MALHA CICLÁVEL

57,94 km de estrutura ciclável existem na cidade (*) 33 km foram implantados após o Plano Diretor Cicloviário da RMR (PDC) (*) 18 km (desse total) seguiram as diretrizes do plano. O restante não. 4 Anos para fazer 28km

(*) Considerando os 5,5 km da Ciclofaixa Setúbal que a prefeitura promete implantar x

No Recife, a bicicleta ainda é coadjuvante

Quando o assunto é ciclomobilidade, não é necessário sequer mostrar números para evidenciar a distância que separa o Recife, capital pernambucana, de Fortaleza, a capital do Ceará que, mesmo sendo nordestina, trabalha para virar a cidade mais ciclável do País. Basta tentar pedalar pelo Recife que a realidade se escancara. Na cidade, a bicicleta continua sendo coadjuvante na mobilidade urbana, ainda voltada quase que exclusivamente para o automóvel. Segue sem vez no sistema viário, com poucas estruturas cicláveis e sem protagonismo nas políticas públicas do município, o que elimina as perspectivas. São apenas 52 quilômetros de infraestrutura voltada para a bike e, mesmo assim, desconectada e conquistada a duras penas em praticamente dez anos de gestões municipais. Em quatro anos, a Prefeitura do Recife conseguiu implantar apenas 28 quilômetros. O discurso é de que duplicou a malha da cidade – o que não deixa de ser verdade sob a ótica estatística –, mas nas ruas ele vira espuma. Enquanto isso, em Fortaleza foram mais de 150 quilômetros implantados no mesmo período. E 172 quilômetros em cinco anos.

Não à toa, o descompromisso da gestão municipal com a ciclomobilidade termina por tornar ácida toda a percepção de quem usa e luta pela bicicleta como transporte no Recife. “A prefeitura tem um discurso hipócrita de que inverteu as prioridades na mobilidade urbana e de que está avançando. Mas não está. O Recife é a cidade dos potenciais desperdiçados. É agradável, compacta, mas pensada e operacionalizada apenas para os carros. Fortaleza viu que a bicicleta tem poder político e o explorou. Teve a visão política. Lá, a gestão da bicicleta não é feita pelo gestor do trânsito, como acontece com a CTTU (Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife). É feita por gente que pedala. Quem só enxerga o carro no congestionamento só vai querer encontrar formas de tirá-lo de lá. Não pensa na mobilidade ativa. Não tem coragem de enfrentar o carro, a classe média, de estreitar as faixas de tráfego para acomodar o ciclista no sistema viário”, critica Daniel Valença, da Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife (Ameciclo).

“Em Fortaleza, a visão da ciclomobilidade foi de poder político. Aqui, a gestão é covarde. Não enfrenta o trânsito, não enfrenta a classe média. Não tem coragem sequer de estreitar as faixas de tráfego para colocar o ciclista na rua, como Fortaleza tem feito nesses anos”

Daniel Valença, da Ameciclo

SEM ENXERGAR O CICLISTA

As críticas não param por aí. Na visão dos cicloativistas, até mesmo quando implanta um pouco de estrutura cicloviária, a gestão municipal dá sinais de que ainda enxerga a bicicleta como coadjuvante. A sensação é de que o ciclista vai sempre sendo jogado para o lado, retirado das vias principais e importantes, que fazem as conexões mais rápidas e onde todo mundo quer andar. Em troca, lhe oferecem caminhos mais longos e tortuosos por ruas que já seriam perfeitamente cicláveis por terem menor volume de tráfego. Por aqui, reforçam os ciclistas, o Plano Diretor Cicloviário da Região Metropolitana do Recife (PDC), concluído em 2014, ao custo de quase R$ 1 milhão, é frequentemente ignorado. O plano orienta a implantação de ciclofaixas e ciclovias em uma via, mas a prefeitura faz em outro. Em Fortaleza, o PDC virou bíblia, livro de cabeceira.

PDC

590 km De estrutura ciclável na RMR até 2024 260 km No Recife 76 km Seriam finalizados ainda na primeira gestão do PSB, que somados aos 24km existentes totalizariam 100km de malha ciclável x

“Exemplos dessa falta de lógica não faltam pela cidade. A recente ciclofaixa de Setúbal é um deles. A prefeitura fez um traçado diferente, em vias que não estavam projetadas no plano. Tirou o ciclista das ruas e avenidas importantes. Outro exemplo é a ciclofaixa que deveria estar na Estrada de Belém, em Campo Grande, e foi parar numa rua paralela, que já era perfeitamente ciclável. Não vamos reclamar quando a cidade ganha uma nova ciclofaixa ou ciclovia, sem dúvida, mas se existe um plano a ser seguido por que não cumpri-lo. É mais um exemplo de que a CTTU busca apenas bater metas, com a quantidade de quilômetros implantados. Não se preocupa em proteger o ciclista, de colocá-lo nas principais vias para dar-lhe prioridade e protegê-lo com equipamentos”, reforça Daniel Valença.

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O Plano Diretor Cicloviário da Região Metropolitana do Recife (PDC), concluído em 2014, ao custo de quase R$ 1 milhão, previa 590 quilômetros de estrutura ciclável no Grande Recife até 2024. Na capital pernambucana seriam 260 quilômetros e a promessa do prefeito Geraldo Júlio, à época, era de chegar a 100 quilômetros na primeira gestão. Seriam 76 quilômetros que, somados aos 24 quilômetros existentes, totalizariam a meta inicial. Não deu certo. Foram executados apenas 18 quilômetros.

“O Recife gasta R$ 16 milhões por ano com os amarelinhos (orientadores de trânsito) e quase não investe R$ 2 milhões em estrutura ciclável como Fortaleza tem feito, em média, por ano. Também não há mais diálogo com os cicloativistas”

Daniel Valença, da Ameciclo

FAIXAS DE ÔNIBUS

A distância também é grande entre o Recife e Fortaleza quando o tema é prioridade viária ao ônibus. Apesar de a criação da Faixa Azul – semelhante ao Sistema BRS (Bus Rapid Service) do Rio de Janeiro – ser um mérito da gestão PSB e a capital pernambucana ter avançado, a ampliação da malha ainda é tímida. O Recife tem importantes corredores de faixas exclusivas – como as Avenidas Mascarenhas de Moraes, Conselheiro Aguiar e Domingos Ferreira –, mas ainda é muito pouco. São apenas 36 quilômetros de Faixas Azuis implantadas em sete corredores, em cinco anos. Fortaleza pulou de 68 quilômetros para 107 quilômetros no mesmo período e ainda fiscaliza eletronicamente a grande maioria das faixas. Encontrar uma avenida com prioridade viária para o ônibus de um lado e ciclofaixa do outro – como se vê em diversas ruas da capital cearense – é algo inimaginável no Recife.

Malha faixas azuis

36 km de Faixas Azuis existem no Recife 5 Anos foi o tempo de implantação (2013 a 2018) 20,51 km de faixas exclusivas existiam na cidade até 2012

As Faixas Azuis ainda são um potencial não explorado, apesar de os ganhos de velocidade para a operação comercial dos ônibus serem tão positivos como em Fortaleza – chegam a 118% em alguns corredores. “O ônibus sofre como a bicicleta. Só ganha espaço quando se acomoda o carro. As Faixas Azuis de Boa Viagem, por exemplo, só saíram do papel quando a Via Mangue foi concluída. Para implantar uma faixa de ônibus na Agamenon Magalhães a prefeitura vem, há mais de um ano, promovendo intervenções de trânsito para os carros na Ilha do Leite, Ilha do Retiro e Encruzilhada primeiro. A bike e o ônibus sempre estão depois do carro. Estamos cansados disso. Aliás, a cidade está cansada”, finaliza Valença.

SILÊNCIO

A Prefeitura do Recife não quis conversar com o JC sobre a evolução da malha ciclável e das faixas de ônibus da cidade. Enviou apenas dados por email mostrando o que foi feito nas duas áreas. O silêncio, mais uma vez, prevaleceu. O constrangimento diante dos fatos, também.