A nova revolução russa

Por Heitor Nery

Pela primeira vez em sua história, a Rússia irá sediar a Copa do Mundo de Futebol. A partir do dia 14 de junho, quando os anfitriões vão enfrentar a Arábia Saudita na abertura do evento, onze cidades russas começam a receber em seus estádios torcedores e delegações de diversos países do mundo, além dos milhões de espectadores que irão manter seus olhos no país. Mas tornar a Rússia uma futura potência no futebol não é que o governo russo espera com a realização do Mundial. Muito menos o título da seleção, algo que os próprios russos sabem que dificilmente irão conquistar. É justamente com a atenção do globo que o governo de Putin espera fazer da Copa um pontapé para uma nova “revolução”.

CARTÃO POSTAL Praça Vermelha é um dos principais pontos turísticos da capital Moscou

Em sua história, a Rússia teve três momentos de grande influência no resto do mundo. Um no século XIX, na Era dos Czares, quando esteve entre os principais impérios do mundo e foi um celeiro cultural, com nomes como Dostoiévski, Tolstoi e Tchaikovsky. Outro foi após a Revolução de 1917, reforçado principalmente após a vitória na Segunda Guerra, quando consolidou-se como potência socialista, contrapondo os Estados Unidos, capitalistas. E o atual, na gestão Putin, quando voltou a se colocar como um importante ator político após o fim da União Soviética.

E é justamente para reforçar a ideia de que se recuperou economicamente da crise após o fim da URSS, além de se colocar como um país de perfil revigorado e aberto, diferente dos tempos da “cortina de ferro”, que a Rússia se candidatou para ser sede do Mundial. O uso de competições esportivas como demonstração de “soft power” pela Rússia não é uma novidade. A Olimpíada de 1980 em Moscou, ainda durante a União Soviética, e da Olimpíada de Inverno de Sochi em 2014 são outros exemplos no país. E a realização da Copa mostra que o país não vai poupar investimentos para tornar estes objetivos uma realidade. Ao todo, o orçamento para todas as obras do Mundial, dos estádios até a infraestrutura, foi de R$ 38,4 bilhões. Um valor maior que o gasto feito para a realização do Mundial no Brasil, orçado em R$ 25,5 bilhões pelo Tribunal de Contas da União (TCU), corrigido, em valores atuais, para R$ 31,34 bilhões. Dos 12 estádios que irão receber os jogos, dez foram construídos do zero, com apenas dois sendo reformados. E, assim, como no Brasil, os riscos de alguns estádios se tornarem elefantes-brancos é grande, principalmente em Sochi, Kalinigrado, Saransk e Volgogrado, cidades com clubes de pouca expressão no país e que disputam a Segunda e Terceira divisões do futebol local.

Conheça os estádios

O país, no entanto, terá preocupações mais imediatas durante o Mundial. A pressão internacional por conta dos recentes eventos que caíram sobre as suspeitas do governo de Moscou, como a interferência nas eleições americanas e o envenenamento de um ex-espião na Inglaterra, além do envolvimento do país com a Guerra na Síria e tomada da Crimeia. São ações como essas na esfera internacional que a Rússia espera colocar uma cortina de fumaça durante a Copa. Mas que devem ir à tona ainda no início do torneio. Alguns países já anunciaram um boicote diplomático à competição, como a Islândia. O Reino Unido, a Polônia e a Dinamarca também indicaram que poderiam aderir ao boicote e não enviar uma delegação política para a Rússia. O secretário de relações exteriores do Reino Unido, Boris Johnson, comparou a Copa do Mundo de 2018 com a Olimpíada de 1936, quando Hitler utilizou a competição como propaganda de seu regime nazista. Ele também afirmou que a Copa no país poderá ser utilizada como forma de esconder os defeitos de um governo corrupto. No entanto, ao contrário da Olimpíada de Moscou em 1980, realizada em plena Guerra Fria, não irá existir nenhum boicote esportivo ao evento.

Mas, assim como ocorreu com África do Sul e Brasil, ter boa parte dos olhos do mundo voltados para o seu país não irá apenas colocar uma luz nas suas virtudes, mas também em seus problemas. Questões como o racismo e a homofobia ainda são bastante presentes dentro da sociedade russa. A repressão à comunidade LGBT tem sido uma das maiores críticas internacionais ao governo Putin. Além disso, nos estádios de futebol, é comum ouvir reclamações de racismo. Cerca de um mês antes da realização do Mundial, no dia 8 de maio, a Rússia foi multada por conta de cantos racistas de sua torcida em uma partida contra a França. O paraibano Hulk, quando atuou pelo Zenit de São Petersburgo, foi outra vítima do racismo no futebol do país. As dúvidas de como os turistas dessas minorias serão recebidos podem atrapalhar os planos do governo de se mostrar um país mais moderno, além das questões de segurança com os hooligans russos. Durante a Copa das Confederações, realizada em 2017, a Fifa considerou como satisfatória as ações para combater a violência e o preconceito. Mas somente agora, com a realização do Mundial, que a Rússia colocará a prova todas as suas intenções com a Copa.

    Personalidades

  • Fiódor Dostoiévski

    Fiódor Dostoiévski

    11/11/1821

    9/2/1881

    Um dos principais escritores da história russa e do realismo, Dostoiévski foi uma das mais influentes mentes da literatura do século XIX. Ficou marcado pelos seus "romances psicológicos", tratando de temas ligados a culpa, suicídio e loucura. O assassinato de seu pai e o período em que ficou quatro anos preso na Sibéria são fatos que trouxeram consequências para a produção do escritor. Entre seus romances mais conhecidos estão "Crime e Castigo", "O Idiota" e "Os Irmãos Karamazov". Livros que influenciaram pensadores até mesmo fora do campo da literatura, como Siegmund Freud e Friedrich Nietzsche.

  • Leon Tolstói

    Leon Tolstói

    9/9/1828

    20/11/1910

    Nascido em uma família humilde, Leon Tolstói perdeu seus pais ainda criança, aos nove anos de idade, sendo cuidado por preceptores. Lutou por um período na Guerra da Crimeia, mas, desiludido com a experiência no campo de batalha, se demite do exército em 1956, escrevendo o livro "Memórias de Sebastopol", onde aborda suas memórias do conflito. Seu primeiro trabalho de destaque foi “Guerra e Paz”. Após uma profunda crise pessoal, Tolstói volta a sua escrita para a religião, criticando fortemente a Igreja Ortodoxa e adotando um tom mais radical dentro do cristianismo evangélico. Sua defesa de ideias pacifistas e de resistência não-violenta influenciaram pensadores do século XX, como Gandhi e Martin Luther King.

  • Piotr Tchaikovsky

    Piotr Tchaikovsky

    7/5/1840

    6/11/1893

    Compositor da época do romantismo, Tchaikovsky é um dos mais conhecidos nomes da música clássica. Começou a tocar piano desde os cinco anos de idade, mas só em 1863, com 23 anos de idade, começa a estudar música no Conservatório de São Petersburgo. Suas turnês pela Europa e pelos Estados Unidos ajudaram na internacionalização de sua obra, tornando composições como "O Lago dos Cisnes" e "O Quebra-Nozes", clássicos do balé, reconhecidas mundialmente. Apesar da carreira de sucesso, a vida pessoal de Tchaikovsky foi marcada por crises de depressão, prejudicando sua vida financeira. Algumas dívidas que contraiu foram pagas pelo imperador Alexandre III, que passou a lhe pagar uma pensão mensal. Morreu com cólera.

  • Vladimir Lênin

    Vladimir Lênin

    22/4/1870

    21/1/1924

    Vladimir Ilyich Ulyanov, o Vladimir Lênin, foi um dos líderes da Revolução Russa de 1917, que encerrou a era dos Czares no país, marcada por nomes como Nicolau II, Catarina, a Grande, Pedro, o Grande, Alexandre III, entre outros. Filho de um alto funcionário do governo russo, Lênin só deu início às atividades revolucionárias após a morte de seu irmão, condenado por fazer parte de um grupo que tramou o assassinato do Czar Alexandre III. Na Universidade de Kazan, entrou em contato com as teorias marxistas, tentando adaptar as teses de Marx para um país numa sociedade praticamente feudal, como a Rússia. Após ser preso e exilado na Sibéria, Lênin sai da Rússia para a Europa Oriental, retornando em 1917 para participar da revolução que derrubaria o governo czarista.

  • Josef Stálin

    Josef Stálin

    18/12/1878

    5/3/1953

    Georgiano de nascimento, Stálin foi o governante que esteve mais tempo no governo da União Soviética, estando na frente do país por 29 anos e 43 dias (1924-1953). Foi um dos aliados de Lênin na Revolução de 1917 e o seu sucessor como líder da URSS, derrotando Leon Trotsky. Adotou o nome Stálin, que significa homem de aço. Seu governo ficou marcado pela vitória na Segunda Guerra Mundial, junto com os aliados, pela reconstrução da URSS no período pós-guerra, pelo crescimento exponencial da indústria do país e o início da Guerra Fria, quando a URSS e os EUA emergiram como as principais potências globais. Seu governo foi autocrático e de fortes perseguições contra seus oponentes políticos, o que contribuiu para a sua manutenção no governo do país.

  • Mikhail Gorbachev

    Mikhail Gorbachev

    2/3/1931

    Oitavo líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev entrou para a história como o último governante da história do país. Foi eleito secretário geral do partido comunista em 1985 diante de um país em forte crise econômica, iniciando um processo de reformas que visavam prolongar a vida do país, mas que aceleraram o seu fim: a "Perestroika" (reestruturação) e a "Glasnost" (abertura), que representavam a reestruturação econômica e abertura política da URSS. As reformas geraram críticas tantos de grupos mais conservadores, contra as reformas, e os grupos mais liberais, que pediam uma maior aceleração das mudanças. Após uma tentativa frustrada de golpe, Gorbachev renuncia em 25 de dezembro de 1991, com a URSS se dissolvendo oficialmente um dia depois.

  • Yuri Gagarin

    Yuri Gagarin

    9/3/1934

    27/3/1968

    Com apenas 27 anos, Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a viajar para o espaço. No dia 12 de abril de 1961, a bordo da Vostok-1, uma nave completamente automática, a missão do cosmonauta durou uma hora e 48 minutos, completando uma volta na órbita da Terra, quando ele declarou a célebre frase "a Terra é azul!". Ao lado do lançamento do satélite Sputnik 1, no dia 4 de outubro de 1957, a missão de Gagarin foi um dos símbolos da Corrida Espacial do lado da URSS, algo que foi igualado pelos EUA com a Apollo 11, missão que levou o homem à lua. Três meses depois de seu feito, Gagarin esteve no Brasil, sendo recebido pelo então presidente Jânio Quadros. Outra personalidade da corrida espacial russa foi Valentina Tereshkova, primeira mulher e civil a ir ao espaço, no ano de 1963.

  • Vladimir Putin

    Vladimir Putin

    7/10/1952

    Atual presidente russo, Vladimir Putin trabalhou por 16 anos na KGB, a polícia secreta soviética, ingressando na política após sua saída do órgão. Ex-primeiro-ministro, assume a presidência após a renúncia de Boris Yeltsin. Seu primeiro mandato durou de 2000 a 2008. Foi sucedido por Dimitri Medvedev, um de seus aliados políticos, retornando ao cargo de primeiro-ministro de 2008 a 2012. Em 2012, volta para a presidência, sendo reeleito em 2018. Seus governos ficaram marcados pela recuperação econômica, pela retomada da influência russa no cenário internacional e pela atuação do país pelas guerras na Ucrânia, na Crimeia e na Síria, além das acusações de interferência nas eleições dos EUA em 2016.

Pratos típicos da culinária russa

Prato com Borscht

Borscht

O nome parece estranho e as grafias variam de acordo com o país do leste europeu em que a sopa for preparada, mas como se trata da Copa do Mundo na Rússia, é melhor ficar com o borscht para pedir ou mesmo cozinhar. Tendo a beterraba como principal ingrediente, o prato se destaca pela cor bastante viva. A chef pernambucana Jace Sousa, do Restaurante Mingus, explica que a sopa original costuma levar carne bovina, suína ou até mesmo frango. Cogumelos, pepinos, cebola e tomate completam a mistura russa. Em cima, o creme azedo finaliza o prato, dando um toque agridoce. A versão russa é servida quente.

Prato de Strogonoff

Strogonoff

Muito confundido com um prato de origem francesa, o strogonoff na verdade nasceu na Rússia czarista do século XIX. Mas foi ao chegar na França que ganhou o mundo. A receita russa é bem mais simples do que a versão consumida nos almoços em família de domingo no Brasil. De acordo com o chef Hugo Prouvot, do Barchef, o prato clássico leva apenas carne e creme azedo. O cogumelo e a cebola foram adicionadas em terras francesas, ganhando a batata palha no Brasil. Ainda segundo o chef, o strogonoff está no Top 10 de pratos mais consumidos ao redor do planeta, por se tratar de uma referência no que diz respeito à carne junto ao creme de leite.

Alfabeto cirílico

Com 33 letras, o alfabeto russo já teve muito mais caracteres do que a versão usada atualmente. O cirílico é utilizado em seis países de língua eslava. Além da Rússia, ele é usado na Ucrânia, Macedônia, Sérvia, Bulgária e Bielorrússia. De acordo com a professora russa Larissa Chevtchenko, residente no Recife, cada letra tem um significado, representando uma oração em seu princípio. O A significava “eu, o ser divino”, enquanto o B, letra seguinte, servia para designar “deuses”. Depois vinha “o verbo” e assim até o final. Como um mantra no idioma, lido tanto na horizontal como na diagonal. Mesmo com a inúmeras letras diferentes, a professora reduz o estranhamento. Ela exemplifica utilizando A, O e N como algumas das letras facilmente identificadas por quem utiliza o alfabeto latino. Com as semelhanças, Chevtchenko cita estudos que afirmam: o alfabeto russo é a matriz das outras línguas.

Tá russo?

Já sabendo de todas essas informações sobre a Rússia e sua cultura, vamos conferir como elas são escritas no idioma do país da Copa do Mundo. Encontre no caça-palavras abaixo algumas palavras úteis para a competição:

Caça-palavras em Russo