MALHA CICLÁVEL

68 km era a extensão da malha ciclável da cidade em janeiro de 2013 239,9 km é a extensão em setembro de 2018 68 km é o crescimento no período x

A revolução da ciclomobilidade

ROBERTA SOARES
betasoares8@gmail.com

Um tapa na cara. Assim podem ser vistos os ensinamentos que Fortaleza, no Ceará, tem dado ao País em relação à mobilidade urbana, especialmente à ciclomobilidade. A capital cearense, diferentemente da pernambucana – embora nordestina também – deu um salto na infraestrutura viária voltada para as bicicletas. A cidade está repleta de ciclofaixas. Por toda parte. E a grande maioria conectada, em bairros de classe média, mas também na periferia.

Inclusive cortando áreas com altos índices de violência. A política voltada para a ciclomobilidade fez a malha ciclável aumentar 249% em cinco anos, passando de 68 quilômetros em 2013 para 240 quilômetros em 2018. Tendo como foco o estímulo da bike como opção de transporte, o município terminou por promover outras melhorias de impacto positivo na segurança viária, passando a ver os números de violência no trânsito caírem – já são 9% menos mortos e 15% menos feridos no trânsito. Quem visita a cidade vê que Fortaleza está fazendo o dever de casa.

Estruturas cicláveis

132,9 km Ciclofaixas 103 km Ciclovias 3,9 km Ciclorrota 60 mil 60 mil reais é o custo, em média, do quilômetro de ciclofaixa em Fortaleza (incluindo a sinalização de toda a via) x

“Troquei a moto pela bicicleta quando colocaram a ciclofaixa no bairro. Já tinha muita vontade de pedalar por causa da saúde, por ser uma forma de exercício. Mas tinha medo. Quando fizeram a faixa vi que era a hora. Há quatro meses consegui comprar a bicicleta e vou e volto do trabalho assim. A moto fica em casa”

José Sandro Barbosa, rebobinador

bike share

O Bicicletar é o sistema do País com mais utilizações por bicicleta disponível entre as 15 cidades brasileiras com sistemas semelhantes 2.500 viagens diárias 80 estações em operação 38% dos usuários são estudantes 96% usam o Bilhete Único (cartão eletrônico do transporte público), que dá direito à gratuidade x

Bicicleta Integrada

Sistema público de empréstimo de bicicletas que permite o uso por até 14h sem exigência de cartão de crédito. Foi pensado para o trabalhador levar a bike para casa e devolvê-la quando for trabalhar. 5.797 usuários registrados 75.368 viagens 90% dos usuários utilizam o sistema para deslocamentos de trabalho, estudo e compras x

E tem mais. A gestão municipal, ainda em 2014, se auto-impôs uma meta ousada, mas não impossível: transformar a capital na cidade brasileira mais ciclável do Brasil. E já avançou no ranking. Hoje, é a quarta com a maior malha ciclável do Brasil. À frente, só municípios pesos pesados, como São Paulo (498,4 Kms), Rio de Janeiro (441,1 Kms) e Brasília (420,1 Kms), ocupando o primeiro, segundo e terceiros lugares, nessa ordem. Pelo Plano Direto Cicloviário Integrado (PDCI) da cidade, concluído na mesma época do planejamento da Região Metropolitana do Recife, serão 500 quilômetros até 2030, mas a meta, mais uma vez ousada, é alcançar 400 quilômetros até 2020. Lembrando que a cidade já tem 240 quilômetros, ou seja, quase a metade do caminho está feito.

“Sem o apoio político forte da gestão, sem o convencimento pessoal do prefeito, não teríamos conseguido. É difícil para qualquer cidade conseguir. Além do apoio, um corpo técnico preparado para convencer é fundamental. Foi esse corpo técnico, inclusive, quem convenceu o prefeito porque a ciclomobilidade não era pauta dele. Mas mesmo assim, rapidamente cedeu”

Luiz Alberto, secretário-executivo de Conservação e Serviços Públicos

Mini Bicicletar

É o sistema de aluguel de bicicletas voltado para as crianças. Funciona da mesma forma que o Bicicletar. Com a diferença que as mini bicicletas têm rodinhas x

Esse estímulo à bike como opção de transporte sustentável se reflete no depoimento do rebobinador José Sandro Barbosa, encontrado pela reportagem pedalando na ciclofaixa da Rua Fernando F. de Melo, na Vila Sátiro, periferia de Fortaleza, implantada há um ano. “Troquei a moto pela bicicleta quando implantaram a ciclofaixa no bairro. Já tinha muita vontade de pedalar por causa da saúde, por ser uma forma de exercício. Mas tinha medo. Quando implantaram a faixa vi que era a hora. Há quatro meses consegui comprar a bicicleta e vou e volto do trabalho assim. A moto fica em casa”, conta.

“O maior avanço é a percepção que a sociedade está tendo do ciclista e do pedestre. A cidade está se acostumando a conviver com eles nas ruas, a respeitá-los. Isso é muito bom, mas está longe do ideal. Precisamos pensar em cidades mais agradáveis, com velocidades reduzidas nas vias, compartilhadas, sem pressão para que o ciclista pedale apenas na ciclofaixa. Ainda vivemos num ambiente de muito estresse”

Daniel Neves, da Associação dos Ciclistas Urbanos de Fortaleza (Ciclovida)

E não pensem que Fortaleza “ladrilhou com pedrinhas de brilhante” as ruas da cidade com a ampliação da malha ciclável. Ao contrário. A infraestrutura é simples, extremamente simples, inclusive com problemas e falhas. A gestão investiu prioritariamente em ciclofaixas (quando a segregação do trânsito não é total. É feita com pintura e tachões, sendo mais barato) e não em ciclovias (quando o ciclista fica totalmente separado do tráfego, fisicamente e com mais segurança. Mas custam mais caro). Há ciclofaixas em vias de 60 km/h e de 50 km/h. Os equipamentos também são unidirecionais, ou seja, têm apenas um sentido, que é o do tráfego da via.

“Além da expansão da quilometragem da malha cicloviária, que é indiscutível, tivemos várias outras ações que têm oferecido mais segurança e espaço para quem pedala, como os sistemas de bicicleta compartilhada, a conexão da rede e a diminuição da velocidade das vias. Mas ainda são feitas obras viárias que priorizam o tráfego dos carros, como viadutos e túneis, que tornam as vias ainda mais velozes e perigosas”

Felipe Alves, da Ciclovida e da União dos Ciclistas do Brasil (UCB)

Bicicletar Corporativo

É o sistema voltado para os funcionários municipais. São seis estações (todas instaladas em órgãos públicos) e 40 bicicletas disponíveis. As bikes são liberadas por QRCode A proposta é estimular empresas e instituições privadas a fazerem o mesmo 14 viagens é a média por dia útil 50% dos usuários têm entre 35 e 45 anos x

“A lógica foi a segurança do ciclista porque os motoristas, por hábito, não olham para os dois lados em vias de sentido único. Não foi evitar tirar mais espaço do automóvel”, garante Gustavo Pinheiro, um dos técnicos do Plano de Ações Imediatas de Transporte e Trânsito (Paitt), grupo que atua integrado e está ligado à Secretaria de Conservação e Serviços Públicos de Fortaleza. Ciclofaixas unidirecionais oferecem mais segurança ao ciclista, mas ao mesmo tempo são estrategicamente mais fáceis de implantar porque exigem uma ocupação menor do sistema viário – prioritariamente dos automóveis. Por outro lado, testam mais a civilidade e disciplina daqueles que pedalam porque os forçam a circular num sentido único. Isso porque eles têm que andar, prioritariamente, no sentido da via.

“Tenho achado excelente a implantação de ciclofaixas na cidade, principalmente por ser taxista e poder usar as faixas dos ônibus. E para aqueles que usam a bicicleta também foi bom porque passaram a ser mais respeitados. É fato que o carro perdeu espaço, mas não foi muito. Agora, em algumas ruas estreitas onde mantiveram os estacionamentos ficou ruim”

Algenor de Moraes, taxista

A revolução ciclável em Fortaleza teve uma lógica. A reportagem do Jornal do Commercio pedalou pelas ruas da capital e a percebeu de perto. Foram criados binários cicláveis, digamos assim. Uma via leva num sentido, enquanto outra, paralela, faz a direção oposta. Há, como a própria prefeitura reconhece, mais ligações Leste-Oeste do que Norte-Sul. Mas a cidade encontra-se bem conectada para quem quer usar a bicicleta como meio de transporte. A prefeitura também não investiu milhões e milhões no projeto, como muitos podem estar pensando. Ao contrário, mostrou que o transporte ativo e a mobilidade sustentável não custam tão caro. É basicamente vontade de fazer, de querer político. O que se vê em Fortaleza é, basicamente, tinta, tachões e placas nas ruas. Tem gasto uma média anual de pouco mais de R$ 2 milhões para implantar as ciclofaixas.

“Foi muito bom para quem usa a bicicleta essa quantidade de ciclofaixas pela cidade. Antes, só pegava um trecho seguro do Centro para casa na Avenida Bezerra de Menezes. Agora, tenho ciclofaixas em todo o caminho. Pego nas Avenidas Antônio Sales e Domingos Olímpio até a Bezerra de Menezes. Chego mais rápido em casa e pedalo menos preocupado por não estar no meio dos carros”

Antônio José, servente de pedreiro

DECISÃO POLÍTICA

Na capital cearense, o que houve foi decisão política de fazer. O prefeito Roberto Cláudio apoiou e apoia as demandas dos engenheiros e arquitetos que planejam a ciclomobilidade. Priorizar o transporte ativo não foi promessa de campanha nem de reeleição, mas diante da pressão dos cicloativistas que, em 2013, pegaram carona na mobilização nacional que o País vivia por condições de transporte com mais qualidade e o auge das intervenções de ciclomobilidade do PT em São Paulo, o político enxergou o caminho.

“Sem o apoio político forte da gestão, sem o convencimento pessoal do prefeito, não teríamos conseguido. É difícil para qualquer cidade conseguir, aliás. Além do apoio, um corpo técnico preparado para convencer é fundamental. Foi esse corpo técnico, inclusive, quem convenceu o prefeito porque a ciclomobilidade não era pauta dele. Mas mesmo assim, rapidamente cedeu. Além disso, apostamos nas vantagens da bicicleta para a saúde da população e fugimos do embate com o automóvel”, ensina Luiz Alberto, secretário-executivo de Conservação e Serviços Públicos de Fortaleza e coordenador do Paitt.

“Nós estamos no Paitt para tirar as ciclofaixas do papel. Esse é nosso objetivo. Encontrar formas de executar a política de ciclomobilidade na prática. Uma das grandes diferenças que temos em relação a outras cidades é que o planejamento da bicicleta é feito por quem pedala. Dos 20 profissionais que atuam no grupo, pelo menos dez utilizam a bicicleta com frequência”

Gustavo Pinheiro, engenheiro do Paitt

SEM POLÊMICAS COM O AUTOMÓVEL

Que os cearenses são práticos, sem frescura ou adeptos do rebuscamento, todo mundo sabe. E foi essa característica que terminou sendo levada ao pé da letra quando a gestão decidiu criar o Paitt e priorizar a ciclomobilidade na cidade. “No lugar de retirar faixas para os carros, apenas reduzimos a largura e abrimos espaço para as ciclofaixas. Não polemizamos com os automóveis. Focamos em implantar a infraestrutura e, não, na polêmica. Fomos tirando quilômetro por quilômetro do papel, dia após dia. O fato de termos implantando não só em bairros de classe média, mas também na periferia, mostrou o nosso olhar para a a bicicleta como transporte”, pondera o secretário. Cientificamente, o estreitamento das faixas de tráfego promovem uma redução de 57% no número de acidentes com vítimas porque, com faixas mais estreitas para circular, os motoristas automaticamente reduzem a velocidade.

PRAGMATISMO

Uma das grandes diferenças de Fortaleza é que quem planeja a política ciclável pedala. Usa a bicicleta, inclusive, como transporte. Foram os planejadores do Paitt, vale destacar, quem pedalaram com a reportagem para conhecer parte da estrutura ciclável da cidade. Dos 20 profissionais que atuam no grupo, pelo menos dez utilizam a bicicleta com frequência. Uma prova de que não se pode planejar políticas de transporte ativo sem pedalar ou caminhar. É difícil para quem depende do automóvel para todos os deslocamentos. No Recife, não existe sequer uma gestão específica para a ciclomobilidade. O planejamento é geral. Esse, talvez, seja o principal ensinamento dos fortalezenses.

“No lugar de retirar faixas dos carros, apenas reduzimos a largura e abrimos espaço para as ciclofaixas. Não polemizamos com os automóveis. Focamos em implantar a infraestrutura e, não, na polêmica. O fato de termos chegado na periferia mostrou o nosso olhar para a a bicicleta como transporte”

Luiz Alberto, secretário-executivo de Conservação e Serviços Públicos

“Não precisa ter muito dinheiro para fazer política ciclável. Aproveitamos os contratos existentes. O que é necessário é decisão política e apoio de gestão. E é por isso que Fortaleza é a cidade que mais avança na mobilidade sustentável no Brasil atualmente. Nossa meta é atuar em três frentes: ações de alto impacto, de curto prazo e baixo custo”

Bianca Macedo, engenheira do Paitt

ESTRATÉGIA

Nada de elaboração de mega projetos para implantar coisas simples. Essa é outra lição dos fortalezenses. “Comer pelas beiradas”. Essa expressão tão conhecida dos pernambucanos foi a estratégia adotada pela equipe do Paitt. Por estarem sob gestão da mesma secretaria (Conservação e Serviços Públicos), a ampliação da malha ciclável foi sendo introduzida nos contratos já existentes, como os de pavimentação e sinalização de ruas, por exemplo. O mesmo valeu para os contratos de fiscalização eletrônica da cidade. Essa praticidade fica explícita nas palavras de um dos integrantes do Paitt. “Estamos aqui para tirar as coisas do papel. É o que queremos, implantar ciclofaixas pela cidade”.

A instalação do sistema de compartilhamento de bicicletas públicas – em Fortaleza chamado de Bicicletar, operado pela Serttel e patrocinado pela Unimed – ao longo da malha ciclável também faz diferença em relação ao Recife. São 80 estações – a mesma quantidade da capital pernambucana –, mas todas integradas às ciclofaixas. O Bicicletar, inclusive, é o sistema do País com mais utilizações por bicicleta disponível entre as 15 cidades brasileiras com projetos semelhantes. São 2.500 viagens diárias.