Jornal do Commercio

Fono na escola

“O fonoaudiólogo também se transforma em professor”

Jaime Luiz Zorzi

Jaime Luiz Zorzi
Foto: Equipe Andreia Naomi

Mestre em distúrbios da comunicação e doutor em educação, o fonoaudiólogo Jaime Luiz Zorzi é conhecido pela trajetória que traçou no ensino infantil, através da criação de programas pedagógicos e supervisão de professores. É ele que tem se envolvido intensamente em programas de formação de docentes do ensino fundamental, com enfoque principalmente no desenvolvimento de propostas para facilitar a alfabetização de alunos com problemas de aprendizagem. E mais: o protocolo que desenvolveu para avaliação de desempenho ortográfico e o programa de ensino de ortografia têm sido utilizados por educadores das redes pública e privada, psicopedagogos e fonoaudiólogos. Nesta entrevista à jornalista Cinthya Leite, ele frisa que os primeiros anos das crianças são essenciais para o desenvolvimento de competências comunicativas. Assim, é importante o olhar do fono nessa fase da vida para a potencialização da aprendizagem ou superação de alterações específicas de linguagem. “Em síntese, se assim podemos dizer, o fonoaudiólogo também se transforma em professor”, reforça Jaime.

JC - Sabemos que, inserido no contexto educacional, o fonoaudiólogo assume o papel de educador. Dessa maneira, como deve ser a participação dele nas escolas?

JAIME ZORZI - O papel do fonoaudiólogo nas escolas pode e deve ter vários enfoques. Primeiramente, ele deve garantir suporte para os educadores e para as famílias. Além disso, a maioria dos alunos inserida em programas de inclusão apresenta problemas de comunicação ou de outros aspectos ligados ao campo da fonoaudiologia, como autismo, deficiências auditivas, intelectual e motora. Cabe também a ele identificar alunos que, embora não estejam em regime de inclusão, apresentam problemas de voz, fala, linguagem oral/escrita e outros indicadores que possam ser considerados como de risco para uma boa aprendizagem. Nesse contexto, a atuação está voltada para a orientação do educador no gerenciamento pedagógico dos alunos, e não no atendimento clínico ou terapêutico. E mais: é um profissional que também participa do planejamento pedagógico, ao colaborar para promover situações favoráveis para o desenvolvimento da linguagem, que é fundamental para o sucesso de qualquer aprendizagem. Se assim podemos dizer, o fonoaudiólogo também se transforma em professor. E quando necessário, ele deve encaminhar as crianças que requerem atendimento clínico a serviços da área da saúde.

JC - As escolas brasileiras reconhecem a importância do fonoaudiólogo no ambiente escolar e como ele deve atuar?

JAIME - Esse reconhecimento é variável. Temos observado diferentes concepções. Infelizmente, ainda predomina uma certa visão clínica do fonoaudiólogo. Nessa perspectiva, ele é visto como o profissional que pode oferecer atendimento aos alunos com algum problema, a fim de que eles possam acompanhar mais facilmente o programa escolar. Temos que reconhecer que essa visão clínica não é fruto de uma mera distorção por parte do educadores, uma vez que ela corresponde a uma imagem que, com muita frequência, os próprios fonoaudiólogos projetam na medida em que atuam predominantemente segundo um enfoque clínico e até de cura. Quando passam a dar espaço e oportunidades para o fonoaudiólogo atuar dentro de uma visão educacional, percebe-se um impacto em toda a população escolar, principalmente quando se foca no desenvolvimento de competências comunicativas em linguagem oral e escrita.

JC - De que forma as escolas podem trabalhar habilidades comunicativas das crianças, com foco na prevenção dos problemas de aprendizagem?

JAIME - Em primeiro lugar, é importante que os educadores compreendam os múltiplos aspectos envolvidos na comunicação, a fim de traçarem planejamentos pedagógicos e expectativas de aprendizagem de forma efetiva. Quando falamos em comunicação, devemos levar em conta três dimensões: o conteúdo (o que dizer), a função (por que dizer) e a forma (como dizer). O conteúdo diz respeito a experiências proporcionadas aos alunos de modo que possam expandir seus conhecimentos e significações sobre a realidade. Essa construção de significados permite a expansão do campo semântico dos alunos e constituirá a riqueza e a diversidade de suas possibilidades de compreender e se expressar através da linguagem. A função está ligada a habilidades de interação social. Quem diz alguma coisa o faz por alguma razão. Para tanto, é preciso desenvolver competências sociais, como obter a atenção do outro, fazer as colocações que deseja, estar sensível às reações do outro, saber quando parar, aprender a ouvir e a refletir sobre o que as outras pessoas dizem, além de propor novos temas. A forma corresponde aos meios empregados para se garantir a comunicação: linguagem oral, escrita, linguagem de sinais, gestos e desenhos.

JC - Além de problemas pontuais, como distúrbios auditivos, dislexia e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), o que pode abrir portas para o desenvolvimento dos problemas de aprendizagem?

JAIME - Alguns problemas de linguagem caracterizam os chamados transtornos ou distúrbios, cuja origem está centrada em dificuldades inerentes à própria criança, como é o caso da deficiência auditiva, do TDAH e da dislexia. Esses problemas podem ser agravados ou minimizados por fatores externos à criança, particularmente a família e a escola. Por outro lado, a maioria dos problemas de aprendizagem vem de fatores que não são intrínsecos às crianças, pois estão ligados a questões culturais, socioeconômicas e até mesmo pedagógicas. Nas classes de menor pode aquisitivo e de baixo nível de escolaridade, o desenvolvimento global da linguagem é significativamente inferior àquele observado em crianças que vivem condições mais privilegiadas. Sabemos o quanto é fundamental esse desenvolvimento como suporte de todo o sucesso escolar, o que aumenta a importância da educação infantil, que deveria estar acessível e se tornar obrigatória a todas as crianças. Seguramente, muitos dos problemas encontrados na educação fundamental e que têm como base um desenvolvimento linguístico mais limitado poderiam ser superados.

“É muito valioso ter um fonoaudiólogo na educação infantil”

Bianca Queiroga

Bianca Queiroga

Presidente do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa), que admitiu a fonoaudiologia educacional como especialidade em 2010, a recifense Bianca Queiroga tem se debruçado em temas relacionados à aquisição de linguagem oral e escrita, dificuldades e distúrbios de linguagem. Com base na caminhada profissional que tem abraçado, ela tem não dúvidas de que o cérebro tem uma capacidade de se adaptar melhor aos estímulos até os 6 anos. Essa premissa deixa claro que a criança, ao ser bem estimulada nessa fase, terá mais facilidade com novas aquisições ao longo da vida. “O fonoaudiólogo tem o papel de promover um ambiente favorável para essa aprendizagem e oferecer ferramentas que estimulam o desenvolvimento da comunicação saudável no tempo esperado”, ressalta Bianca, nesta entrevista à jornalista Cinthya Leite.

JC – Como se dá a relação entre linguagem e aprendizagem?

BIANCA QUEIROGA – É um processo bem intenso e estreito. Basta perceber que, para aprendermos, precisamos nos comunicar bem. Precisamos ouvir, entender o que escutamos e, assim, manter uma comunicação. Essa interação, que se dá através da linguagem, é decisiva para o sucesso de aprendizagem da criança. É por isso que é muito importante ter um fonoaudiólogo na educação infantil, já que nos primeiros seis anos de vida acontece o período crítico do desenvolvimento da linguagem, que é determinante para o sucesso de todo o aprendizado e o amadurecimento cognitivo da criança.

JC – Oferecer estímulos nessa fase da vida é muito decisivo para favorecer as habilidades comunicativas?

BIANCA – A neurociência, que avançou muito nos últimos anos, deixa claro que o cérebro tem uma capacidade de se adaptar melhor aos estímulos até os seis anos. Essa constatação deixa explícito que, nessa faixa etária, as crianças se adaptam mais facilmente aos estímulos do ambiente. Por isso, é importante encorajá-las em relação ao aprimoramento de habilidades. E se o aluno não é bem estimulado nessa fase, não significa que as portas se fecham. Ele até terá condições para aprender, mas será um processo mais laborioso.

JC – Nesse contexto, a fonoaudiologia pode se sobressair como primordial para a promoção do desenvolvimento da comunicação saudável?

BIANCA – A nossa especialidade entende que é bem mais fácil e pouco custoso prevenir do que remediar. Lamentavelmente, a gente vê que as pessoas ainda associam a fonoaudiologia a patologias e a distúrbios da comunicação, mas o profissional que atua na educação tem o papel de promover o desenvolvimento da linguagem no tempo esperado, de orientar os professores sobre a forma mais adequada para agir diante da criança com dificuldades.

JC – Os problemas de aprendizagem e as dificuldades de comunicação também prejudicam a socialização da criança?

BIANCA – Muito. O desvio fonológico, caracterizado por alterações de sons na fala devido à troca de fonemas, e a gagueira prejudicam a interação dos alunos. Basta perceber que hoje, infelizmente, o fenômeno do bullying está muito associado a problemas de linguagem. Por isso, é importante o fonoaudiólogo ter um olhar diferenciado nesses casos para fazer com que a criança se desenvolva plenamente.

JC – Como deve ser a presença do fono nas escolas?

BIANCA – O nosso objetivo é fazer com que esse profissional entre na rede de ensino para acompanhar e monitorar um determinado núcleo. É importante dizer isso porque, quando se pensa em fonoaudiólogo escolar, principalmente em escola pública, parece uma utopia. Pensar em exclusivamente um fono para cada escola é uma quimera. A proposta é que ele fique na rede, numa determinada região de ensino que congrega várias escolas.

JC – O que podemos considerar como transtornos de aprendizagem?

BIANCA – Antes de tudo, é importante diferenciarmos dificuldades de aprendizagem de transtornos de aprendizagem. As dificuldades vêm de questões ambientais, como a falta de oportunidade para aprender. Isso pode se refletir em crianças que estão numa escola que não tem um bom projeto pedagógico e nem bons recursos materiais. Também pode acontecer com alunos que vivem em famílias e comunidades que não incentivam os estudos ou as habilidades acadêmicas. Então, essas crianças terão baixo desempenho na escola e apresentarão dificuldades por falta de oportunidades para aprender. Já aquelas com transtornos de aprendizagem têm condições de base biológica que justificam um transtorno. Isso envolve questões neurológicas, auditivas, visuais e outros processos que justificam a denominação de transtornos de aprendizagem. Diante dessa ótica, podemos destacar a dislexia, caracterizada como uma condição neurológica que acarreta uma dificuldade no processo de alfabetização. Se não houver identificação e intervenção precoces em casos como esse, a criança corre o risco de ter toda a vida acadêmica prejudicada.

JC – Quando uma criança apresenta dificuldade de aprendizagem, como a equipe pedagógica geralmente aborda a família?

BIANCA – Ainda há situações em que as escolas já passam um diagnóstico relacionado à transtornos da aprendizagem para os pais, mas não deve ser assim, pois a instituição educacional não é um lugar para diagnosticar problemas. A equipe pedagógica tem o papel de ver os sinais de alerta, de perceber quando um aluno não acompanha o ritmo médio da turma. Quando isso acontece, os professores devem encaminhar a criança para fazer uma avaliação fora da escola. Com um fonoaudiólogo dentro da rede de ensino, os pedagogos sentem mais segurança para dialogar, dividir os anseios e fazer esse encaminhamento.

JC – Como o transtorno do déficit da atenção e hiperatividade (TDAH) compromete a aprendizagem?

BIANCA – A atenção é uma questão crucial para o aprendizado. Só aprendemos aquilo que somos capazes de perceber. Então, o aluno com transtorno de atenção não consegue se concentrar numa aula e tem dificuldades para manter o foco num assunto por muito tempo. Então, isso é muito preocupante e requer que a criança receba uma intervenção precoce fora da escola e de um olhar especial dentro da sala de aula.

JC – Qual o papel do fonoaudiólogo na educação especial?

BIANCA – Sabemos que as crianças que convivem com alguma deficiência precisam de um olhar diferenciado, mas elas podem frequentar uma sala regular. Nesse contexto, o professor que acompanha esses alunos precisam estar preparado e instrumentalizado para trabalhar com eles. Além disso, esses pedagogos precisam de o fonoaudiólogo educacional como aliado. Nesse sentido, dentro dessa política de educação especial, devem ser adotadas salas de recursos multifuncionais. Nelas, é trabalhada a comunicação alternativa ou suplementar. E o fono pode ajudar os professores a lidarem com esse processo. É por isso que, em todos os sentidos, somos aliados da equipe pedagógica.