1958 - Brasil entre os campeões

Por Vinícius Barros

Até 1958, apenas Uruguai e Itália (duas vezes cada) e a Alemanha tinham sentido o sabor de conquistar a Copa do Mundo. Nos gramados suecos, porém, começou a ser escrita a vitoriosa saga da seleção brasileira. A primeira taça veio após uma goleada por 5x2 sobre a Suécia, com o menino Pelé fazendo dois gols. Em 1962, no Chile, o bi veio mesmo com o rei lesionado. Garrincha foi o grande nome da Copa, vencida após triunfo por 3x1 sobre a Checoslováquia. Fim do Complexo de vira-lata!

FINAL Contra a Suécia, o pernambucano Vavá fez dois gols na vitória por 5x2. Fotos: AFP e Estadão Conteúdo

“Eis a verdade, amigos: desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo”. O escritor, dramaturgo e jornalista pernambucano Nelson Rodrigues batizava o pessimismo da população brasileira com a seleção de “Complexo de vira-lata”. Tal sentimento derivava do trauma da derrota para o Uruguai no jogo decisivo de 1950, o famoso Maracanazo, e da eliminação para a Hungria nas quartas de final do Mundial de 1954 na Suíça. Foi assim, buscando afirmação perante a torcida e adversários, que a Canarinho desembarcava na Suécia para a Copa de 1958. “Se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício”, disse ainda Nelson Rodrigues.

Na luta pelo primeiro título mundial, o Brasil caiu no chamado “grupo da morte”, junto com União Soviética, Inglaterra e Áustria. A equipe conseguiu quebrar a desconfiança e seguiu para as partidas eliminatórias sem levar um gol e como líder do Grupo 4. Venceu os austríacos por 3x0, ficou no 0x0 com os ingleses e derrotou os soviéticos por 2x0. Daí em diante, a magia do futebol de Pelé, Garrincha e companhia começou a desfilar nos gramados.

SUA MAJESTADE Djalma Santos (mais a esquerda), Zagallo e Zito ajudam Pelé a segurar a famosa taça Jules Rimet. Com dois gols na final contra a Suécia e três na semifinal ante a França, o menino de 17 anos dava passos importantes rumo ao estrelato conquistado na sua carreira. Fotos: AFP e Estadão Conteúdo

Ao lado da dupla, nomes como Zagallo, Didi e o pernambucano Vavá foram determinantes na campanha. Nas quartas, vitória sobre País de Gales com gol do rei, o primeiro dele em Copas. Já na semifinal, uma apresentação de gala. Com três de Pelé, o Brasil goleou a França por 5x2, no estádio Rasunda. O placar e o local do jogo deram sorte, tanto que na final o mesmo resultado levou ao título contra os suecos, donos da casa, com dois gols de Pelé, dois de Vavá e outro de Zagallo. O escrete nacional, enfim, conquistava a Copa do Mundo.

Após a alegria de vencer de forma inédita uma Copa, a seleção foi para um novo desafio, dessa vez no Chile e sob o comando de Aymoré Moreira no lugar de Vicente Feola. E se a equipe montada em 1958 deu certo, por que não repeti-la? Com a filosofia de “time que ganha, não se mexe”, a base foi mantida e seguiu para a estreia diante do México, derrotado por 2x0, gols de Zagallo e Pelé.

Mas, dessa vez, o roteiro teve algumas armadilhas. Logo na segunda partida da fase de grupos, Pelé sofreu um estiramento na virilha no empate por 0x0 contra a Checoslováquia e foi desfalque até a decisão. Porém, a saída do rei não tirou o brilho de um grupo recheado de estrelas. Liderados por Garrincha, Amarildo e Djalma Santos, o time fechou a primeira fase na liderança do Grupo 3.

O POSSESSO Amarildo, atacante do Botafogo, ganhou esse apelido por entrar no lugar do lesionado Pelé e fazer gols importantes, como na final ante os checos. Fotos: AFP e Estadão Conteúdo

Em seguida, despachou os ingleses nas quartas de final por 3x1, com show de Garrincha e os anfitriões chilenos por 4x2 na semifinal. Afiados na hora de colocar a bola na rede, Vavá e Garrincha anotaram todos os gols dessas duas fases, feito que os ajudou na briga pela artilharia do torneio.

Na final, um adversário já conhecido reapareceu. Únicos que conseguiram conter o ataque brasileiro, os checos surgiram na final após eliminarem Hungria e Iugoslávia. No início do jogo, a taça parecia escapar das mãos da equipe verde-amarela quando o meia Masopust marcou aos 15 minutos. Substituto imediato de Pelé, Amarildo (o "Possesso") aproveitou o momento para marcar seu nome na história e empatar dois minutos depois. No segundo tempo, Zito e Vavá aumentaram o placar para 3x1 e trouxeram a Jules Rimet de volta ao país. Com o bicampeonato, o Brasil empatava em números de Copas com Itália e Uruguai.

A VEZ DOS INGLESES

Inventores do futebol, os ingleses receberam uma Copa do Mundo pela primeira e até hoje única vez em 1966. Para os brasileiros, empolgados após o bi, foi uma reunião dos consagrados campeões de 1958 e 1962 com jovens promissores como Tostão e Jairzinho. Porém, a seleção sentiu o gosto amargo de uma eliminação na fase de grupos, com vitória apenas na estreia sobre a Bulgária. Na sequência, derrota por 3x1 contra a Hungria na despedida de Garrincha. Diante de Portugal, Pelé foi caçado em campo e o desfecho foi melancólico. O craque saiu se contorcendo de dor e levou junto com ele as esperanças da equipe. Eusébio, que viria a ser o artilheiro da Copa, fez dois e deu números finais à partida: 3x1.

A final, disputada por Inglaterra e Alemanha Ocidental ficou famosa por ser um dos jogos mais polêmicos da história. Ao fim dos 90 minutos, o placar mostrava 2x2 e as equipes seguiram para a prorrogação. Ainda na primeira etapa, Hurst chutou no travessão e a bola quicou perto da linha. O árbitro validou o gol que deixou os anfitriões na frente. Empurrados por quase 97 mil pessoas em Wembley, os ingleses fizeram o quarto e sagraram-se campeões, para delírio da sua torcida.

Pelé e Garrincha: pura genialidade

Se com 17 anos, o vestibular é o teste que pode definir o futuro de muitos jovens, no mundo do futebol, Pelé, então promessa da seleção brasileira em 1958, fez da sua estreia em mundiais a prova que abriu espaços para uma carreira de fama internacional com essa idade. Na Copa do Mundo da Suécia, no entanto, o futuro rei do futebol não era titular e só foi escalado no terceiro jogo, após recuperar-se de uma lesão, para o alívio do técnico Vicente Feola. “Pode ter razão, mas o doutor não sabe o que é mais importante no futebol. Se o joelho de Pelé estiver bem, vai jogar”, bradava o treinador durante o Mundial.

DUREZA Pelé apanhou muito contra os portugueses, que venceram o Brasil em 1966

Mas fazer gols, maior talento do craque, só foi mostrado na partida seguinte, na vitória por 1x0 diante do País de Gales, nas quartas de final, quando anotou o primeiro dele em Copas - até hoje, o tento de um atleta mais jovem em mundiais. Daí em diante, deslanchou. Na semifinal marcou três vezes em cerca de 20 minutos contra a França de Just Fontaine na goleada por 5x2 no histórico estádio Rasunda. Na final, o resultado se repetiu, dessa vez com dois gols do craque e consagração com a primeira Copa do Mundo verde-amarela. O palco foi o mesmo da semifinal e recebeu um público de aproximadamente 50 mil pessoas na decisão. Se considerados apenas os números do atacante em mundiais, o camisa 10 registra 12 gols, sendo seis em 1958, um em 1962, um em 1966 e quatro em 1970. Ao todo, marcou 95 vezes em 115 partidas, incluindo amistosos, com uma média de 0,82 por jogo ao longo dos 14 anos em que defendeu a seleção, desde a estreia contra a Argentina pela extinta Copa Roca em 1957 até a despedida em 1971 para quase 140 mil espectadores em amistoso contra a Iugoslávia, no Maracanã.

Enquanto na Suécia Pelé tomou conta das ações e ditou o ritmo da seleção brasileira, em 1962, no Chile, outro craque passou a escrever a história do futebol, mas dessa vez, com pernas tortas. Com uma lesão na virilha do camisa 10 logo na segunda partida da competição, no empate por 0x0 contra a Checoslováquia, uma outra liderança tomou as rédeas do ataque: Garrincha. Aos 28 anos, o já experiente camisa 7, auxiliado por Vavá e Amarildo, brilhou na competição e foi peça-chave na campanha do bicampeonato, sagrando-se ainda artilheiro com quatro gols ao lado de Vavá. Os dois primeiros foram feitos nas quartas no triunfo sobre os ingleses por 3x1. Na sequência, deixou mais duas bolas na rede durante a semifinal contra os chilenos.

GÊNIO Um dos gigantes do futebol brasileiro, Garrincha estreou na Copa de 1958 contra os soviéticos, que ficaram atônitos com seus dribles desconcertantes. Fotos: AFP e Estadão Conteúdo

Na partida, ainda chamou atenção por ter sido expulso aos 36 minutos após agredir o meia Rojas, quando os brasileiros já venciam por 4x2 no estádio Nacional do Chile. O mais inusitado foi que, mesmo após o cartão vermelho, Garrincha foi liberado para atuar na decisão contra a Checoslováquia. Relatos da época contam que a presença do craque foi facilitada após uma pressão do então primeiro-ministro Tancredo Neves, com apoio do presidente João Goulart e ajuda do mandatário chileno, que teria até enviado uma carta à Comissão Disciplinar da Fifa para a escalação do Mané ser garantida. Representante do “futebol moleque” e responsável por dribles desconcertantes, Garrincha possui ainda outro tento, marcado na Copa seguinte.

O retrospecto do atacante pela Canarinho era tão impressionante que ao longo de suas 60 apresentações deixou sua marca 17 vezes e só perdeu uma vez, justamente na despedida. A derrota por 3x1, ocorreu no segundo jogo do Brasil no Mundial de 1966, diante da Hungria. A estreia ocorreu 11 anos antes, em 1955 contra o Chile. Se sozinhos já eram craques, juntos tornaram-se imbatíveis. Em 40 jogos em que Pelé e Garrincha estiveram lado a lado, foram 35 vitórias e cinco empates, com um aproveitamento igual a 93,7%. Durante esta parceria, foram 44 gols do Rei e dez do Mané, dando a seleção uma média de três gols por partida. O adeus da dupla nos gramados ocorreu diante da Bulgária, primeiro jogo da fraca campanha de 1966 na Inglaterra. Como coroação dessa parceria de ouro, o resultado foi 2x0, com um gol para cada atacante. Já com 32 anos, o camisa 7 não seguiu mais na seleção depois daquele mundial, enquanto o camisa 10 foi convocado ainda para a Copa de 1970, no México, para levantar o tricampeonato.