2006 - Azzurra cala críticos

Por Heitor Nery

Assim como em 1982, o futebol italiano chegava para a Copa de 2006 manchado por escândalos de manipulação de resultados. E a cena se repetiu: se no Mundial da Espanha, a Azzurra faturou o tri, o tetra veio na Alemanha. Já em 2010, a festa - inédita -, na África do Sul foi da Espanha.

É TETRA! Capitão Fabio Cannavaro ergue a taça conquistada pela Itália, que venceu a França de Zinedine Zidane na disputa por pênaltis. Foto: Estadão Conteúdo

Uma geração talentosa, mas desacreditada por conta de um escândalo de manipulação de resultados no futebol de seu país. A Itália parece seguir uma rotina com relação às suas conquistas da Copa do Mundo. Foi assim em 1982, quando a equipe de Paulo Rossi bateu a Alemanha para ficar com o título. E a história se repetiu em 2006, na Alemanha, quando a Azzurra de Cannavaro e Buffon derrotou a França nos pênaltis para ganhar o tetracampeonato mundial.

Nas casas de apostas da época, o grande favorito para a conquista do mundial era o Brasil. Além de entrar na Copa do Mundo como última campeã, a seleção passava por um ciclo de dominância, conquistando a Copa América e a Copa das Confederações. Além disso, a empolgação com o “Quadrado Mágico”, formado por Ronaldinho Gaúcho, melhor jogador do mundo em 2005, Kaká, Adriano e Ronaldo, dava indícios de que o Brasil faria uma excelente campanha na Copa. No entanto, toda a pompa de “já ganhou” acabou influenciando no desempenho bastante abaixo do esperado da equipe, sendo eliminada nas quartas de final para a carrasca França, onde mais uma vez Zinedine Zidane teve uma brilhante atuação. O único que pôde comemorar algo naquele torneio foi Ronaldo, que, com três gols, chegou aos 15 e se tornou o maior artilheiro da história das Copas (o Fenômeno foi superado pelo alemão Miroslav Klose (16 gols), na Copa de 2014, no 7x1 aplicado no Mineirão).

A Itália era apenas a quinta seleção nas casas de apostas, atrás ainda da Inglaterra, da Alemanha e da Argentina. A incerteza na equipe estava por conta do turbulento cenário interno de seu futebol momentos antes da Copa. Em maio de 2006, estourou o “Calciopoli”, um esquema que apontou uma ligação próxima entre dirigentes de algumas equipes da Serie A e da Serie B, com alguns árbitros do país, o que gerava atuações bastante duvidosas da equipe de arbitragem em algumas partidas. A descoberta gerou o rebaixamento da Juventus e também punições para Milan, Fiorentina e Lazio, clubes que foram representados pela seleção italiana na Copa. O sentimento de descrença foi utilizado pelos próprios jogadores como forma de união do grupo, que queria provar o seu valor com o título.

ALGOZ Henry marcou o gol que fez a França eliminar o Brasil outra vez de uma Copa. Foto: Estadão Conteúdo

Em campo, a tradicional força defensiva da Itália fez a diferença. A equipe de Marcelo Lippi sofreu apenas dois gols em toda a Copa. A força defensiva seria premiada pela FIFA no final do ano, quando Fabio Cannavaro ganharia, ainda naquele ano, o prêmio de melhor jogador do planeta. Mesmo com a consistência no setor, a Itália não teria vida fácil durante a Copa do Mundo. Logo na primeira fase, partidas equilibradas contra Gana e Estados Unidos, com a classificação vindo apenas na última rodada, após vitória sobre a República Checa.

Nas oitavas de final, o adversário seria a Austrália, equipe comandada pelo holandês Guus Hiddink, que havia eliminado a mesma Itália na Copa do Mundo de 2002, quando comandava a seleção da Coreia do Sul. A vingança não veio sem sofrimento. Atuando com um jogador a menos na maior parte do segundo tempo, a Itália suportou a pressão dos australianos e saiu com a vitória após Totti anotar um gol de pênalti aos 50 minutos. Nas quartas, vitória tranquila sobre a Ucrânia por 3x0.

Nas semifinais, a Itália encarou logo os donos da casa. A partida contra a Alemanha, considerada por muitos a melhor daquele mundial, pela quantidade de chances criadas pelos dois lados e pelas boas atuações de Lehmann e Buffon. A partida só seria decidida no segundo tempo da prorrogação e por um herói improvável: o lateral-esquerdo Fábio Grosso, após receber belo passe de Pirlo. Del Piero ainda marcaria o segundo, para tristeza dos donos da casa.

Na decisão, uma outra chance de vingança para a Itália. O adversário seria a França, equipe que seis anos antes havia derrotado os italianos na decisão da Eurocopa. Uma partida que seria especial para Zidane, já que seria a última de sua carreira. O camisa 10 colocou os franceses na frente do placar aos 7 minutos, em cobrança de pênalti. Mas a Itália empatou ainda no primeiro tempo, com o zagueiro Materazzi. O empate levou a partida para a prorrogação, quando os dois voltaram a aparecer em um dos episódios mais marcantes de uma final de Copa. Após uma troca de xingamentos, Zidane agrediu o zagueiro com uma cabeçada e foi expulso, encerrando assim sua carreira. A partida só seria decidida nos pênaltis, da mesma forma como a Itália havia perdido seu último mundial. O destino, no entanto, seria diferente. Trezeguet, jogador que fez carreira na Juventus, perdeu sua cobrança, enquanto os cinco italianos acertaram as suas, com Fabio Grosso acertando o pênalti que garantiu o tetra para a Itália. Uma despedida melancólica para Zidane, mas a consolidação de uma forte geração da Azzurra.

Na final, Zidane foi expulso ao acertar Materazzi. Foto: Estadão Conteúdo

Fim do martírio da Fúria

Até 2010, a fama da seleção espanhola era de uma equipe com bastante qualidade técnica, mas que, na hora da Copa do Mundo, sempre deixava a desejar. Sua melhor campanha havia sido em 1950, no Brasil, quando conquistou o quarto lugar. Mas a geração de 2010 tratou de acabar com esta sina. Contando com um estilo de jogo muito inspirado no “tiki taka” do Barcelona, a Fúria de Vicente del Bosque rugiu mais alto na África do Sul para levar o título da Copa do Mundo.

A geração da Espanha já havia começado a dar demonstrações de que seria uma seleção bastante competitiva dois anos antes, quando conquistou a Eurocopa de 2008 ao bater a Alemanha na final com um futebol vistoso. Algo que, no entanto, não se veria na Copa.

TAÇA Depois de decepcionar várias vezes, Espanha derrotou a Holanda na Copa de 2010.

Na estreia, um motivo de preocupação. Após dominar a posse de bola, a Espanha parou na forte defesa da Suíça, que venceu a partida num contra-ataque rápido de Gelson Fernandes. A recuperação veio no jogo seguinte, quando a estrela de David Villa começou a brilhar. O atacante marcou os dois gols que garantiram a vitória sobre Honduras. Ele voltaria a marcar na vitória sobre o Chile por 2x1, que garantiu da equipe nas oitavas.

No mata-mata, a Espanha contava com placares apertados para avançar. Contra Paraguai, nas oitavas, e Portugal, nas quartas, a estrela de Villa seguia brilhando, anotando os únicos gols de cada partida. Na semifinal, um novo encontro em duelo decisivo contra a Alemanha. No entanto, dessa vez, coube ao zagueiro Puyol decidir o confronto com um gol de cabeça, colocando a Espanha em sua primeira final de Copa do Mundo.

O adversário da final seria a Holanda, o que já garantia um campeão inédito de Copa. Com isso, as duas equipes sentiram o nervosismo da partida, algo que refletiu no número de cartões: 12 amarelos e um vermelho, para o holandês Heitinga. Com os dois lados errando muito, o jogo só foi decidido no segundo tempo da prorrogação. Aos 11 minutos, Iniesta recebeu de Fabregas e tocou para o fundo do barbante. Um gol histórico e que finalmente colocou a Fúria no hall das seleções campeãs mundiais.

BRASIL CAI NAS QUARTAS

Por conta da empolgação generalizada na última Copa, o Brasil apostou em uma mudança de estilo para a seleção. Agora comandada por Dunga, a equipe praticava um futebol competitivo, que valorizava mais o resultado. Além disso, adotou um esquema de concentração mais rígido, sem as mesmas liberdades de 2006 para os jogadores. O estilo mais competitivo durou até as quartas, quando o Brasil caiu diante da Holanda. A equipe fez até um bom primeiro tempo, saindo na frente com Robinho. Mas, na etapa final, a equipe foi pressionada e acabou levando dois gols em falhas defensivas, simbolizadas pelo goleiro Júlio César e pelo volante Felipe Melo, dando adeus ao hexa.