2002 - Penta recoloca Brasil no topo

Por Vinícius Barros

A campanha nas Eliminatórias não foi fácil. A classificação só veio na última rodada. Por isso mesmo, o Brasil não chegava entre os favoritos para a Copa do Mundo de 2002, no Japão e na Coreia do Sul. Porém, Luiz Felipe Scolari bancou Ronaldo Fenômeno, que vinha de seguidas lesões, e o atacante foi um dos destaques da Canarinho no Mundial ao lado do pernambucano Rivaldo. O penta foi conquistado após um 2x0 na decisão contra a Alemanha.

HEGEMONIA Cafu faz discurso emocionado na conquista do penta

Desacreditada pelos críticos e em baixa com a torcida. Essa era a situação da seleção brasileira às vésperas da Copa do Mundo de 2002. Após classificação suada nas Eliminatórias Sul-Americanas, conquistada apenas na última rodada com a vitória por 3x0 contra a Venezuela, a seleção carimbou o passaporte para a competição na Coreia do Sul e no Japão. Primeira edição de um Mundial no continente asiático e com sede dividida por dois países, a Copa trouxe a inovação como um dos principais cartões de visita. Exemplo disso foram os estádios altamente tecnológicos, como o Oita Big Eye, com teto retrátil e o Sapporo Domo, em que a grama era mantida do lado de fora e antes da partida era colocada na parte interna. Nos gramados, um dos maiores destaques foram as zebras, como a chegada até as semifinais dos anfitriões coreanos e dos turcos.

Sorteado para uma chave sem equipes tradicionais, o Brasil encarou Turquia, China e Costa Rica pelo Grupo C. Logo na primeira partida, um susto. No fim do primeiro tempo, o atacante Hasan Sas abriu o placar para os turcos. Na segunda etapa, aos cinco, Ronaldo se esticou e escorou para dentro o bom cruzamento feito por Rivaldo e igualou o marcador. Após um tento de Rivaldo ser anulado, o empate parecia ser o resultado, até que um erro do árbitro Kim Young-Joo deu novo rumo ao jogo. Aos 41, o atacante Luizão foi derrubado fora da área, mas o juiz marcou pênalti. Na cobrança, Rivaldo deixou o dele e deu os três pontos para a Canarinho.

Na partida seguinte, diante dos chineses, um verdadeiro chocolate. A goleada foi comemorada ao som dos 4 erres daquela geração: Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. O lateral-esquerdo marcou de falta com um forte chute no canto do goleiro. Em seguida, Ronaldinho lançou para o pernambucano balançar as redes. O gaúcho fez de pênalti e o Fenômeno deram os números finais da partida. Já garantida na fase seguinte, a seleção entrou em campo com apenas parte dos titulares no confronto diante da Costa Rica. A opção do técnico Felipão não afetou o rendimento do time, que aplicou mais um placar elástico, 5x2. Além da dobradinha do camisa 9 e de mais um gol de Rivaldo, o zagueiro Edmílson e o lateral-esquerdo Júnior anotaram uma vez cada.

ARTILHEIRO Com oito gols, Fenômeno deixou Copa ainda mais consagrado. Foto: Vidal Cavalcante/AE

O confronto contra a Bélgica marcava a chegada ao mata-mata e com ele a tranquilidade da fase de grupos se despedia. Nas oitavas, um dos jogos mais complicados para a seleção, com destaque para o goleiro Marcos, que justificou o apelido de São Marcos recebido pela torcida palmeirense na época. Após um primeiro tempo acirrado e poucas chances na frente, a partida foi para o intervalo em 0x0. Mas, um toque pernambucano deu a vantagem ao Brasil. Não apenas um toque, mas um belo chute do meia Rivaldo para colocar o time na frente. O meia dominou no peito, ajeitou com a perna esquerda e arrematou sem chances para De Vlieger. Na sequência, um duelo que costuma trazer sorte para o time Canarinho. Oponentes nos títulos de 1958, 1962 e 1970, os ingleses reapareciam na jornada brasileira, nas quartas de final, assim como na conquista do bicampeonato. Se naquele ano o personagem da partida foi Garrincha, em 2002 foi a vez de outro habilidoso jogador ser o protagonista: Ronaldinho Gaúcho. Antes dele se destacar, o zagueiro Lúcio falhou diante de Michael Owen, que abriu o marcador aos 22 da primeira etapa. Perto do intervalo, Rivaldo recebeu passe do camisa 11 e empatou. Na volta para o segundo tempo, um gol antológico mostrou a genialidade do gaúcho. De fora da área, ele cobrou com efeito no ângulo do adiantado David Seaman, que saía para evitar o lançamento e nada pôde fazer quando viu a bola entrar. Paradoxalmente, o autor de uma pintura foi o responsável por um lance de mau gosto poucos minutos depois ao entrar com a parte de baixo do pé na canela do lateral-direito Walker. A infração lhe rendeu o vermelho e, consequentemente, a suspensão para a semifinal.

O jogo contra a Turquia marcou o reencontro entre as duas seleções e os europeus seguiam em busca da vingança. A participação de Marcos na meta verde e amarela foi fundamental para assegurar o placar no primeiro tempo, marcado por boas chances dos turcos. Após o perigo sentido pela defesa da equipe Canarinho, foi a vez do ataque brilhar. As boas chances criadas nos pés de Ronaldo e Rivaldo indicavam que o gol estava próximo e, aos cinco minutos da segunda etapa, ele chegou. Em bela trama pelo lado esquerdo do campo, o Fenômeno arrancou entre a marcação adversária, entrou na área e deslocou o goleiro Rüstü em um toque com a ponta da chuteira. O tento decretou não só o resultado da partida como a chegada do Brasil a mais uma decisão, a terceira consecutiva.

CRAQUE Pernambucano Rivaldo foi fundamental na conquista do pentacampeonato mundial da seleção brasileira. Foto: Robson Fernandjes/AE

Diante da força do esquadrão Canarinho, dono do melhor ataque do torneio com 16 gols antes da decisão, a Alemanha crescia como a melhor defesa, com apenas um tento sofrido ainda na fase de grupos para a Irlanda. Oliver Kahn, goleiro dos germânicos, e Ronaldo, artilheiro do Brasil, retratavam este duelo de titãs. Em campo, o volante Kléberson assustava com boas investidas, como uma bola no travessão. Mas, o melhor ficou guardado para a segunda etapa. Aos 22, Ronaldo insistiu após perder a bola, retomou a posse e tocou para Rivaldo chutar, no rebote, o camisa 9 não perdoou a falha do arqueiro adversário. Aos 33, o atacante recebeu de Kléberson para marcar o segundo e sepultar as chances alemães de recuperação. O resultado coroou a atuação de um time colaborativo e garantiu o penta.

Fenômeno supera lesões e se destaca no Mundial

Para um craque do time Canarinho a conquista na Ásia teve um gosto especial. Quatro anos após sofrer uma convulsão antes da final da Copa na França, perdida pelo Brasil por 3x0 para os donos da casa, Ronaldo deu a volta por cima em grande estilo. O Fenômeno teve que se recuperar de graves lesões no joelho quando atuava pela Internazionale de Milão. Primeiro, em novembro de 1999, quando pisou em um buraco, torceu o joelho e rompeu o tendão patelar em jogo contra o Lecce.

A contusão o faria voltar aos gramados apenas cinco meses depois, em abril de 2000. Quando retornou, uma nova aflição. Em partida contra a Lazio, Ronaldo partiu para cima da defesa e quando preparava o drible desabou no chão em lágrimas e com a mão no mesmo joelho. Na ocasião, o atleta teve o tendão completamente rompido. Dessa vez, a recuperação se arrastou por longos 15 meses e ele reestreou apenas em agosto de 2001 pela equipe italiana, menos de um ano antes da Copa e com fãs apreensivos sobre sua recuperação em todo o Brasil.

CLIMA Felipão conseguiu unir grupo com “Família Scolari”. Foto: Alaor Filho/AE

Mas o destino guardou uma volta por cima triunfante para o craque. Depois de ser um mero figurante no banco de reservas em 1994, com apenas 17 anos, e vice-campeão em 1998, Ronaldo teve uma Copa para chamar de sua em 2002. No entanto, o teste de fogo de Ronaldo para a convocação final do técnico Luiz Felipe Scolari passa por um jogo sem tanto espaço na memória da torcida. Na última partida do Brasil em casa, em amistoso contra a Iugoslávia, em Fortaleza, o atacante vestiu a camisa verde e amarela após dois anos e meio afastado da seleção pelas contusões sofridas no joelho. A partida, encerrada em 1x0 para os brasileiros serviu para o Fenômeno mostrar que estava recuperado e passar confiança para os milhões de torcedores a cerca de dois meses de distância para a competição. No momento que marcou o único gol do confronto, Luizão correu para abraçar o jogador e todo o time se juntou na comemoração para dar o apoio ao craque.

Com a presença assegurada, o brilhantismo entrou em cena e Ronaldo para a história. Com oito gols feitos nos jogos na Coreia e no Japão, o camisa 9 não só contribuiu para o título do Brasil, mas também ganhou notoriedade para a conquista do prêmio de melhor do mundo naquele ano, vencido com larga vantagem para os outros jogadores. Na primeira fase, deixou sua marca em todos os duelos, marcando quatro tentos (um contra Turquia e China e dois ante a Costa Rica).

ANTOLÓGICO Gol de falta de Ronaldinho Gaúcho nas quartas de final contra a Inglaterra foi um dos mais bonitos do Mundial. Foto: Vidal Cavalcante/AE

Nos jogos eliminatórios ampliou o placar nas oitavas diante da Bélgica e foi mortal na semi e na final. Contra os turcos fez, de bico, o gol da vitória. Já na decisão, superou o goleiro Oliver Kahn em duas oportunidades para trazer a taça para o Brasil pela quinta vez. Em um dos gols, inclusive, o arqueiro errou ao soltar a bola quase nos pés do artilheiro. Por ter feito a escolha do melhor do torneio antes da final, a Fifa protagonizou uma gafe ao dar o troféu para o arqueiro alemão em detrimento ao atacante brasileiro. A única apresentação em que o craque não deixou sua marca foi nas quartas de final, diante da Inglaterra. A conquista da Copa, segunda da carreira do craque, o trouxe novamente para os holofotes do futebol mundial e consolidou o nome de Ronaldo como um dos maiores atacantes de uma geração. Ao todo, o Fenômeno balançou as redes 15 vezes em Copas, quatro na França, oito na Coreia e no Japão e três na Alemanha, em 2006.

Infográfico com informações da Copa de 2002