1950 - Mais doloroso do que o 7x1

Por Heitor Nery

As duas primeiras Copas após a Segunda Guerra Mundial foram de muita crueldade com os favoritos. Em 1950, o Brasil contagiou a nação em busca do título. Faltou combinar com os uruguaios, que venceram por 2x1 e instituíram o Maracanazo. Em 1954, a Hungria, que não perdia um jogo há quatro anos, caiu para a Alemanha na decisão. Armadilhas da Copa do Mundo.

TRISTEZA Uruguaios venceram o Brasil por 2x1, calando quase 200 mil torcedores no Maracanã

Decepção, tragédia e tristeza. O dia 16 de julho de 1950 representou para muitos brasileiros um verdadeiro pesadelo. Aseleção precisava apenas de um empate em um Maracanã com mais de 170 mil pessoas para conquistar a Copa do Mundo pela primeira vez. O clima de festa já estava montado. Faltou apenas combinar com os uruguaios. Em uma das grandes surpresas da história da Copa do Mundo, a Celeste Olímpica calou um país inteiro para conquistar o bicampeonato mundial (tinha vencido em 1930), contando com nomes que trazem um frio na espinha dos brasileiros até hoje, como Obdulio Varela, Schiaffino e, principalmente, Ghiggia, autor do gol que deu o título para os uruguaios e concretizou o “Maracanazo”.

A expectativa antes da Copa do Mundo também ajudava a criar o clima de otimismo. As equipes europeias ainda estavam enfraquecidas como consequência da Segunda Guerra Mundial. A Itália, em particular, também contou com um time bastante enfraquecido por conta da tragédia de Superga, em 1949, quando todos os jogadores do Torino, que formava a base da equipe italiana naquela época, faleceram em um acidente aéreo. A grande preocupação do Brasil seria com a saúde de Zizinho, seu principal jogador, que estava com uma lesão no joelho. Uma lenda conta que os médicos da seleção teriamaté utilizado remédios para cavalos como uma maneira de acelerar a recuperação do atleta.

NÃO DEU Mesmo com nove gols marcados na Copa, Ademir não conseguiu levar Brasil ao título

Mesmo sem perder na primeira fase, as atuações do Brasil contra México, Suíça e Iugoslávia não agradaram a crônica esportiva da época e diminuíram a confiança com a equipe. Algo que só seria recuperado no quadrangular final, com as goleadas por 7x1, contra a Suécia, e 6x1, contra a Espanha. Os placares elásticos devolveram o clima de “já ganhou” no país. Afinal, contra os mesmos adversários,o Uruguai encontrou dificuldades em suas partidas. Bastava confiar no ataque comandado pelo pernambucano Ademir, até hoje o maior artilheiro da seleção em uma única edição de Copa, Zizinho e Jair para a festa. O Brasil sairia na frente com Friaça, logo no início do segundo tempo, o que só fez aumentar a festa no Maraca. Mas os gols de SchiaffinoeGhiggia, que definiram a virada uruguaia, colocaram uma gigantesca ducha de água fria na cabeça de cada brasileiro ao fim da partida. Sessenta e quatro anos antes do fatídico 7x1 contra a Alemanha, a derrota por 2x1 para o Uruguai representaria o primeiro grande trauma do futebol verde e amarelo. Jogadores como Bigode e o goleiro Barbosa sofreriam na pele o preço do “Maracanazo”, principalmente o camisa 1, consideradoomaior culpado pelo resultado da partida. Ambos se tornaram símbolos de uma geração talentosa, mas que, por uma influência do destino, se tornou inesquecível pela maneira que menos esperavam.

Início da Era dos “craques sem Copa”

Favoritos também caíram em 1954

A seleção brasileira de 1950, no entanto, não seria a única equipe a chegar com um enorme favoritismo e depois ser derrotada em uma final de Copa. Logo na competição seguinte, em 1954, na Suíça, a Hungria era a seleção a ser batida. Os jogadores, conhecidos como “Mágicos Magiares”, não perdiam uma partida desde 1950. A equipe contava como atletas lendários como Puskás, Kocsis, artilheiro daquele mundial com 11 gols, Czibor e Hidegkuti. Para muitos, o título da Hungria era só uma questão de tempo.

Na primeira fase, a Hungria atropelou. A equipe marcou 17 gols em apenas duas partidas, ganhando da Coreia do Sul por 9x0 e da Alemanha Ocidental por 8x3. Os alemães, no entanto, entraram em campo sem sua força máxima, visando poupar os jogadores para a partida decisiva contra a Turquia.

Com os dois triunfos, a Hungria garantiu a vaga no matamata, onde enfrentaria o Brasil. Mesmo sem contar com Puskas, que se machucou na partida anterior e só voltaria a atuar na final, a equipe europeia venceu por 4x2 em um confronto marcado pela violência dentro e fora de campo. Na semifinal, uma outra seleção sul-americana pela frente: o Uruguai. ACeleste, ainda invicta em Copas do Mundo, representou um grande desafio para os magiares, que precisaram da prorrogação para vencer os uruguaios.

Na decisão, a Hungria teria um adversário já conhecido: a Alemanha Ocidental, rival na primeira fase. Ao contrário do duelo anterior, o técnico Sepp Herberger escalou os melhores jogadores disponíveis.Apartida começou de maneira eletrizante. Logo aos oito minutos, a Hungria já vencia por 2x0, com direito a gol de Puskas, ainda limitado por conta da lesão sofrida contra a própria Alemanha. Os adversários não deixaram barato e empataram ainda aos 18 minutos do primeiro tempo. A partida seguia empatada até os 39 minutos da segunda etapa, quando Rahn anotou aquele que seria o gol da virada da Alemanha. Puskas ainda encontraria tempo para empatar a partida, mas o bandeirinha anotou impedimento em uma decisão questionada até hoje. Com isso, algo que pouquíssimas pessoas imaginavam aconteceu: a poderosa Hungria cairia derrotada por 3x2 para a Alemanha, no jogo que ficaria conhecida como “O Milagre de Berna”.

MILAGRE DE BERNA Favorita, Hungria de Puskás perdeu a final de 1954 para a Alemanha. Foto: Estadão Conteúdo

As Copas de 1950 e 1954 também ficaram marcadas pelos primeiros grandes craques que não conseguiram um título mundial em seus currículos. Tanto Zizinho, na Copa disputada no Brasil, quanto Puskás, no Mundial da Suíça, foram eleitos os craques das competições, mas deixaram os torneios apenas com o vice-campeonato, perdendo a oportunidade de conquistar o principal torneio de seleções do planeta.

Um dos principais nomes do Brasil nas décadas de 40 e 50, Tomás Soares da Silva, o “Zizinho”, foi apontado como uma inspiração por ninguém menos que Pelé. O Rei do Futebol afirmou que se encantou com Zizinho quando ele atuava pelo São Paulo, clube por onde conquistou o Campeonato Paulista de 1957, sendo considerado por muitos analistas da épocaomelhor da competição. O jogador, no entanto, teriaoMundial de 1950 como o único de sua carreira.

Apesar do bom desempenho no São Paulo, foi no Rio de Janeiro que Zizinho viveu seus melhores momentos na carreira. No futebol carioca, ele defendeu as camisas do Flamengo, por onde conquistou três campeonatos estaduais, e do Bangu, clube onde foi duas vezes vice-campeão carioca. De acordo com um ranking histórico elaborado pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol, Zizinho foi considerado o 47º melhor jogador do século 20 e o 10º melhor da América do Sul. Colocações que poderiam ser ainda melhores caso ele tivesse levantado a Jules Rimet com a seleção brasileira.

Ferenc Puskás quase seguiu o mesmo caminho do brasileiro. Não conseguiu conquistaromundo com a seleção húngara, é verdade, mas realizou este sonho com a camisa do Real Madrid. Jogando ao lado de Di Stéfano, Puskas participou da conquista da Copa Intercontinental dos merengues em 1960, quando o Real derrotou o Peñarol, do Uruguai, para levantar seu primeiro título da história da competição.

A chegada a Madrid, contudo, foi bastante conturbada. O jogador viajou até a Espanha como Honvéd, clube húngaro que formou a base da seleção vice-campeã em 1954, para enfrentar o Athletic Bilbao pela Liga dos Campeões de 1956. Por conta de um problema político na Hungria, invadida pelas tropas de Stálin após a Revolução Húngara de 1956, os jogadores do Honvéd, incluindo Puskás, se recusaram a retornar ao país. A Fifa, então, proibiu que os atletas do clube voltassem a atuar profissionalmente até que regularizassem sua situação com a federação local. Ele só voltaria a jogar dois anos depois, quando fechou com o Real Madrid em 1958. Na Espanha,OMajor Galopante conquistou outros feitos coletivos e individuais como cinco títulos do Campeonato Espanhol e três da Liga dos Campeões. Até hoje, Puskás é o quinto maior artilheiro da história do Real.