1974 - Carrossel emperra e Alemanha ganha Copa

Por Marcos Leandro

Com seus clubes (Ajax e Feyenoord) dominando o cenário europeu no início dos anos de 1970, a Holanda chegou como uma das favoritas à Copa de 1974. Cenário que aumentou após a seleção de Cruyff & cia apresentar seu Futebol Total. Até a seleção brasileira sucumbiu aos holandeses. Mas na final, a Alemanha parou o carrossel, vencendo o jogo por 2x1 e sagrando-se bicampeã mundial. Quatro anos mais tarde, já sem seu lendário camisa 14, a Holanda voltou a perder a decisão para o país anfitrião, desta vez, a Argentina.

HOLANDA X ARGENTINA Em 1974, Cruyff foi o grande comandante da goleada por 4x0 da Oranje ante os hermanos. Foto: AFP.

Vinte anos depois de a favorita Hungria sucumbir na final da Copa de 1954, na Suíça, foi a vez de a Holanda repetir o filme no Mundial de 1974. A algoz que voltou a derrubar o maior candidato ao título foi a mesma que levou os húngaros às lágrimas: a Alemanha. Fria e eficiente como sempre, a seleção germânica parou o carrossel de Cruyff & cia na grande decisão no estádio Olímpico de Munique. A vitória por 2x1 consagrou o kaiser (imperador) Franz Beckenbauer como um dos maiores jogadores de todos os tempos. Já o Brasil, que defendia o tricampeonato conquistado há quatro anos do México, acabou em quarto lugar e não encantou. No primeiro Mundial sem Pelé, o escrete nacional jogou um futebol burocrático, mesmo contando com craques como Rivellino e Jairzinho.

A Copa de 1974 iniciava uma nova era. Como a Jules Rimet tinha ficado em definitivo com o Brasil (primeiro tricampeão), um novo troféu estava em disputa. Surgia então a Copa do Mundo Fifa, feita em ouro maciço e criada pelo escultor italiano Silvio Gazzaniga. A taça passaria a ser de posse transitória. A entidade máxima do futebol dava o start também nos contratos milionários para a transmissão dos jogos, uma bandeira do recém empossado presidente João Havelange. Ainda no campo publicitário, uma situação curiosa envolveu justamente o craque da Copa. Cruyff era o único jogador a atuar com duas listras na camisa holandesa. Isso porque a seleção era patrocinada pela Adidas (três listras é sua marca registrada até hoje), mas Cruyff era garoto propaganda da Puma.

Craque da Holanda, Cruyff. Foto: Estadão Conteúdo

Contudo, outras inovações provocadas pela Oranje seriam bem mais valorizadas, sobretudo pelos rivais, como registrou muito bem Mauro Beting no ótimo livro As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos. “O futebol deveria ser dividido assim: antes da Holanda e depois da Holanda”, sentenciou o zagueiro Perfumo (jogou pelo Cruzeiro), massacrado assim como seus companheiros de seleção argentina por 4x0.

A seleção de Rinus Michels era formada pelo Ajax (tri europeu em 1971/72/73) e pelo Feyenoord - vencedor da Champions em 1970. Os dois grupos, entretanto, não se batiam muito. Um grande mérito de Michels, na época já contratado pelo Barcelona, foi dar unidade à seleção às vésperas da Copa. Com isso, conseguiu implementar seu Futebol Total, baseado na constante mudança de posição dos jogadores. A base era o 4-3-3, mas com Cruyff voltando para armar o jogo, os pontas Rep e Resenbrink trocando de função com os alas Suurbier e Krol. E Neeskens, atuando como volante, meia e centroavante. E Cruyff, claro, o pulmão do time, preenchendo todos os setores do campo, mesmo sendo um fumante assíduo.

VELHO LOBO Campeão como jogador em 1958 e 1962 e como treinador em 1970, Zagallo não teve sucesso à frente da seleção em 1974. A eliminação veio após derrota por 2x0 para os holandeses. Foto: Estadão Conteúdo

Na 1ª fase, a Holanda venceu Uruguai (2x0) e Bulgária (4x1). A Suécia segurou o 0x0. Na 2ª fase, também formada por grupos, os holandeses bateram a Argentina por 4x0 e a Alemanha Oriental por 2x0 antes do confronto contra o Brasil, que decidiria a vaga na final. A Canarinho tinha empatado com Iugoslávia e Escócia (ambos por 0x0) e vencido o Zaire por 3x0. Na 2ª fase, fez 1x0 na Alemanha Oriental e 2x1 na Argentina. Sem Pelé, que se aposentou da seleção em 1971, Zagallo vinha fortalecendo o sistema defensivo, que tinha Emerson Leão no gol e Luís Pereira na zaga.

O jogo entre o tricampeão e a sensação da Copa, no entanto, não foi um espetáculo. Na verdade, o duelo virou pancadaria. A Holanda parecia nervosa diante do Brasil, que tentava parar os europeus na força. No primeiro tempo, Leão fez uma defesa monumental em chute à queima-roupa de Cruyff. Mas na etapa complementar, venceu a melhor equipe. Com gols de Neeskens aos cinco e de Cruyff aos 20 minutos, a Holanda fez 2x0, mandou o Brasil de volta para casa e se classificou para a final.

ALEMANHA

Para chegar à decisão, os anfitriões suaram muito a camisa. Para começar, duas Alemanhas disputaram a Copa. Dividida após a Segunda Guerra Mundial, entraram em campo em 1974 a Alemanha Ocidental (capitalista) e a Alemanha Oriental (socialista). E quis o destino que elas se enfrentassem na última rodada do Grupo 1. E a vitória do lado oriental por 1x0 fez a Alemanha Ocidental avançar em segundo lugar e fugir na 2ª fase do grupo de Holanda, Brasil e Argentina. Beckenbauer & cia pegaram Polônia, Suécia e Iugoslávia. Alemães e poloneses venceram os dois primeiros jogos. A vaga na final seria decidida no confronto direto entre ambos. E com gol de Gerd Müller, os donos da casa venceram a boa seleção polonesa, do artilheiro Lato, por 1x0.

VOLTA OLÍMPICA Goleiro Sepp Maier exibe com orgulho a taça da Copa do Mundo

A grande decisão no estádio Olímpico de Munique começou com a Holanda abrindo 1x0 sem que a Alemanha tocasse na bola. Foram 17 passes trocados até Cruyff ser derrubado dentro da área por Hoeness. Pênalti. Neeskens abriu o placar. Porém, a Laranja Mecânica não conseguiu dominar a Alemanha. Os donos do casa empataram aos 25, com Breitner, também cobrando uma penalidade. A virada veio aos 43 minutos do primeiro tempo, com Gerd Müller. No segundo tempo, a Holanda tentou recuperar terreno. Porém, os passos de Cruyff era seguidos pelo lateral Vogts. Nas poucas jogadas de perigo criadas pelos holandeses, Sepp Maier - melhor goleiro da Copa -, evitou o empate. O carrossel emperrou na final. A Alemanha venceu por 2x1 e sagrou-se bicampeã mundial, desbancando mais um grande favorito.

Argentina no topo pela 1ª vez

Depois de o Uruguai sediar a primeira edição, em 1930; o Brasil em 1950; e o Chile em 1962; a Copa do Mundo voltou ao continente sul-americano em 1978. Desta vez para a Argentina. Dos três países da América do Sul que tiveram a honra de sediar o Mundial até então, apenas o Uruguai tinha conquistado o título dentro de casa. Os argentinos não queriam falhar. E tiveram sucesso, ganhando umas das Copas mais polêmicas de todos os tempos.

Para começar, o país era comandado já havia dois anos pela sangrenta ditadura do general Jorge Videla, que queria usar a Copa para aumentar a sua popularidade. Perder a Copa em seus domínios definitivamente não estava nos planos. Craque do Mundial anterior, Cruyff, politizado como era, decidiu boicotar a competição (também estava envolvido com uma ameaça de sequestro da sua família na Espanha), enfraquecendo a Holanda.

Sensação da Copa passada, a seleção holandesa já não encantava tanto assim nos gramados argentinos. Na 1ª fase, venceu o Irã por 3x0, empatou com o Peru por 0x0 e perdeu por 3x2 da Escócia. Na 2ª fase, também disputada por grupos, a Oranje deu uma engrenada. Goleou a Áustria por 5x1, empatou com a Alemanha por 2x2 (na reedição da final da Copa de 1974) e bateu a Itália por 2x1. Vaga na segunda decisão consecutiva garantida. Novamente contra os donos da casa.

EMPATE Brasil e Argentina ficaram no 0x0 na 2ª fase da Copa de 1978. Foto: Estadão Conteúdo

A Argentina tinha grandes jogadores, como o goleiro Fillol, o zagueiro Passarella, o volante Ardiles e o atacante Mario Kempes. Mas a 1ª fase não foi nada fácil. Vitória de virada sobre a Hungria por 2x1 (com gol de Bertoni aos 38 do segundo tempo), triunfo por 2x1 sobre a França e derrota por 1x0 para a Itália.

Na 2ª fase, um grupo encardido, com Brasil, Peru e Polônia. Na largada, 2x0 nos poloneses, com dois gols de Kempes - seus primeiros na Copa. Na sequência, um 0x0 chato contra o Brasil. Na última rodada, brasileiros e argentinos chegaram com chance de avançar à final. Porém, devido a uma falha no regulamento, a Canarinho jogou antes e venceu a Polônia por 3x1, gols de Nelinho e Roberto Dinamite (duas vezes).

Três horas depois, a Argentina entrou em campo sabendo que precisava derrotar o Peru por quatro gols de diferença. Os peruanos, já eliminados, assustaram logo no começo da partida em Rosario. Mas a dificuldade ficou por aí. Com extrema facilidade, os hermanos entravam como queriam pela defesa do Peru. E marcaram dois gols, com Kempes e Tarantini. No segundo tempo, a goleada que os argentinos precisavam se concretizou. Luque (duas vezes), Kempes e Houseman sacramentaram o 6x0, placar contestado sob acusação de suborno, que nunca foi comprovado - apesar de integrantes do Cartel de Carli-COL terem revelado que intermediaram um encontro entre membros das federações argentina e peruana.

Com o resultado, o Brasil acabou eliminado no saldo de gols. Na disputa do terceiro lugar, a seleção brasileira bateu a Itália por 2x1, com gols de Nelinho e Dirceu e voltou para casa invicto, o que levou o técnico Cláudio Coutinho a argumentar que o Brasil foi o campeão moral.

FINAL

A decisão foi tensa. No estádio Monumental de Nuñez, argentinos e holandeses queriam conquistar o Mundial pela primeira vez. Kempes levou à torcida ao delírio aos 38 do primeiro tempo. Mas a Holanda empatou aos 37 da etapa final, com Nanninga. Aos 45, Resenbrink acertou a bola na trave de Fillol. A Holanda ficaria no quase outra vez. Na prorrogação, Kempes e Bertoni fecharam o placar em 3x1 para os hermanos, campeões pela primeira vez.

HOLANDA X ARGENTINA Quatro anos depois da goleada de 4x0 pela Holanda, os argentinos deram o troco na final e conquistaram a taça. Foto: Estadão Conteúdo.