Conexão Rússia

Por Gabriela Máxima e Luana Ponsoni

Um pouquinho da Rússia no Recife e um pouquinho de Pernambuco no país da Copa. As repórteres Gabriela Máxima e Luana Ponsoni conversaram com a professora russa Larissa Chevtchenko, que vive na capital pernambucana há 20 anos, e o garanhuense Fernando DDI, que há dez anos atua no beach soccer na Rússia. Eles falaram curiosidades e do choque cultural de viver em países com costumes tão diferentes.

CONHECIMENTO A professora russa Larissa Chevtchenko é uma das principais responsáveis por divulgar a cultura de seu país no Nordeste

RÚSSIA NO RECIFE

Um pedacinho da Rússia no Recife. Essa é a proposta do trabalho desenvolvido pelo Centro Cultural Brasil-Rússia na capital pernambucana. A entidade foi inaugurada em 2007 para divulgar a cultura do país europeu no Nordeste, realizando um intercâmbio entre as nações. Nesses 11 anos de atividade, o Centro reuniu pessoas interessadas em aprender sobre os costumes da Rússia: idioma, literatura, música, cinema, eventos, datas históricas, entre outras curiosidades. O Centro também é responsável pelo acolhimento de turistas russos em Pernambucano e promove encontros e palestras com o intuito de fortalecer a relação entre Brasil e Rússia. Antes do lançamento em 2007, a Casa da Amizade Brasil-URSS era responsável por estreitar a comunicação entre os dois países. A entidade, porém, encerrou as atividades em 1991, junto com o fim da União Soviética. Durante o intervalo de 16 anos, o país europeu ficou sem representatividade no Recife.

A PRESIDENTE

A professora russa Larissa Chevtchenko é uma das principais responsáveis por divulgar a cultura de seu país no Nordeste. Ela mora no Recife desde 1999 e é a atual presidente do Centro Cultural Brasil-Rússia. Coordena todas as atividades e reúne os alunos em encontros mensais. Faz o possível para manter os laços culturais vivos na capital pernambucana. “É uma oportunidade única de conhecer e aprender sobre a Rússia”, garante. Natural da Cidade das Estrelas, a 25km de Moscou, Larissa transferiu sua vida para o Recife quando casou com Fernando Barbosa - pernambucano que faleceu no ano passado. Chevtchenco cursou Letras na Universidade Estadual de Moscou e fez mestrado em Sociologia. Por isso, boa parte do conhecimento que transmite aos alunos em palestras pelo Norte e Nordeste gira torno da literatura. Fiódor Dostoiévski, Boris Pasternak e Lev Tolstói estão entre os clássicos.

CHOQUES CULTURAIS

Assim que aportou no Recife, Larissa revelou que ficou impressionada com dois cenários do Brasil: a pobreza e o analfabetismo.

POBREZA

“A pobreza aqui é muito grande. Lá, eu não via muita pobreza, porque de qualquer jeito, as diferenças sociais na União Soviética não eram grandes. As pessoas eram mais ou menos do mesmo nível. Fiquei chocada porque observava as pessoas tirando comida do lixo para comer. Para a minha geração isso é chocante. Claro que hoje na Rússia há problemas que o capitalismo trouxe, relativos às diferenças sociais. Mas fui criada no período da União Soviética e esse tipo de situação não existia”.

ANALFABETISMO

“Eu não entendia como era possível um adulto não saber escrever e ler seu próprio nome. Eu acreditava que a partir do momento que dominasse a língua eu me sentiria melhor. Mas não. Sempre era um choque. O que para mim era difícil de entender, para todas as outras era encarado como natural. Isso também aconteceu com informalidade das relações. Na Rússia você se refere a um desconhecido por ‘você ou senhor’. Aqui, o ‘tu’ é bastante comum e eu não entendia.

NATUREZA

“Há muitas frutas e eu gosto muito de frutas. A natureza aqui é muito bela. Na Rússia também há natureza, mas ela é mais dura. Aqui é um paraíso. Basta levantar o braço e você já pode pegar manga, banana. É exagerado essa questão, porque há muitas frutas e podemos nos alimentar muito bem”.

FESTA DAS NAÇÕES

No próximo final de semana será realizada mais uma edição da Festa das Nações no Recife. O evento reunirá representantes de Rússia, Portugal, Albânia, Palestina e países da África e tem como objetivos revelar a cultura das nações para os pernambucanos. A mostra também faz parte das festividades do Centenário de Lions Internacional e contará com exposição de objetos típicos, apresentações culturais e degustação de comidas típicas. Para quem gosta de viajar e conhecer outros países, os representantes de cada nação vão divulgar oportunidades de turismo. O evento está marcado para os dis 9 e 10 de junho, no Paço Alfândega, no bairro do Recife.

Pernambuco

O RECIFE NA RÚSSIA

BEACH SOCCER O jogador Fernando DDI é conhecido internacionalmente pelos feitos conquistados junto à seleção brasileira de beach soccer e pelos avanços conquistados junto à seleção russa da modalidade

O jogador Fernando DDI é conhecido internacionalmente pelos feitos conquistados junto à seleção brasileira de beach soccer. O mais recente foram os 100 jogos com a camisa do Brasil. Poucos sabem, porém, que o atleta natural de Garanhuns foi um dos responsáveis pela evolução da Rússia no beach soccer. Ele foi o primeiro brasileiro convidado a atuar na modalidade em solo russo. Desde 2008, vem alternando temporadas nas competições interclubes daquele país. Já representou o Krylya Sovetov, o Lokomotiv e o Novator. “Eu tive um papel até importante no desenvolvimento do beach soccer na Rússia e tenho muito orgulho. O treinador Gustavo Zloccowick me convidou para jogar lá e eu não esperava passar 10 anos. São 10 anos de alegrias, conquistas e eu fico muito feliz de representar Pernambuco na Rússia”, contou. “A importância da minha chegada é que eu conversei com o treinador que precisava mostrar um pouco da técnica. Eles sabiam, entendiam do jogo, muito em razão do futsal, mas não sabiam os movimentos certos do beach soccer. Mas aí pegaram direitinho, tanto que são bicampeões mundiais e é uma equipe bem forte”, completou.

CHOQUE CULTURAL

Um dos cons­tran­gi­men­tos que eu tive com o idioma foi uma situação de jogo. Era uma partida muito quente. Quando vamos para lá contratados, queremos mostrar um serviço de qualidade. É muita informação quando você chega, muita palavra. E o idioma deles soa meio agressivo, né? Eu já tinha levado umas duas ou três entradas desse mesmo jogador. Após mais uma, ele veio me pedir desculpas e, na verdade, eu achei que ele estava me xingando. Aí eu respondi de forma ríspida em português mesmo. E o treinador me pediu calma, dizendo que, na verdade, ele estava se desculpando. Então sugeri ensinar ao russo a pedir desculpas em português porque no idioma dele soava muito agressivo.

CULINÁRIA

Na adaptação, o que pesa mais para o atleta é a comida. Os russos gostam de mostrar as suas tradições, cultura. Então, quando vinham os pratos muito típicos da Rússia, a gente tinha essa dificuldade. Os pratos russos geralmente são um pouquinho oleosos, o tempero é um pouco apimentado também. Algumas coisas com verdura não gostávamos muito. Eles fazem uma sopa de beterraba (chamada de borsch) meio estranha. Mas, com o passar do tempo, fomos conhecendo outras comidas e adaptando para o jeitinho brasileiro nosso.

TEMPERATURA

O clima é realmente meio complicado. Quando chegamos na Rússia, a gente sabia que ia pegar temperaturas normais de jogo. De 20˚ a 30˚, a gente conseguiu pegar. Mas no começo da chegada, ainda se pega o fim do inverno. Eu cheguei a jogar com -30˚. Tudo bem que era indoor, mas esse primeiro impacto é ruim, pois estamos acostumados a sair, dar uma volta na rua. Ficamos em um ‘casulo’, dentro do hotel. Só saia para entrar no ônibus e ir ao jogo. Depois a gente vai se adaptando bem.

VODKA

É uma tradição muito forte para eles. E sempre fazem questão que a gente experimente essa vodka que é tão falada no mundo. Houve uma vez que acabou um campeonato, eram 16 equipes, e sempre tem uma confraternização depois do evento. E aí eu fui obrigado a experimentar 16 vodkas, de cada equipe. Era só um pouquinho, mas, somando as 16, eu fiquei um pouco embriagado. Pedi para retornar ao hotel, pois eu não estava aguentando. É uma bebida muito forte realmente. É a bebida pura, né? E foi um momento meio engraçado e constrangedor.

COPA DO MUNDO

A minha torcida para a Rússia na Copa do Mundo será meio complicada. Eu tenho muito amor pelos clubes da Rússia, mas como eu também sou da seleção brasileira de beach soccer, a gente joga muito contra a Rússia. E a Rússia é uma equipe que traz sempre muita rivalidade. Então vou continuar torcendo para o meu “Brasilzão”. Mas a Rússia, se for segundo, terceiro, também está legal, mas o Brasil, sempre, em primeiro lugar.

Ligação na música

Pensar na influência de elementos russos na música pernambucana parece algo um tanto improvável. Mas é possível encontrar, ao menos, dois exemplos ao observar a produção de artistas locais. Entre os inúmeros sucessos gravados por Luiz Gonzaga, dificilmente alguém esquece de apontar Pagode Russo, de 1984, como um dos mais conhecidos. Duas décadas antes, o astronauta soviético Yuri Gagárin, primeiro homem a viajar ao espaço, serviu de inspiração ao compositor Gildo Branco na elaboração do frevo A Lua Disse, hit do Carnaval de 1962.

PAGODE RUSSO

Inspiração

Há, pelo menos, três versões sobre os motivos que levaram Luiz Gonzaga e o parceiro João Silva a comporem a música. A letra traz a figura dos cossacos - povo do interior da Rússia asiática - para fazer um trocadilho. A boate Cossacou, que muitos acreditam ter existido em Moscou, também é citada, assim como a similaridade entre o frevo pernambucano e a kazachoc, a dança dos cossacos. “A música de Luiz Gonzaga ultrapassou barreiras e chegou para o mundo. Chegou à própria Rússia. Há quem diga que ele teve essa vivência e fez Pagode Russo. Mas existem várias versões. A mais aceita diz que foi uma grande licença poética porque ele usa termos meio pejorativos ‘dançar para não ficar com o cossaco fora’. Mas não há nenhum registro conhecido de Gonzaga falando sobre o que o inspirou”, explicou a educadora musical do Museu do Cais do Sertão, Damaris Referino.

Damaris Referino, educadora musical do Museu do Cais do Sertão

Especulações

Versão 1

Um grupo de artistas circenses russos fez uma excursão pelo Sertão pernambucano e teria deixado um escopo do que seria a versão imortalizada na voz de Gonzagão. João Silva a teria encontrado e, junto com Luiz Gonzaga, feito as adaptações necessárias à letra conhecida em todo o Brasil.

Versão 2

Luiz Gonzaga e João Silva estariam em uma praia e observaram dois rapazes estrangeiros trajando saia e tocando uma espécie de gaita. “Vinham dois cossacos, de saia. Eles têm uma saia, é o russo, sei lá, é um europeu aí. E lá vem eles com aquele saiote, bonito, lindo e uma gaita de lado. Mas de sandália havaiana. E eu disse: ‘Gonzaga, olha o que vem ali!’. Ele olhou e disse: ‘Oxe! E é homem?’. Eu disse que era. Ele respondeu: ‘Não brinca!’. Então, pedi que ele imaginasse como seria se nós dois chegássemos daquele jeito ao Sertão. Ele riu e disse que a gente nem entrava em Exu. Foi nesse momento que sugeri que prestássemos uma homenagem aquele povo. Ele disse que já tinha até a ideia: Pagode Russo”, contou João Silva, falecido em 2013, no documentário Hoje é Dia de Luiz.

A LUA DISSE

Esse frevo levou o nome do astronauta soviético Yuri Gagárin à boca do povo pernambucano em 1962. Um ano antes, ele foi o primeiro homem a ir ao espaço e dar uma volta na Terra. O feito serviu de inspiração ao compositor Gildo Branco. A música que passou a ser tocada em todas as emissoras de rádio do Estado. “Todos os lugares nos informam que Yuri Gagárin foi o primeiro homem a completar uma volta em torno da Terra. Mas a gente pesquisa e ninguém fala que o astronauta passou uma vez no Recife. Entendam. Não é que a nave soviética tenha passado acima do Brasil em 1961, e numa pontinha do litoral sobre o Recife. Mas o fato é que o magnífico Yuri Gagárin, depois de 1961, mais precisamente no carnaval de 1962, passou em disco de vinil e terrestre em todas as rádios de Pernambuco”, documenta trecho do livro Dicionário Amoroso do Recife, de Urariano Mota.

Curiosidades

MOSCOUZINHO

Jaboatão dos Guararapes teve o primeiro prefeito comunista na história do Brasil. Por conta do episódio, o município localizado na Região Metropolitana do Recife (RMR) ficou conhecido como Moscouzinho, referência pejorativa à capital da Rússia, Moscou. Manoel Calheiros foi eleito o 27º prefeito da cidade no dia 26 de outubro de 1947, pelo Partido Social Democrático (PSD). O curioso é que Calheiros seguia os ideias esquerdistas, enquanto a sigla apresentava fortes características anti-comunista. O fato é que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) estava ilegal e o PSD, sigla orligárquica liderada por donos de usina, tinha interesse em alcançar o poder. Calheiros era popular e um forte nome para ganhar a eleição. Os dois grupos reuniram os interesses e elegeram o primeiro prefeito comunista. Por causa do “arrumadinho”, Jaboatão foi apelidada pejorativamente como Moscouzinho.

SERRA DAS RUSSAS

Trecho da BR 232 que divide os municípios de Pombos, Chã Grande e Gravatá, a Serra das Russas não tem nada a ver com o país anfitrião da Copa do Mundo de 2018. A referência do nome teve sua grafia confundida com “ruça”, que significa nevoeiro no português informal. A região é caracterizada pela altimetria irregular, com aclives e declives, sendo um trecho que exige cuidado para quem está de passagem. Também é bastante comum o local ser coberto por neblina, o que dificulta o trânsito na região. “A coisa está ruça”. A expressão faz referência a uma situação complicada, nada favorável. Esta é mais uma explicação para o local, que não apresenta as melhores condições de transporte. No passado, o trecho foi um dos mais complicados para desbravar o interior de Pernambuco.