1986 - A Copa de Maradona

Por Vinícius Barros

Cinco gols, um considerado o mais bonito de todas as Copas (o segundo contra a Inglaterra), passe para o gol do título e jogadas que entraram para a história dos Mundiais - o gol de mão contra os mesmos ingleses, o famoso La Mano de Dios. Diego Maradona foi o personagem da Copa de 1986, que marcou o bicampeonato dos hermanos e alçou O Pibe de Oro ao patamar dos maiores de todos os tempos. Quatro anos depois, os alemães deram o troco e se sagraram tricampeões.

O enredo da Copa do Mundo de 1986 começou a ser escrito a partir de uma desistência. Sem condições financeiras de arcar com os custos de construção de estádios devido a uma crise econômica, o então presidente da Colômbia Belisario Betancur optou pela retirada do país do posto de sede do Mundial em outubro de 1982. Com pouco tempo para organização, o México ainda teve que se recuperar de um terremoto que abalou o país em 1985. E se em 1970, os mexicanos viram Pelé & cia darem show, em 1986 eles acompanharam de perto o brilhantismo de outro craque que ocupa um dos mais altos escalões do futebol: Diego Armando Maradona.

A TAÇA Depois de não ser convocado para 1978, ser expulso contra o Brasil em 1982, enfim, Maradona conquistou a Copa em 1986. Foto: Estadão Conteúdo

Se a Copa do Mundo de 1982 serviu como um balde de água fria para o craque e o embalado time argentino, em 1986 “El Pibe de Oro” atingiu seu ápice pela seleção. O status de lenda foi calcado após uma campanha quase impecável dos hermanos e um desempenho pessoal impressionante que contou até com “ajuda divina”.

Logo no início, a Argentina derrotou a Coreia do Sul em jogo tranquilo, vencido por 3x1, com destaque para Valdano, que marcou duas vezes. Em seguida, os italianos, então campeões, apareceram no caminho. A partida acabou empatada por 1x1 e serviu para Dieguito deixar sua primeira marca nas redes adversárias. Diante da Bulgária, mais um triunfo, dessa vez por 2x0 e liderança do Grupo A assegurada. Já nas oitavas de final, um velho conhecido surgiu: Uruguai. Rival na decisão de 1930, a Celeste não foi capaz de segurar os argentinos e viram a classificação se distanciar após gol de Pasculli, responsável por dar a classificação aos hermanos para as quartas.

Diante dos ingleses, a campanha argentina começou a ocupar um lugar de maior destaque na história. Os dois gols de Maradona na vitória por 2x1 não apenas deram a classificação para a fase seguinte, mas serviram como um resumo de sua carreira. No primeiro gol, usou a mão para vencer o goleiro Shilton, para indignação dos súditos da Rainha (ele batizou o lance como La Mano de Dios, a mão de Deus). Já no segundo, quatro minutos depois, uma jogada de tão bela que parecia ter sido feita à mão. Dieguito recebeu passe antes do meio-campo, passou por quatro jogadores e driblou o goleiro para marcar uma pintura típica dos gênios. Nem mesmo o gol de Liniker foi capaz de evitar o êxito azul e branco: 2x1.

Além da mística de derrotar os algozes da Guerra das Malvinas, ocorrida apenas quatro anos antes, a partida guarda um episódio inusitado. O técnico Carlos Billardo se incomodou com a necessidade de repetir o uniforme azul-marinho usado nas oitavas e disse que as camisas estavam suadas e pesadas, o que atrapalharia seus jogadores. Ao consultar a empresa patrocinadora da seleção, recebeu a resposta de que não havia tempo suficiente para confecção de novas camisas. Assim, um funcionário da delegação argentina saiu às ruas e comprou dois modelos azuis. Ao vê-los na concentração, Dieguito apontou para um deles e disse: “Que linda esta camisa. Com ela ganharemos da Inglaterra”. A frase tirou a indecisão dos dirigentes, que contrataram um grupo de costureiras para as deixarem parecidas com o manto oficial. Tudo isso em três dias.

Com Maradona inspirado, a partida contra os belgas serviu para carimbar o passaporte dos hermanos na final. Além do tento anotado após passe de Burruchaga logo no início do segundo tempo, o camisa 10 fez mais um, ao estilo do golaço contra a Inglaterra, mas sem tanta beleza para ampliar o placar.

O lateral-esquerdo brasileiro Branco é derrubado pelo goleiro francês Bats, no dia 21 de junho de 1986, em Guadalajara. Depois de um empate de 1 a 1, o Brasil foi eliminado nos pênaltis por 4 a 3. Foto: Estadão Conteúdo

Na decisão, o desafio seria passar pelos alemães, que nas partidas eliminatórias não haviam levado sequer um gol e eliminado Marrocos, o dono da casa México e a França. Com a marcação de olho em Maradona, seguido de perto por Lothar Matthäus, sobrou espaço para Brown deixar o dele ainda no primeiro tempo. Na segunda etapa, Valdano aumentou, mas viu Rummenigge diminuir aos 29 e Völler empatar aos 35 minutos. Mas, um toque do “Pibe de Oro” deixou Burruchaga livre para colocar a bola nas redes e mais uma estrela no peito. O bicampeonato argentino, conquistado sob a batuta de uma lenda.

Para os brasileiros, as recordações não são das melhores. A seleção Canarinho, escalada com uma mescla das estrelas de quatro anos antes e outros destaques como Careca, teve seu ponto final demarcado nas quartas. Diante dos franceses cedeu o empate em 1x1 para o time de Platini, com direito a pênalti perdido por Zico durante a partida. Nas cobranças alternadas, melhor para os europeus: 4x3.

O troco da Alemanha

Após 56 anos, os tricampeões italianos voltavam a receber um mundial em seus domínios. Mas, se em 1934 a decisão agradou os anfitriões, dessa vez, eles tiveram que se contentar em assistir uma reprise do duelo de 1986, agora com um desfecho triste para os argentinos e feliz para os alemães.

É TRI Alemanha venceu Argentina em 1990 e conquistou seu terceiro título

O Mundial daquele ano se notabilizou pelo nível técnico abaixo do esperado, com destaque para a média e gols por partida de 2,21, a menor ao longo das vinte Copas já realizadas.

Derrotada na final quatro anos antes para o time comandado por Maradona, a Alemanha foi ao Mundial de 1990 em busca de tirar o gosto amargo de ser vice-campeã.

Logo na primeira fase, começou mostrando quem manda no Grupo D. Contra Iugoslávia e Emirados Árabes duas sonoras goleadas foram aplicadas. Primeiro por 4x1, com gols de Matthäus (duas vezes), Klinsmann e Völler e, em seguida, por 5x1 diante do país do Oriente Médio. Nessa partida, além desses jogadores, o meia Bein guardou o dele.

A Colômbia foi o adversário do terceiro jogo, encerrado em 1x1, único empate dos germânicos na chave. Aos 44 do segundo tempo Littbarski balançou as redes, mas no minuto seguinte Freddy Rincón deixou tudo igual para os sul-americanos.

No mata-mata, a equipe do técnico Franz Beckenbauer encarou já nas oitavas um rival bem conhecido: a Holanda, oponente na decisão de 1974. Assim como 16 anos antes, quando o treinador esteve em campo como atleta, a vitória foi por 2x1. Os marcadores foram Klinsmann e Brehme para Alemanha e Koeman para os holandeses.

Nas quartas de final e na semi, jogos com poucos gols. Com um magro 1x0, anotado de pênalti por Matthäus, a Checoslováquia foi mandada de volta para casa. Já na fase seguinte, um acirrado confronto terminado em 1x1 contra a Inglaterra levou à disputa de pênaltis. O goleiro Ilgner se destacou ao defender uma das cobranças e classificar seu país para final.

BATENDO CABEÇA Em 1990, os brasileiros criaram várias chances no duelo contra a Argentina nas oitavas. Mas em um lance, Maradona deixou tonta a zaga verde-amarela e Caniggia fez o gol da classificação. Foto: AFP

A decisão simbolizou um reencontro. Novamente diante dos argentinos, a Alemanha precisava romper com o trauma causado quatro anos antes. Para isso, a solidez defensiva entrou em cena. Se em 1986, os europeus foram vazados três vezes na final, em 1990 não deram nenhuma brecha. Em jogo truncado e sem brilho, um pênalti duvidoso sofrido por Völler deu a chance à Brehme de abrir o placar. Diante dele, o tradicional pegador de pênaltis Goycochea, que até acertou o lado, mas não defendeu. Com apenas cinco minutos para o fim, os alemães viram o tempo passar até sagrarem-se tricampeões mundiais.

Na memória da torcida brasileira, a partida que ficou guardada foi a da eliminação para os grandes rivais argentinos. Não só pelo resultado, vitória hermana por 1x0 ainda nas oitavas de final, mas também pela famosa história da “água batizada”. Durante o jogo, o massagista da Argentina entrou em campo para atender o meia Troglio e ofereceu água aos jogadores. O lateral-esquerdo do Brasil, Branco, se aproximou e recebeu uma garrafa do meia Guisti. Após beber, sentiu-se mal. Anos depois o caso da água com sonífero foi revelado por Maradona em um programa na tv argentina.