida e retorno imediato à Europa.

Antes de a bola rolar, outro problema: justamente com a pelota. Cada seleção queria jogar com a sua - a dos uruguaios era mais pesada. A solução foi disputar cada tempo com uma bola diferente. No primeiro tempo, então, as seleções entraram em campo com a da Argentina. Curiosamente, os hermanos venceram o primeiro tempo por 2x1. Na etapa final, foi a vez da do Uruguai e os donos da casa conquistaram a virada por 4x2. A Celeste Olímpica jogou a etapa final com um jogador a mais, uma vez que o argentino Varallo deixou o campo machucado - não havia substituições na época.

O quarto gol do Uruguai, que sacramentou o título, foi anotado por Hector “Manco” Castro. Auxiliar de carpinteiro quando criança, ele havia perdido a mão direita em um acidente com uma serra elétrica. Como prêmio pelo título, o governo uruguaio deu a uma casa a cada jogador, além de medalhas de ouro. O novo torneio chegava para ficar!

Bi da Itália e artilharia de Leônidas

Apesar de não ter sido um primor em termos de participação, a primeira Copa do Mundo foi um sucesso. Tanto que as duas próximas edições sequer tiveram a organização contestada. Restava estabelecer apenas quais seriam os países-sede. Para atender a necessidade de propaganda do regime Fascista, Benito Mussolini conseguiu que a Itália recebesse o segundo Mundial, em 1934. O título conquistado pela seleção italiana exacerbou o sentimento nacionalista, que foi ampliado com o bicampeonato em 1938, na França. O futebol brasileiro, por sua vez, só começou a despontar a partir do terceiro Mundial, ao estabelecer a artilharia do torneio com o carioca Leônidas da Silva.

Nascido na cidade do Rio de Janeiro, em 1913, Leônidas atingiu o pioneirismo de muitas maneiras no futebol brasileiro. Foi o primeiro artilheiro do País em Copas do Mundo, com sete gols. Além disso, consolidou-se como o maior ídolo na era pré-Pelé. Também foi o primeiro jogador de futebol do País a atuar como garoto-propaganda. A Lacta o contratou exclusivamente para lançar o chocolate Diamante Negro, apelido pelo qual a imprensa internacional passou a chamá-lo. Outra alcunha atribuída ao brasileiro pelos jornalistas era a de ‘Homem-Borracha’.

A Leônidas ainda é atribuída a autoria do gol de bicicleta, apesar de não haver qualquer comprovação histórica. O carioca executava a jogada com tanta maestria que acabou sendo conhecido como um de seus inventores. O fato de o Diamante Negro ser o jogador mais famoso a realizá-la também colaborou para isso.

1º CRAQUE Leônidas da Silva (à esq.), o “Diamante Negro”, foi o primeiro jogador com fama nacional no Brasil. Foto: Estadão Conteúdo e AFP

Mas, na Copa da Itália, em 1934, o atacante não teve muita oportunidade de mostrar suas habilidades. Com a fórmula de disputa alterada, sem a fase de grupos, o Brasil acabou dando adeus na estreia, ao perder por 3x1 para a Espanha. O Diamante Negro, porém, deixou a sua marca, pois foi o autor do gol Canarinho na partida. Sem a concorrência da seleção uruguaia, então campeã do Mundo, a Itália chegou ao primeiro título mundial em casa depois de vencer a Checoslováquia por 2x1 na final.

A equipe brasileira que foi ao terceiro Mundial, em 1938, na França, obteve mais sucesso. A fórmula de disputa da edição anterior foi mantida e o País chegou à semifinal. Para avançar a essa fase, porém, a Canarinho fez duas partidas marcadas por situações inusitadas. Nas oitavas, enfrentou a Polônia em um jogo cheio de gols, que acabou em 4x4. Na prorrogação, a estrela de Leônidas voltou a brilhar. Ele marcou os dois gols da vitória brasileira por 2x1, um deles, segundo a lenda, com um dos pés descalços. Em razão da chuva, o campo estava enlameado e, como o jogador brasileiro tinha a pele negra, o juiz não viu ele anotar o primeiro tento do tempo extra sem uma das chuteiras.

Já nas quartas de final, o Brasil precisou enfrentar a Checoslováquia duas vezes. A primeira partida ficou conhecida como a batalha de Bordeaux, devido à violência em campo. Após as duas prorrogações, acabou empatada por 1x1. Como não havia cobrança de pênaltis naquela época para por fim à igualdade, um segundo jogo foi realizado. O Brasil saiu de campo vitorioso, por 2x1. Com muitos jogadores machucados, Leônidas foi um dos poucos titulares que atuaram no segundo duelo, igualmente violento. Ele marcou um dos gols brasileiros, mas não teve condições de fazer a semifinal com a Itália. Sem o atacante, o Brasil até fez uma partida equilibrada, mas não foi capaz de deter o ímpeto italiano. Um pênalti convertido por Meazza - com direito à mão na cintura para segurar o calção com elástico partido - pôs fim ao sonho brasileiro de chegar à final. Com o 2x1 sobre a Canarinho, a Itália avançou à decisão diante da Hungria e ergueu a Taça Jules Rimet, pela segunda vez seguida, com um 4x2 no placar.

A política

Efervescência política e cultural

Enquanto a seleção brasileira ia a Montevidéu, em 1930, disputar a primeira edição da Copa do Mundo, o País começava a viver um período batizado como Era Vargas. O nome faz referência ao gaúcho Getúlio Vargas, famoso por sua forma de governo populista. Ele foi um dos líderes da chamada Revolução de 1930, que depôs o presidente Washington Luís e revogou a Constituição de 1891. Dali até 1934, Vargas governou o Brasil de forma provisória. Depois foi eleito pela Assembleia, ao lado de um poder legislativo democraticamente escolhido. A partir de 1937, diluiu o Congresso e passou a governar de forma ditatorial. Nas artes, ocorreu a consagração do pintor brasileiro Candido Portinari, inclusive fora do País. Já o cenário literário brasileiro passou a vivenciar a Segunda Geração Modernista.