Itacuruba, uma cidade
sem moto, sem carro, sem pressa

O distante município de Itacuruba, no Sertão do Moxotó pernambucano, parece um mundo a parte. É uma cidade em outra época. Por lá, a vida segue mansa, lenta, sem pressa e sem barulho. Lembra o interior de outros tempos, antes da chegada da motorização, do desenvolvimento. A cidade que possui a menor frota de carros e motos de Pernambuco tem ritmo próprio e ele é vagaroso. O município ainda não se rendeu aos encantos da motocicleta e, por consequência, não sofre as sequelas da epidemia sobre duas rodas.

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Ao contrário, por lá, algumas regras de trânsito são aplicadas ao contrário. O uso do capacete pelos passageiros de motos, por exemplo, é proibido. Caso um motoqueiro entre na cidade usando o equipamento e com o passageiro também equipado, a polícia rapidamente é acionada e os visitantes abordados. A proibição foi adotada pela Polícia Militar para evitar a estratégia nos assaltos, frequentes na região. A prefeitura e os habitantes aprovaram.

Vivemos numa calmaria. O último acidente que tivemos conhecimento aconteceu há dois anos

Nelson Alves

Frota veicular de Itacuruba

Motos

613

Veículos registrados

Carros

228

Carros

Motos

262

Motos

Mapa de Pernambuco

0,23

Veículos registrados em Pernambuco

Itacuruba tem uma frota veicular de apenas 613 veículos registrados. Entre eles, 228 carros e 262 motos. A quantidade representa apenas 0,23% dos veículos registrados em Pernambuco. Essa baixa motorização se reflete no município. A principal das três ruas pavimentadas que a cidade possui confunde-se com calçada de tantas pessoas que caminham por ela. A tranquilidade reina. O silêncio de locais livres do barulho excessivo de motores predomina. É como se os itacurubenses vivessem um feriado eterno. A calmaria é tanta que quando um motor ronca, especialmente de motocicleta, chama a atenção de todos.

Calmaria em Itacuruba-PE

“Vivemos numa calmaria só. O último acidente que tivemos conhecimento aconteceu há dois anos, na estrada de acesso à cidade (a rodovia estadual PE-422). Duas motos se chocaram e o motoqueiro que morreu tinha bebido. Desde então, mais nada. Trânsito, realmente, não é nosso problema. Todo mundo se conhece e se respeita quando está ao volante ou pilotando uma moto. Também não precisamos de sinalização. Agora, sabemos que todo mundo anda sem habilitação”, admite o secretário de transportes de Itacuruba, Nelson Carlos Alves. Secretário que, na prática, pouco ou quase nada cuida do trânsito. Tem como única tarefa o gerenciamento do transporte escolar de 221 estudantes e, devido à forte seca, da distribuição de alguns carros-pipa fornecidos pelo Exército.

Há 27 anos, a cidade de Itacuruba, então localizada no meio da caatinga pernambucana, foi inundada pelas águas do Rio São Francisco para a construção da barragem de Itaparica. Os moradores foram transferidos para a nova Itacuruba, uma espécie de cidade cenográfica a 481 quilômetros do Recife. Tem uma população de pouco mais de 4 mil habitantes, vivendo quase que exclusivamente dos empregos que a prefeitura oferece.

Desrespeito que constrange

As cidades pernambucanas de Brejão, no Agreste Meridional, e Trindade, no Sertão do Araripe, são o oposto de Itacuruba. O que a terceira tem de calmaria, os dois primeiros municípios têm de problemas associados às motocicletas. Trindade é a terceira cidade com a maior taxa de mortalidade por acidentes de moto. São 39,6 óbitos por 100 mil habitantes. Já Brejão figura como uma das cidades que têm alto risco de acidentes de motocicletas, segundo estudo da Secretaria Estadual de Saúde (SES). São apenas dois dos 135 municípios pernambucanos que têm mais motos do que automóveis em suas frotas – somente 49 cidades do Estado têm mais carros que motocicletas.


Trindade

Cruz

39,6

Óbitos por 100 mil habitantes em Trindade

Carros

49

Cidades do Estado têm mais carros que motocicletas

Motos

135

Municípios pernambucanos que têm mais motos do que automóveis

Em Trindade, o desrespeito ao bom senso e as mínimas regras de segurança chega a constranger. As motos estão por todo lado, de toda forma, conduzidas por qualquer pessoa – criança, adolescente, com excesso de passageiros e sem o uso de qualquer tipo de equipamento de segurança. São motocicletas velhas, sem placas, adultos transportando três, quatro pessoas, entre elas crianças e até bebês. Cinquentinhas conduzidas por adolescentes e muitas delas sem condições de uso. Isso tudo sem qualquer tipo de constrangimento, já que não há fiscalização e a prefeitura, assim como a maioria da região (a exceção é Araripina, que municipalizou o trânsito), é omissa diante do problema.

Tem sido um problema difícil de lidar devido à falta de recursos

Ronaldo Ferreira de Melo

Trindade é a cidade mais problemática para a gestão da IX Gerência Regional de Saúde (Geres). Na estatística, Ouricuri, na mesma região e sob coordenação da mesma gerência, tem mais números de mortos e feridos por motos, mas em Trindade a afronta dos condutores é maior. Ninguém respeita nada. O número de motos é quase três vezes a quantidade de automóveis. A secretária de Saúde do município, Suênia Barros de Sá, revela que acontecem, em média, dois acidentes de moto por dia na cidade e nos fins de semana as ocorrências triplicam. O problema é o mesmo de outras regiões: condutores de menor que dirigem sem habilitação, sem capacete e muitas vezes alcoolizados. Com a diferença que em Trindade o desaforo dos condutores é maior: os acidentes ocorrem com mais frequência na área urbana do que na zona rural, como na maioria das cidades do interior.

Em Brejão, embora a cidade tenha a 11ª menor frota veicular do Estado, a cidade figura entre as cidades com muito alto risco de acidentes de motos. Pela análise da SES, a taxa de mortalidade é de 147,1 por 100 mil habitantes, um número alto considerando a população do município de 13 mil habitantes. “Tem sido um problema para nós, difícil de lidar devido à falta de recursos. Foram 12 pessoas mortas em acidentes com motos, duas delas em garupas, de janeiro até maio. Já recebi ofícios do próprio governo do Estado questionando o município sobre essa alta taxa e não sabemos o que fazer”, assume o prefeito de Brejão Ronaldo Ferreira de Melo. Brejão possui uma frota de 1.410 veículos, sendo 395 carros e 725 motos.


Frota veicular de Brejão

Motos

1.410

Veículos registrados

Carros

395

Carros

Motos

725

Motos

Flagrantes da dor