1970 - Futebol arte do Brasil ganha o tri no México

Por Gabriela Máxima

Gérson, Tostão, Rivellino, Jairzinho e Pelé. Talento não faltava a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970. E os comandados de Zagallo mandaram muito bem no México. Com um futebol mágico, a Canarinho venceu os seis jogos que disputou, conquistando o tricampeonato após goleada por 4x1 sobre a Itália na final. A Copa consagrou Pelé como mito e registrou um dos maiores jogos das Copas.

CENA HISTÓRICA Carlos Alberto Torres ergue a Jules Rimet, que ficaria em definitivo com o Brasil, primeiro a ganhar a Copa três vezes.

“Noventa milhões em ação, para frente Brasil, do meu coração. Todos juntos, vamos, para frente Brasil, salve a seleção”. O trecho da música composta por Miguel Gustavo ecoou durante toda a Copa do Mundo de 1970, no México, e eternizou a campanha do tricampeonato mundial do Brasil. Na época, a seleção chegava à América Central carregando as cicatrizes do vexame de 1966 – a Canarinho fez a segunda pior campanha em Copas, sendo eliminada ainda na fase de grupos, com o 11º lugar. Embora carregasse a desconfiança dos torcedores e até do próprio elenco, o grupo comandado por Zagallo apresentou uma campanha invicta, com o ressurgimento do futebol arte liderado por Pelé, que aos 28 anos conquistava seu terceiro título mundial, feito inédito entre jogadores. Foi também em 1970 que o Brasil finalmente se vingou do Uruguai. Após 20 anos do Maracanaço, a seleção eliminou a Celeste por 3x1 nas semifinais. Na grande final, superou a Itália para conquistar a posse definitiva da Taça Jules Rimet.

A Copa de 1970 carrega o peso de várias histórias emblemáticas. Além da revanche da seleção, a Alemanha se vingou da Inglaterra nas quartas de final – as duas equipes decidiram o título da edição da Copa passada. Houve um dos maiores jogos de todas as Copas, a consagração de Pelé e o tricampeonato da seleção. Foi no Mundial de 1970, inclusive, que as regras do futebol sofreram alterações importantes. O sistema de substituições foi utilizado pela primeira vez no México. Na época, eram permitidas duas alterações por equipe em cada partida. As seleções também poderiam levar cinco reservas. Embalada pelas mudanças, a Fifa finalmente criou o esquema de cartões: amarelo para advertência e vermelho para expulsão. A ideia era estabelecer uma linguagem universal para que todas as equipes e os árbitros pudessem se comunicar melhor.

FURACÃO DA COPA Jairzinho balançou a rede em todos os jogos. Fotos: AFP e Estadão Conteúdo

A seleção brasileira de 1970 contava com muitos craques, mas passou por algumas turbulências até chegar ao México. O retrospecto trazia a lembrança da Copa de 1966, quando o Brasil, então bicampeão mundial, foi eliminado ainda na fase de grupos. Além disso, nos meses que antecederam o evento mexicano, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos, que posteriormente se tornaria a CBF) contratou o jornalista João Saldanha para comandar a seleção. O problema não era esportivo e sim político. O País encarava o período da ditadura do Regime Militar e o treinador estava ligado ao Partido Comunista. As contrariedades não param por aí. A CBD pretendia agradar o presidente Médici com a convocação do atacante Dario. Saldanha respondeu à investida com um categórico não: “o presidente escala o ministério dele e escalo minha seleção”, disparou.

O episódio culminou em crise interna na entidade e na queda de Saldanha. Às vésperas do Mundial, Zagallo, que tinha apenas três anos de experiência como treinador, mas estava distantes de problemas políticos, assumiu o cargo. Ele também tinha a vantagem de conhecer o ambiente de Copas do Mundo, afinal, fez parte das seleções de 1958 e 1962. A delegação nacional foi a primeira a aportar no México para iniciar a aclimatação e Zagallo, confiante, anunciava aos jornalistas. “Fomos os primeiros a chegar e seremos os últimos a ir embora”, sentenciou.

A campanha de 1970 contou com um grupo de feras: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino eram os titulares da seleção que até hoje é considerada a melhor de todos os tempos por muitos especialistas. Eles protagonizaram seis partidas e marcaram 19 gols, totalizando uma média incrível de 3,2 por jogo. Na fase de grupos, o Brasil passou invicto por Checoslováquia (4x1), a atual campeã Inglaterra (1x0) e Romênia (3x2). Nas quartas de final, Peru, que tirou a Argentina do Mundial, foi o rival da vez. O Brasil cravou um 4x2 para avançar às semifinais e duelar contra o Uruguai, na grande revanche do Maracanaço. A princípio, os jogadores não curtiram a ideia de enfrentar a Celeste em uma decisão tão importante. Nenhuma jogada encaixava e nervosismo atrapalhou o entrosamento. A Celeste se aproveitou da fragilidade e abriu o placar aos 19 do primeiro tempo. O Brasil sofreu mais do que o placar por 3x1 sinaliza, mas felizmente conseguiu se vingar do rival com gols de Clodoaldo, Jairzinho e Rivellino. Na decisão, Brasil e Itália duelaram pelo tricampeonato e, consequentemente, pela posse definitiva da taça Jules Rimet. O clássico internacional foi dominado pelos brasileiros, que com um futebol bonito golearam a Azzurra por 4x1, fechando a campanha histórica do tri. O troféu ficou com o Brasil até 1983, quando foi roubado e derretido. A Fifa produziu e entregou uma réplica para a CBF. A taça tem 1.800g de ouro e fica guardada com muito cuidado na sede da entidade: um símbolo da maior Copa de todos os tempos.

CHAVE DE OURO Quarto gol contra a Itália, marcado por Carlos Alberto, é um dos mais bonitos da história das Copas. Fotos: AFP e Estadão Conteúdo

Sete gols, cinco no tempo extra, no maior jogo das Copas

O maior jogo de todas as Copas do Mundo. É dessa forma que ficou conhecido o confronto entre Itália e Alemanha na semifinal do Mundial de 1970. Antes de a Azzurra deixar o campo classificada para a decisão diante do Brasil, o duelo travado no estádio Azteca, na Cidade do México, foi um dos episódios mais emblemáticos da história do futebol. Os italianos lideraram o placar por 1x0 praticamente durante todo o jogo. Eles, no entanto, não esperavam que os alemães chegassem ao empate aos 47 do segundo tempo, levando a decisão para a prorrogação. Foi nessa hora que os ataques pipocaram e mais cinco gols garantiram a emoção do clássico internacional. Com os ânimos exaltados, a seleção da Itália fechou o marcador por 4x3, em um duelo que teve o zagueiro alemão Beckenbauer como herói.

O kaiser (imperador traduzido em português) deslocou a clavícula aos 25 do segundo tempo, quando foi derrubado por Cera. Na época, as regras do futebol só permitiam duas substituições por jogo e o técnico Helmut Schön já havia queimado suas trocas. Assim, Beckenbauer tinha duas opções: deixar a partida – a Alemanha estava perdendo por 1x0 – ou voltar com o braço imobilizado por ataduras e esparadrapos. Desistir, para o alemão, não estava entre as opções e foi então que ele continuou jogando com o ombro deslocado.

Se o jogo sozinho já configurava um dos maiores acontecimentos do futebol, a bravura de Beckenbauer ganhou ainda maior notoriedade. Não à toa, ele ficou conhecido por ser o kaiser, o imperador do futebol alemão, um dos melhores jogadores do mundo. Na época, encarava sua segunda Copa do Mundo e liderava a seleção atuando na defesa, no meio de campo e na lateral. Talento e determinação que o consagraram quatro anos depois, na Copa de 1974, na Alemanha. Enfim, o sacrifício de jogar lesionado seria recompensado com o título em casa. Beckenbauer levantou a taça pela primeira vez, feito que se repetiria no Mundial de 1990, como treinador.

Naquele 17 de junho de 1970, no estádio Azteca, Itália e Alemanha jogaram de fato como duas potências do futebol mundial. Na ocasião, porém, chegavam às semifinais em situações opostas. A Azzurra vinha de uma goleada tranquila por 4x1 sobre a seleção anfitriã do México. A Alemanha, por sua vez, surgia exausta após uma decisão contra a atual campeã Inglaterra, jogo encarado como uma verdadeira revanche da final da Copa de 1966. Em campo, estavam 11 remanescentes daquela final. Eles precisaram reverter o placar por 2x0, encarar uma prorrogação para fechar o triunfo por 3x2. Em três dias, o alemãs jogaram 240 minutos de futebol, mas não se deixaram vencer pelo cansaço e deram muito trabalho para os italianos.

A consagração definitiva do mito Pelé

O Rei da Copa do Mundo de 1970. Foi dessa forma que Pelé foi reverenciado após a conquista do tricampeonato mundial da seleção brasileira, no México. Na ocasião, ele também comemorava sua consagração após a levantar pela terceira vez a taça Jules Rimet, feito único entre jogadores até hoje. O camisa 10 do Brasil disputava seu quarto mundial e já havia observado jogadores como Didi, Garrincha e o português Eusébio carregar seus nomes junto aos mundiais de 1958, 1962 e 1966, nessa ordem. Faltava, então, a sua glória. Com o resgate do futebol arte, Pelé protagonizou lances de pura genialidade. Alguns culminaram em gols, outros não. No total, ele balançou as redes do México quatro vezes, número pouco expressivo comparado aos 10 do artilheiro alemão Gerhard Müller. Esse, porém, foi apenas um detalhe. Afinal, Pelé transformava o status de goleador insuperável pelo de jogador completo.

COPA PARA CHAMAR DE SUA Em 1958, Pelé foi campeão, mas Didi era o astro. No bi, em 1962, o camisa 10 do Santos e da seleção se machucou na 1ª fase. Em 1970, no México, Pelé foi o protagonista da Copa.

O início da trajetória da Copa de 1970 trouxe um peso que ele carregou com tranquilidade e maestria. Isso porque os bastidores da seleção pipocavam com a troca de técnico – Zagallo substituiu Saldanha às vésperas do Mundial – e com as notícias sobre as visões de Tostão, que deslocou a retina, e a de Pelé, que passaria a usar óculos para enxergar melhor. Os torcedores brasileiros ficaram preocupados com o rumo dos acontecimentos e a possibilidade de novo fracasso na Copa.

Pelé, por sua vez, também lutava contra seus próprios demônios. Precisava superar o trauma de não ter terminado os dois mundiais anteriores. Em 1962, sofreu uma distensão muscular e, em 1966, desfalcou o Brasil após faltas severas do português Morais. Desta vez, não teria obstáculo que conseguisse pará-lo. “Nem que seja de lente de contato, eu vou jogar esta Copa”, garantiu o camisa 10, em referência a sua miopia recém-diagnosticada.

Logo na estreia contra a Checoslováquia, Pelé deixou sua marca na goleada do Brasil por 4x1. No entanto, foram outros dois lances que ficaram marcados na partida. O primeiro foi quando ele perdeu um gol feito após cruzamento de Rivellino, seguido pelo chute no meio de campo que encobriu o goleiro, passando a 40m da trave. No jogo seguinte, na vitória por 1x0 sobre a Inglaterra, Pelé deu um cabeçada no chão que foi incrivelmente defendida por Banks. Contra a Romênia, no triunfo foi por 3x2, abriu o placar com cobrança de falta e ampliou o marcador com gol de carrinho. Na semifinal contra o Uruguai, Pelé encantou o mundo ao driblar o goleiro Mazurkiewics sem sequer tocar na bola. Protagonizou uma das partidas mais emblemáticas da seleção, após revanche do Maracanaço. Na grande decisão, contra a Itália, ele foi o responsável por iniciar os trabalhos da seleção na goleada por 4x1. Aos 18 do primeiro tempo, fez o primeiro de cabeça.

No total, o camisa 10 protagonizou quatro jogadas convertidas em gol, mais quatro genialidades que ficaram no imaginário dos brasileiros. Na comemoração do título da Copa do Mundo do México, Pelé foi engolido por torcedores e carregado por seus companheiros de seleção. O ídolo observou suas roupas serem arrancadas em um misto de euforia e orgulho. Acontecia ali a consagração do maior mito do futebol mundial.