Quando eu abro o olho pela manhã, a primeira coisa que eu faço é me alongar. Essa prática está comigo há 20 anos”

Jaciara, 79

Vitalidade a toda prova

Aguardando a chegada dos 80 anos em 2018, a pernambucana Jaciara Gomes da Silva não consegue se lembrar da última vez em que se viu acamada por causa de um resfriado ou de outra enfermidade. Também foge à memória da idosa a lembrança de dias monótonos. Sedenta por aproveitar a vida, ela é faixa marrom de caratê, faz dança do ventre e ainda se arrisca no futebol, vôlei e basquete. Também é capoeirista e não passa um só amanhecer sem realizar, ao menos, 30 minutos de alongamentos. Com um nível de atividade que é exceção, inclusive, entre os mais novos, Jaciara apenas vem intensificando o ritmo de vida adotado na juventude. E garante que faz tudo sem sentir o peso da idade.

Depois dos 70 (anos), eu já vejo gente assim, já caidinha em um canto, sem coragem para fazer nada. Quando sai para ir a qualquer lugar já reclama que as pernas estão doendo. Eu não. Estou quase nos 80 e vou para todos os cantos. Danço, luto caratê, também tenho 10 anos de capoeira. Quando eu abro o olho pela manhã, a primeira coisa que eu faço é me alongar. Essa prática está comigo há 20 anos”, contou

Nascida em Caruaru, em 1938, Jaciara foi criada de maneira conservadora. A família, no entanto, não conseguiu domar o seu ímpeto por muito tempo. Apaixonada por dança desde criança, ela chegou a externar a vontade de ser bailarina aos pais. As tentativas de convencê-los a aceitá-la na dança, porém, sempre eram encerradas com surras. Mas apenas até ela fazer 16 anos. Com essa idade, Jaciara não conseguiu mais sufocar o desejo de dançar e fugiu para o Recife.

Tudo que eu sonhava fazer eu não podia se continuasse morando com eles (com os pais), então eu me mandei.

Pouco tempo depois que eu vim de Caruaru para o Recife, entrei no Balé Negro. Todos os dançarinos eram negros e os que não eram se pintavam de preto. Eu ficava pretinha mesmo. Passei um ano e meio. Lá eu tive a oportunidade de conhecer outras pessoas de dança e de teatro. Então, entrei para o balé clássico, aprendi outros ritmos. Fiz vários cursos de teatro, tenho mais de 10 (certificados), mas nunca abandonei a dança. O teatro eu parei um pouco agora, só faço a Paixão de Cristo do Recife. Já tenho 20 anos nesse espetáculo”, contou.

As atividades esportivas se somaram aos compromissos de dança e teatro de Jaciara alguns anos depois que ela entrou para a terceira idade. Por meio de uma amiga, chegou à Casa de Apoio ao Idoso Vovó Bibia, no Prado, Zona Oeste do Recife. Em um primeiro momento, não se interessou pelo local por achar que se tratava de um espaço destinado a idosos doentes. A vontade de conhecer a instituição surgiu depois que a colega relatou como era a programação.

Quando eu cheguei lá, vi que os idosos faziam aeróbica, ginástica… Eu já fui dizendo que fazia dança do ventre. Aí, passei três anos ensinando as outras idosas. Fizemos apresentações e também passei a participar das atividades da casa. Estou lá até hoje. Frequento todos os dias”, contou.

Também foi na instituição que Jaciara teve os primeiros contatos com o caratê. A arte marcial, no entanto, deixou de ser ensinada no local depois que assaltos sucessivos aconteceram. “O professor não quis se arriscar, mas me disse que eu podia dar continuidade na Mustardinha, com o mestre Formosinho. Oxe, fui na hora. E estou lá há uns oito anos. O professor é uma criatura maravilhosa. Com o caratê, não sinto dor em articulação, não sinto estresse. Pode estar caindo o mundo. Eu digo: ‘deixe cair, depois a gente apanha os pedacinhos’”, ensinou.

Os treinos acontecem nas noites de todas as terças e quintas-feiras. Mesmo sem ter ninguém para acompanhá-la, a idosa não se intimida. Usa o transporte coletivo para ir e voltar sozinha das aulas. A meta é chegar à próxima graduação, que já é a faixa preta. Para isso, a caminhada estimada é de mais um ano na modalidade. Para Jaciara, um presente de 80 anos. Para quem conhece a sua história, mais um dentre tantos exemplos.

 

Esportes radicais ainda como meta

Dançarina, atriz, carateca, capoeirista, jogadora de esportes de quadra. Atividades mais que suficientes para ocupar a vida de qualquer pessoa. Mesmo assim, Jaciara Gomes da Silva, de 79 anos, acha que ainda poderia se envolver com novas experiência. De acordo com a idosa, restaria apenas ela fazer um salto de paraquedas e mergulhar com cilindro.

Acho que são as duas únicas coisas que eu ainda não fiz. Até circo eu já experimentei. Talvez eu não possa porque já tive hipertensão. Não sei. Mas só falta isso”, contou.

Apesar de o senso comum apontar a inviabilidade dessas atividades para o público idoso, a verdade é que a idade não é empecilho. Nos dois esportes, classificados como radicais, há apenas limite de idade para iniciar. No paraquedismo, é necessário ter, pelo menos, 16 anos. O mergulho, por sua vez, pode ser vivenciado por crianças de 10, desde que acompanhadas pelos responsáveis.

De acordo com os profissionais desses esportes, o que define se alguém que já passou dos 60 anos pode se aventurar em um salto de paraquedas ou em um mergulho é a condição de saúde. “Nem a questão física é tão determinante. Já fizemos saltos com pessoas com diferentes perfis. Deficientes, com nanismo. É para todo mundo que esteja interessando. A grande questão é se essa pessoa consegue ou não aguentar a adrenalina”, explicou o instrutor de paraquedismo da Vertical Jumping Martin Cruisk.

Como o salto aumenta a descarga desse hormônio no organismo, é necessário não ter patologias como labirintite, problemas cardíacos, hipertensão e pressão baixa. “Nós não temos como avaliar as condições de saúde de quem quer fazer o salto. Por esse motivo, os interessados sempre assinam um termo de responsabilidade”, explicou. “Recentemente, realizamos um salto com uma senhora de 78 anos. Ela sempre se cuidou muito e só era possível acreditar que tinha essa idade vendo a identidade”, completou Martin.

O mergulho com cilindro também exige que a pessoa esteja isenta de uma lista de doenças. Inclusive das vias respiratórias, como sinusite e asma. Essa determinação ocorre porque não há estudos aprofundados sobre os efeitos que a pressão da água pode causar no organismo de quem tem determinada enfermidade. Entre os idosos que estão com a saúde em dia, no entanto, o esporte vem conquistando muitos adeptos.

“O público com mais idade tem sido muito corriqueiro nos mergulhos. Até porque, cada vez mais, dizer que algumas pessoas são de terceira idade hoje é algo relativo. Tem gente de 70 anos que corre como um menino de 18. Pela nossa escola, passam muitos mergulhadores acima de 56, 60 anos”, apontou o instrutor Lúcio Borges, do Aquáticos Centro de Mergulho.

Fazer uma “poupança” de saúde

Com os braços cobertos por pulseiras, anéis em todos os dedos, maquiagem em dia e muita disposição, Jaciara Gomes da Silva, de 79 anos, não perdeu um só dia dos Jogos da Pessoa Idosa do Recife. O evento, realizado pela Prefeitura da cidade e encerrado na última terça-feira (26), reuniu 900 idosos de vários bairros da capital pernambucana. O objetivo do projeto, que celebrou este ano a 10ª edição, é incentivar a prática esportiva e noções de bem-estar entre pessoas com idades a partir de 60 anos.

Assim como Jaciara, muitos idosos esbanjaram vitalidade nas disputas durante os 15 dias dos Jogos. De acordo com especialistas, para chegar à terceira idade com essa energia, não há muito mistério. As condutas adotadas na juventude geralmente irão ditar a qualidade de vida após os 60.

“Eu costumo dizer que a gente precisa criar uma poupança de saúde, e que nunca é tarde para começar essa poupança. Vou usar uma teoria absoluta para dizer o que é o envelhecimento. Começamos a envelhecer assim que nós nascemos. Então, o surgimento de doenças em pessoas com 60+ é muito em decorrência de um estilo de vida inadequado nos anos anteriores”, explicou o clínico e geriatra Marcelo Cabral.

De acordo com o especialista, três condutas básicas compõem o tripé da longevidade. Exercitar-se regularmente está entre uma das principais para envelhecer sem tantas limitações. “Os exercícios aeróbicos melhoram as partes cardiorrespiratória, protegendo o coração, e a parte vascular. Já os anaeróbios garantem a manutenção das massas muscular e óssea. Quem nunca teve o cuidado de se exercitar, costuma apresentar doenças de ordem degenerativa nas articulações, como a artrose. Para as pessoas que nunca fizeram isso, digo que nunca é tarde para começar”, observou Dr. Marcelo.

A outra conduta essencial apontada pelo médico diz respeito à boa alimentação. “Em Okinawa, no Japão, encontramos a maior população centenária do planeta. E eles prezam esses pilares: exercícios e dieta balanceada. Mas não é apenas isso. Quando avaliamos os hábitos desses indivíduos de Okinawa, vemos que eles sempre valorizaram a relação com a natureza como meio de aliviar o peso do estresse”, pontuou Dr. Marcelo.

Ocupar o tempo ocioso com atividade que gerem a satisfação é a última parte do tripé para garantir um envelhecimento com saúde e mais disposição. “É importantíssimo a junção do lado emocional com a questão física. Na terceira idade, o idoso deve descobrir atividades que sejam prazerosas. Pode dedicar mais tempo à família, aproveitar os netos, filhos. Pensar em atividades que possam estar ajudando os outros é outra maneira de preencher os dias. Manter a mente ativa é fundamental”, concluiu.

Expediente

Reportagens
Luana Ponsoni

Fotos
Diego Nigro
Luana Ponsoni

Edição de vídeo
Vitória Gama

Expediente

1 de Outubro de 2017

Diretoria

Laurindo Ferreira
Diretor de Redação do Jornal do Commercio
Maria Luiza Borges
Diretora de Conteúdos Digitais

Edição de texto

Eduardo Azevedo
Marcos Leandro

Design

Wilker Mad
Designer

Front-end

Moisés Falcão